A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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18.9.09
Inesquecibilidade Ela veio da memória, desde o primeiro dia; Não como se de tempos não a visse, Nem como se a houvesse inventado, Mas como quem vem do seu país de origem, De maneira que, naquela mesma hora, Eu pude me lembrar (em traços vivos De sentimentos familiares e sentidos) Da dificuldade que teria De esquecê-la. 26.11.06
As letras de "Cabaret" Como no post anterior a esta série eu tinha falado que estava me dedicando às letras da minha banda, o CABARET, nada mais lógico do que postá-las aqui, na ordem em que elas se apresentam no álbum. Pensei em fazer uma edição comentada de cada uma das 12 letras, mas mudei de idéia. O que posso falar delas é que capto todo um conceito perpassando cada uma delas. O estrelato, tanto no palco quanto o protagonismo da própria vida. Gente desejando (e fazendo tudo por) atenção e recebendo desamor. O palco não pode ser pouco é o caminho do exagero em busca da atenção de quem quer que seja. Quando queremos alguém, de certa forma, estamos atuando: decoramos falas, impostamos a voz, fazemos cenas. Nada garante o sucesso, mas mergulhar no personagem pode arrebatar a "platéia", o alvo da paixão. Acredito nisso, em fazer tudo o que estiver ao alcance -no mínimo, a culpa de um insucesso passa a ser do outro. Com vocês, as letras de "Cabaret", álbum de estréia do Cabaret Beijos, Márvio/Marvel www.radiocabaret.com.br 1. O palco não pode ser pouco (Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006) I Desse jeito tão normal Esse show não vale R$ 1 Desce logo, pega mal Ficar alugando o pessoal O palco não pode ser pouco não pode ser palco não pode ser pouco O pouco não pode ser palco não pode ser pouco não pode ser palco II Seu produto industrial Sua aposta audiovisual Sua pose sensual Não emplaca nem comercial Meio metro acima do bem e do mal 2. Messias pessoal (Marvel, Setembro Edições 2006) I Chorava sozinha, queria se matar Trazia uma dor e pedia amor para aliviar No primeiro que viu ela se jogou E disse: "Eu te esperei, agora me salvei, Estranhamente minha vida mudou" Pode ser que nada disso Nunca justifique o mal De fazer do amor um vício Por milagre na horizontal E se você fizer de mim O seu messias pessoal Vá por sua conta e risco Não peça perdão nem me julgue no final II Mas, numa manhã, algo aconteceu: Sozinha ela acordou Sem ninguém pra chamar de seu Ele vestiu a roupa sem dizer adeus E então desapareceu, o telefone não deu Nem rezando ele te atendeu 3. Dama da noite (João Paulo Cuenca - Marvel - Myself Deluxe, Setembro Edições 2006) I Ela está ali, debruçada sobre o bar Preocupada em manter a pose e esperar Um drink a mais, um drink a mais Um drink não é mais do que a noite, Do que noite toda vai lhe dar II Hey, hey, onde está o sucesso que ela fez, Hey, por que será Que ninguém liga a mais de um mês E nada mais, e nada mais, nada mais A dama da noite hoje não, Hoje já não é nada de mais Dentro da fumaça, não se vê néon Ninguém mais enxerga o brilho Do seu batom 4. Brilhar (Marvel - Myself Deluxe - Peter Glitter, Setembro Edições 2006) I Preciso juntar certezas As luzes estão acesas Agora eu não posso mais errar Meu corpo incandescente Cristal de calor constante A escuridão não pesa em meu olhar Vou partir, competir com a luz solar Devastar o planeta em silêncio Sem te acordar II Um vôo inatingível O sangue por combustível Eu já estou mais leve que o ar As cores estão mais densas Irradiações suspensas Numa calamidade nuclear Vou partir, competir com a luz solar Devastar o planeta em silêncio Sem te acordar E no céu, num minuto desintegrar Sem deixar nem sinal de que um dia Consegui brilhar Toda luz vai brilhar, cintilar e morrer 5. Rockstar Baby (Marvel, Setembro Edições 2006) I Meio sem querer, quase sem pensar Decidiu sair sem falar com ninguém Ela só levou roupas e CDs Ninguém entendeu Até que alguém lembrou O nome da banda que ela tatuou Se apaixonou Por um rockstar baby, you know Por um rockstar ela deixou Para trás a vida que foi Por um rockstar baby, you know Baby, you know Por um rockstar ela deixou Para trás a vida que foi Por um rockstar... II Sempre em camarins, ônibus de tour Portas de hotel, dormindo pelo chão Não parece mais ex-segundo grau Seu sorriso tem uma ironia a mais De quem tem nas mãos tudo o que já sonhou O nome da banda que ela tatuou... 