A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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30.10.01
Soneto da Teoria do Merecimento - Estás tão triste assim quanto parece? - Estou, mas algum dia vai passar. - Já faz tempo que te vejo assim chorar... - Não te preocupes, por favor... esquece... - É um mal comum, que a todos acontece. Não existe outra forma de encarar Senão viver, e ao tempo relegar, Porque quem não nos quer não nos merece. - Mas como, se a memória me resgata Aquela decisão tão insensata, Quando deixei quem mais me merecia? - Não podes fazer nada agora, aceita... - Eu sei, mas hoje paira-me a suspeita De que ela já aprendeu essa teoria... 29.10.01
Soneto do Violoncelista Psicopata Quando empunhou o arco do instrumento, Quis arrancar do nobre violoncelo Um som que fosse triste e fosse belo, O grave/agudo seco de um lamento, Como o grito esculpido do martelo No mármore em combate violento, Cru e abafado, o grave-ferimento Das próprias cordas enforcando o cello. “É dia de sangrar, seu desgraçado!!” Disse enquanto esgrimava, debruçado, Deixando o suor cair pelo tapete. E quando achou o efeito que buscava, Quem pôde ouvir a música pensava Que alguém morria a golpes de estilete. 27.10.01
Meu primeiro soneto (ou Soneto pra lembrar quando faço aniversário) 1978, 9 de agosto: Nasço, carioca, O nome “Márvio Rafael” me toca, Vindo eu depois do almoço, nada afoito. A inspiração dos pais naquele coito Vê-se neste sorriso de boboca Que gosto de exibir, e que não choca Se inda o tiver após fazer dezoito. Entre tantos contentes, sinto a pressa Dos que esperam de mim qualquer promessa E tecem previsões pro meu destino. E ao ver que por mim fazem tanta festa, Descubro a vocação que só me resta: Pra sempre querer ser um bom menino. 24.10.01
Sevilhana Tem o rosto das moças andaluzas. É morena na pele, nos cabelos, E sabe desenhar virando os olhos Um véu que esconde trinta mil mistérios. Um quê da Arábia e um outro quê de Espanha, Como se um dia, o Islã e o Cristianismo Criassem juntos uma fé diversa Cujo templo eu devesse construir. Se houvesse castanholas nessas mãos, A percussão flamenga dos destinos Marcaria o compasso do meu rumo. Mas não há nada além de um só fascínio Que Sevilha inspirou a tantas almas E, por acaso, eu encontrei no Rio. 17.10.01
Soneto-salmo da última crença Se puderes, Senhor, dar-me um ouvido, Aceita este convite que promovo: Faze de mim agora um homem novo E purifica o barro já falido. Que hoje sou dor, pecado repetido, Vergonha e mágoa andando em meio ao povo. Sei que sozinho as culpas não removo, Por isso peço ajuda, encarecido. Se eu não puder recomeçar do zero, Me arranca os pés, os braços, a esperança, Põe-me num coma e apaga-me a consciência. Direi a tudo “amém”, pois o que quero É ser à tua imagem semelhança, Mesmo que signifique inexistência. Soneto a um amor sem poesia Ela nunca gostou de poesia. Foda-se. Caguei pro que ela pensa. Isto não há de ser a desavença Na qual o nosso amor fracassaria. Será pra mim no máximo heresia Que eu nunca julgarei assim imensa. Numa boa? Não faço diferença, E seguirei sentindo o que sentia. Não me vai ler? Não quer? Não tá com saco? Cansada? Trabalhou, voltou um caco? Não sabe versos ler? Tem dislexia? Ok, entendo tudo, amor, e deixo, Mas justifique sempre ou eu me queixo De que essa má-vontade é putaria. Sobre o túmulo de J.S. Bach Pudera eu ser humilde e genial Como foste, e lançar sobre os humanos Acordes, a princípio luteranos, Com ares de verdade universal. Quisera eu ensinar, tão magistral, Os cantos mais sagrados e os profanos, Indiferentemente, como planos De uma doutrina apenas musical. Quisera eu ser duma arte sacerdote, Apóstolo, messias, serviçal, E inda no ofício achar divertimentos, Ganhar de algum talento o mesmo lote, Ser autor de um legado enfim total, E dar às almas novos sentimentos. 15.10.01
O paciente A um paciente terminal, não restam mais Que duas escolhas: milagre ou eutanásia. Tudo depende da vontade de viver Ou morrer. Nenhuma das escolhas depende Do paciente. Na verdade, ele escolhe apenas O que esperar. Quem garante o milagre? Quem autoriza uma eutanásia? Pra qualquer escolha que se espere, Não haverá certeza até que venha Qualquer uma. E pra qualquer que seja a espera, Quanto mais terminal, mais é preciso Ser paciente. Ode à mesmice do planeta Uma guerra acontece a milhares de quilômetros daqui. Não me preocupo com isso. Porque sei que você mora num bairro próximo de mim Muito provavelmente bem a salvo. Hoje um carro em alta velocidade atropelou um homem A uns 100 metros da minha casa. Ele morava no prédio em frente. Sei que não poderia ser Um dos seus familiares, e assim, Nada mais eu quis saber sobre o incidente. Meu Flamengo venceu uma partida heroicamente. Jogou fora de casa, começou perdendo e saiu triunfante, com dois golaços. E daí? Você é Fluminense, que empatou sem festa em 1 a 1, E futebol nunca foi marcante na sua tão tranqüila vida. Até agora nem sei quem fez os gols. Meu único interesse hoje, ao abrir as páginas do jornal, Ao ver televisão, ao conversar com qualquer um que me traga novidades, É saber como você está, se vai bem, Se pensa em mim, se quer voltar. Porque o mundo sempre teve guerras, carros sempre mataram gente, E o Flamengo de vez em quando sabe dar alegrias. Nada em volta de nós está tão diferente de quando nos amamos. Só nós mudamos. Talvez as redações esperem de nós boas notícias, Algo que possa ser primeira página, manchete. “Último dia de mesmice do planeta: eles voltaram”. Nesse dia, serão assinados todos os acordos de paz, As ruas da cidade serão reservadas aos pedestres, Nenhum time entrará em campo, para que não haja na boca de ninguém O menor gosto de derrota, E não teremos nada a declarar, senão um ao outro. Eles que achem outras coisas pra fazer Do que ficar se metendo em nossa vida. 14.10.01