6. Não desista de mim (Marvel, Setembro Edições 2006) Existe um nome que eu sempre grito Quando estou perto demais de ficar pior Existe sempre uma chance que eu peço Mas que você talvez não possa me dar Existe sempre um colo onde eu quero chorar A minha dor manchada de vermelho Existe sempre no mesmo espelho Um idiota me esperando passar Mas não, mesmo assim não desista de mim Não, não desista de mim 25.11.06
7. O amor e a guerra (Marvel, Setembro Edições 2006) I Faço isso bem Não tenho por que negar Se te desejar não me faz nenhum mal Num certo sorriso, O meu corpo confessa essa má intenção Só pra te cantar E até quando sai do tom, a música fica melhor E não tem porém que possa negociar O amor e a guerra que eu vou declarar Num certo sorriso, O meu rosto traduz toda essa má-fé Que só te quer bem É como se fosse um dom que não pode morrer em vão Não vai dar pra te abandonar nem te adiar Se ontem o amor tinha o que dizer Entrar sem bater, fazer sem doer, É algo a se aprender Mas já existe uma sombra no meu lar Que deixou a marca no edredom Sem sequer deitar, sem nem abusar... ...e morre de medo de tentar II Faço isso bem, não tenho por que negar Se te desejar não me faz nenhum mal 8. Copacabana full-time (Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006) I Quatro horas da manhã Nem sinal, a noite não pode parar Os carros que vêm na minha contramão Dão cinco tiros sem direção Uma hora, R$ 100 Tão mulher que eu nem pude acreditar No Leme, no Lido, no Arpoador Copacabana sabe até falar de amor II Vem depois esse silêncio Como o som de um paraíso infernal No gozo que vem com um grito de dor Copacabana sabe até falar de amor 9. Se você confiar (Marvel - Carlos Gustavo Barros, Setembro Edições 2006) I Por que não?! Ah, deixa disso, baby! A gente não vai fazer absolutamente Nada que você não queira Ah, eles sempre falam... E você liga pra isso?! Você gosta assim...? Você gosta assim?! Eu posso te dar todo o meu amor Se você confiar, confiar em mim II Tá mais calma? Arrá, eu não disse?! Todo mundo faz isso, baby, Inclusive seus pais Não vai mudar nada, juro Eu te deixo em casa depois Você acaba em mim Você acaba em mim 10. Lingerie (Marvel, Setembro Edições 2006) I O que eu não quis repetir aconteceu De novo eu estava ali Num quarto escuro, seu olhar, sem ter pudor, Tirava minha lingerie Faz tempo que eu prometi que nunca mais Você ia me ver aqui Mas, como um vício, o inferno volta E eu não tenho mais como fugir As suas falas são todas iguais Comoum filme antigo, um déjà vu fatal E eu sempre morro no final Amor, devagar e pouco a pouco Eu vou me vingar Amor, devagar e pouco a pouco Você vai pagar II Cada beijo agride e a noite me faz mal Me faz ter náusea de você Mas como um vício o inferno volta E eu não tenho mais o que fazer Me deixa ir, me deixa escapar Abre essa prisão, aqui não é meu lar Aqui inda vou te matar Não tenho mais nada a dividir Não tenho mais como implorar Se for pedir muito a solidão Se você não vai querer perdão Não dê as costas para mim... Não dê as costas para mim! 11. Um cadáver no palco (Marvel, Setembro Edições 2006) I Ninguem escutou, ninguém lhe deu atenção Até que caiu o microfone em suas mãos O baque seco de um corpo que ao chão tombou Fazendo a platéia inteira gritar: "Roquenrou!!" Sangue no ato, crime barato Deixe o cadáver no palco O show só termina quando ele levantar II Era um sacrifício, era autoflagelação, Era um homem condenado à consagração Finalmente a fama veio a banda não parou Finamente a multidão estava vendo um show O show só termina quando ele... Palmas e vaias, vocês são todos animais (x3) Palmas e vaias, vocês nos meus funerais Sangue no ato, crime barato Deixe o cadáver no palco O show só termina quando ele levantar O show só termina depois do bis que ele tocar O show só termina... Deixe o cadáver nu 12. Tudo o que aprendi (Marvel, Setembro Edições 2006) I Não adianta amar de qualquer jeito Eu não quero, não aceito esmola De mais ninguém. E vou dar um tempo nessa de insistir Que você ainda vale a pena, a cena Vou brindar à minha solidão Procurar meu chão Me retocar e mostrar tudo o que aprendi. II Um pouco de vinho, à meia-luz de um quarto, Um retrato vela o ritual Que vai além Não é qualquer roupa não que hoje me cai bem Tem que ser algo especial, cruel, Tudo o que os outros achem quase desleal Atração fatal Vou dar as cartas, vou me vender bem caro Sem perdoar e mostrar tudo o que aprendi III Eu quero pra mim, num gole de champanhe, Um amor que me sirva a taça De mais prazer Um beijo cuspido, um doce meio amargo, Um afago pra deixar de lado, pensando: "Se você não vem, vou beber a minha solidão, Procurar meu chão Juntar os cacos, deixar para amanhã E negar cada palavra que eu me prometi... ...ah, se eu pudesse te dar tudo o que eu aprendi". 3.6.06
Faz algum tempo... ...que não consigo blogar conforme me propus, devido ao ritmo de trabalho no jornal e ao empenho que tenho dedicado à minha banda, o Cabaret. No meu caso, poesia demanda tempo, demanda combustão e, acima de tudo, fragilização, que por sua vez, exige tempo para recuperação. Não creio que tenha perdido a inspiração, ou a mão, para versos. Acredito apenas que ando canalizando esforços para o que considero mais urgente: a música, a letra de rock. Não considero as letras que faço poemas _talvez pelo fato de sentir que elas precisam da música para ficar de pé_, mas vejo nelas, sem dúvida, um exercício de metrificação semelhante ao que me ajudou a fazer poemas rígidos no ritmo. Sem tempo para a poesia, vou fazer deste espaço um lugar para considerações. Se os poemas vierem, serão bem-vindos, mas não me obrigo mais a eles. A cabeça mudou muito desde o momento em que criei esse blog. Os blogs morreram, viraram flogs, que viraram podcasts... talvez seja a hora desde blog morrer para virar outra coisa. A partir de agora, será assim. Abraços. 6.3.05
Mais dois poemas infantis que saíram na Folha de S. Paulo. Prometo pôr em breve coisas mais maduras. Abraços. O dia em que ninguém acordou Estranhou ao perceber Que a manhã chegara sem ninguém despertar. A cidade era um vazio. Nas ruas, nenhum carro, nas praças, nenhum pombo; ninguém quis nada com aquela terça-feira. Passando pelas casas ouviu roncos, assovios e bocejos, repetindo um mesmo sonho ainda no começo. Era um mundo inteiro a babar no travesseiro. Achou aquilo errado e decidiu que não podia voltar pra sua cama. Foi berrar pelos bairros contra o sono e a mesmice, pois daquela chatice não precisa não senhor. E quando todos cochilavam, ele virou despertador pra no mínimo contar que sonhava diferente. Publicado na Folhinha de 5/3/2005 Medo do escuro para Luca Tinha medo do escuro e, sempre ao fim da tarde, apostava corrida com a noite. Atravessava a sala naquele vôo às pressas e aterrissava a salvo nas cobertas. Não queria ver Lua nem contar as estrelas: "Se elas só vêm no escuro, pra que vê-las?!" Até que se deu conta De que bem mais escura Era a noite guardada Nas cobertas. Içou a persiana, e, olhando o céu aberto, passou pela janela uma certeza. Quando perdeu o medo, viu beleza. Publicado na Folhinha de 27/11/2004 10.10.04