Canção Infantil para o 1º minueto do "Caderno de Anna Magdalena”, de J.S. Bach* Passa por mim um dia E olha pra quem te espera Derrama essa simpatia Sobre quem chora na primavera Vem para a minha rua E deixa ficar mais bela Enfeitada com teu sorriso, O paraíso já foi aqui. Sei que vou entender Se para o meu lado Não mais puderes seguir. Mas que o mundo nunca peça Que eu volte a sorrir... *Para download do mp3, procurar por "Bach", "Menuet" e "Anna". Duração aproximada: 2 minutos. 13.10.01
Soneto de Copacabana Copacabana madrugava fria E, na Avenida Atlântica, sem sono, Eu caminhava a trilha do abandono E o sujo meretrício me assistia. De repente, uma puta me assedia, Me pega a mão, mas nada eu intenciono. Agradeço, recuso ser seu dono Por cinqüenta paus/hora e dou bom dia. Antes de me deixar seguir meu passo, Pediu-me com doçura um quente abraço, Que lhe emprestasse dignidade humana. Ela encontrou calor numa frieza Como eu, que tive nojo e vi grandeza No dia que entendi Copacabana. 11.10.01
Os campos estão secos Pai, os campos estão secos. Nada cresce Nestas terras. Não chores, pai, sobre este solo Que não podes regar estas sementes Com o sal esperançoso dos teus olhos. Os campos, pai, estão secos. Mas nós, Que tanto suor deixamos neste piso, Não desaprendemos a suar. Andemos. Levaremos nossas mãos a outros terrenos, Nossos pés hão de pisar um pasto novo Que nos receberá agradecido e fértil. Dói-te, pai. Eu vejo. Mas se aqui ficares, Se junto destes campos tu secares, Nem saudade dos bons tempos da colheita Verás germinando no teu peito. Vem, pai, que eu te ajudo. Não desistas, Que sempre vinga o amor no que tu plantas, Mas nestes campos, pai, tudo secou. 10.10.01
Torcedores Sentam-se lado a lado, arquibancados. Pagam por incertezas em minutos. Exibem nas camisas suas crenças, Um orgulho de filhos bem-nascidos E as maldições do amor que não dá frutos. Mas são todos irmãos desamparados, Prole bastarda que adotou família, História, tradição e antepassados, Como um mistério atroz, lindo, supremo, Ilegitimamente hereditário. Os jogos são as noites de Natal Dessa grande família desunida. Meninos que jamais ganham brinquedos Assistindo aos parentes presenteados Agüentando essa inveja, comportados, Pedindo apenas pra brincar também. 6.10.01
Soneto da Inevitável Hora É provável que a gente se reveja, Em um lugar qualquer, numa hora à toa; Talvez contigo esteja uma pessoa, Talvez comigo outra pessoa esteja. Vai ser fácil? Quem sabe nunca seja Domar tanto carinho e talvez doa Perceber que um passado ainda ecoa, E disso eu peço a Deus que nos proteja. Não quero indiferenças nesta cena; Vou te cumprimentar, e já te aviso Que vou sorrir de alma sincera e plena. E neste gesto simples te autorizo A nunca se culpar ou sentir pena, E a sempre vir buscar outro sorriso... 4.10.01
Queria te dizer que estou feliz Para Ana Maria Queria te dizer que estou feliz Mas tenho medo de ser mal-entendido; Que tentes ver entrelinhas onde não há, Que aches intenções mesquinhas Onde não existe nada mais que um bom momento Pelo qual passei por estes dias. Queria te dizer que estou feliz E que sinto poder recomeçar sozinho, Mas também não quero que interpretes Que já sei viver com tua ausência. Falta algo que é teu ao meu lado Pra que eu possa dizer-te certas coisas De um jeito que nenhum de nós duvide. Queria te dizer que estou feliz Mesmo sem ter como me provar. 2.10.01
Delírio do eu maior A minha dimensão mais grandiosa Eu vou deixar no mundo bem impressa. É apenas uma chance, e me interessa Que a temporada seja vitoriosa. Não se trata de idéia pretensiosa Que o medíocre aos amigos nem confessa. É o talento que exige de mim pressa, Pois nunca teve graça a glória idosa. E eu sinto a cada vez que o sol levanta Que mais e mais meu vulto se agiganta E uma firme certeza se renova: Eu sou o maior gênio desta Terra. Se havia discussão, aqui se encerra; Se pensas o contrário, mostra a prova. 1.10.01
Soneto dos três personagens Para J.P. Cuenca e Carlos Jazzmo São três caras comuns ali sentados. Personagens de livros diferentes, Heróis – de tantas páginas pungentes, Vilões – de crimes não premeditados. Naquela mesa estão sendo julgados Das histórias os rumos aparentes Que os autores vêm dando, inconseqüentes, Aos passos desses três biografados. São romances distantes dos desfechos Reconhecendo-se por muitos trechos Como cópias de essência parecida. São três caras comuns tão semelhantes, Amigos como nunca foram antes, Se abraçando nos plágios dessa vida. |