Nobre Farsa na Folha de S.Paulo O suplemento Folhinha publicou este poema infantil inédito da Nobre Farsa no sábado, 9 de outubro. Era para ter avisado a vocês antes, mas o post não vingou aqui no Blogger. Divido mais essa conquista com vocês. Abraços, Márvio dos Anjos Concerto para um marciano Um dia, um marciano (que estava em férias na Terra) quis saber de nós humanos qual foi o maior avanço que tivemos no planeta. Pela estranha maquininha que lhe traduzia a fala, conversou com cientistas que explicaram muita coisa. Só que nada convencia o homem verde da nave: "Sei disso tudo e sei mais", disse pela maquininha. Até que alguém teve a idéia de tocar num velho disco uma canção sem palavras, e o ET quis entender o que era a tal da Música. Mal um disco terminava, outro disco vinha atrás, com flauta, piano, sax, e essas gentilezas doces que só o violino faz. O marciano entendeu, agradeceu, foi embora. Jogou a máquina fora (que não precisava mais). Mas quem foi lhe dar tchauzinho pôde ouvi-lo resmungar: "Que inveja dessa gente! Eles dizem tanta coisa sem nem precisar falar..." (em 28/09/2004) 1.10.04
Breve história do Tempo A João Paulo Cuenca
Órbita emoldurando o caos, assim Era o Tempo no princípio. Caminho que a si mesmo percorria, Corcel arisco a lacerar os céus Sem piso algum, tocando a própria sombra, Capaz de ir até quando voltava, Como o senhor de um só e contínuo Instante. Deus viu nele a matéria e lhe extraiu A costela da qual esculpiu o Homem, Fazendo-os pelo Instante combater: Um, arrogante e novo, o quer eterno, Mas o outro, rei deposto, o quer de volta. Não haverá vitória, diz a regra Da disputa. A humanidade é a erosão do Tempo, A consumir tudo que mais lhe falta. 28.9.04
Antologias publicam poemas da NOBRE FARSA Fico muito feliz em comunicar que alguns poemas da Nobre Farsa viraram papel neste ano, nas antologias "Ponte de Versos - Uma Antologia Carioca", da Editora Ibis Libris, e no 18º número da revista-livro "Poesia Sempre", editada pela Biblioteca Nacional. Ambas podem ser encontradas ou requisitadas nas melhores livrarias. Agradeço aos amigos leitores, que sempre deram força, e a Deus, pelo mesmo motivo. 11.9.04
Carne Não pretendo a dimensão do espírito, Não me pertencem mente nem mentira. Aceito-me carne, e meu corpo dá limites À imensidão do Universo. Na larga estrada do caminho eterno, Sou a placa que avisa o quilômetro Em que tomei do Tempo o tempo que era meu (Por isso usamos lápides). Sou táctil, espesso e licoroso, Como o amor realizado. Sou carne e, de tudo que sou, descendo. 9.1.04
Completude A música vigora do contrato Entre o homem e o Silêncio. Mais do que som ausente, As pausas são empréstimos Daquilo que se ouvia No prelúdio do Gênesis, Nos ensaios da Criação De um universo em estéreo. Da musical quietude se coleta Que também o homem se compõe Do que tem e do que perde. Cada tijolo não cimentado É parte constante da obra. Cada rumo preterido Está no mapa de um percurso. Nada, enfim, mais incompleto Do que um homem sem perdas. 15.10.03
Soneto do Imbecil Ao que me mira com desprezo morno, Devolvo uma elegante baixa-estima; Permito-lhe que me olhe desde cima E cá embaixo, não dou ódio em retorno. Não me interesso em arrumar esgrima Com quem enxerga em mim tolo contorno. Que julgue-me imprestável, débil, corno, Tudo que fere o brio e desanima, Pois não vou convencê-lo do contrário. Deixo meu imbecil pra que o alcance, Enquanto meu fulgor segue crescente, Sem dar mais faces, que eu não sou otário Pra conceder a todos sempre a chance De conhecer quem sou inteiramente. 7.10.03
A Calma Tensa de uma Espera Para Solanje, que me explicou este poema, cinco anos depois Corações se partem no caosDa calma tensa de uma espera. Nunca mais precisaremos tanto Um do outro quanto agora. Que ao distrair não te afeiçoes, A fim de desgastar segundos Nem te agrades dos minutos Já passados desse aguardo. Que se perca o teu relógio E não assistas mais ao tempo No seu passo rumo ao sempre, Pois devagar e vagabundo, Cada adeus se faz perene, E enquanto esperas, tarda o mundo. 12.9.03
PEDRO FRANÇA Certa vez desenvolvi um heterônimo, um bon-vivant que, diante do bom dinheiro herdado dos pais, se especializou em não fazer nada de sua vida. Do alto de sua inércia, o que lhe garante ausência de erros cometidos fora as omissões, ele observa os absurdos à sua volta e, talvez por isso, se pergunte se ainda valeria a pena fazer alguma coisa. Escreveu três poemas, num período de 38 anos de vida. E cessou, porque não lhe parecia bem começar uma extensa obra. Com vocês, Pedro França. Poema de Ano-Novo O ano novo está lá fora. Aqui, tudo é velho, E frio, e fútil, e calmo, e desesperançoso. Não há motivos pra vestir-me branco. Não tenho essa pureza, Não quero tanta sorte, Nem sei se sou capaz de ser ingênuo a ponto de crer nessas tolices, Embora fosse cômodo querê-las Não quero esse ano-novo. Não quero. Porque desperdicei tantos dias, porque joguei fora tantas horas E não acho justo que eu possa ganhar outras, Como uma criança que quebra todos os brinquedos que ganha. Não quero esse ano-novo. Não quero. Sei que ele me trará mais perdas do que ganhos, Sei que a juventude vai se tornar um retrato em minha estante, E eu que fui moço e fúria e brilho Me aproximo a passos largos da realidade de ser um nada Que se revigora a cada um dos anos-novos. Eles estão lá fora, com seus champagnes, suas cidras, seus despachos praieiros, Suas resoluções e sua desfaçatez. Escolhem esse dia para serem puros, terem sonhos e sorrir. Precisam de mais um ano para nos outros dias Poderem se emputecer em paz; o ano-novo é viciante. Por conta de uma convenção temporal, convenciona-se que seremos felizes. Que podemos ter sonhos, e crenças e abraços agendados. Não, eu não quero esse ano-novo. Quero alguns anos de novo. Quero refazer, reviver minhas vitórias, Curtir os melhores momentos, ver a minha reprise na Sessão da Tarde e, Se puder, Ajudar o garoto que fui a tomar aquelas decisões que me ferraram tantos anos. E que me reforçam a crença de que não, eu não preciso do ano-novo. Quero viver sem anos pra contar, quero viver cem anos e perder a conta. E não ver tudo passar. Não. Dessa vez, eu não vou com vocês para o ano-novo. Vou ficar mesmo neste aqui. Quase Ode Moro em Ipanema, quase à beira-mar. Nem tão quase, porque, da minha casa, Inda devo percorrer cinco andares, dar bom-dia ao meu porteiro E atravessar os dois quarteirões que me separam Do risco de ser atropelado na Vieira Souto Por uma van cujo trajeto inclui obstruir a passagem dos carros, Irritando os motoristas, Exatamente como fazem os ônibus, Que normalmente irritam também seus passageiros. Se eu não for vítima da irritação alheia, Quase chego à praia. Sim, quase, Porque não gosto de praia. Prefiro caminhar no calçadão, Que tem menos bundas à mostra que a areia, Mas pelo menos faz a gente dar menos atenção Às informações diárias sobre coliformes Que a imprensa amigavelmente nos recorda. Caminhando até o Leblon, quase emagreço. Quase, porque, no caminho, há sempre tempo De lembrar da vontade incessante de comer que eu trago Como se fosse um etíope e sua fome. Paro, como um sanduíche e me arrependo. Porque eu quase ia bem, Mas eu já me acostumei a parar pelo caminho em meus projetos. Que não foram poucos, nem eram tão difíceis, Mas foram igualmente abandonados num segundo, Como essa dieta imbecil. “Tudo bem, sou um quase magro”, chego à conclusão. E quase magros podem se dar ao direito de quase ir à praia, Ficar no calçadão vendo as quase bundas Enquanto quase se contaminam na imundície da praia, logo após Quase terem morrido ao atravessar algumas ruas. Alguém quase me olhou no meu passeio? Não sei. Nesta vida que parece hesitar em ser vivida, E nada chega a ser alguma coisa, deve ser natural Que passem por mim e quase se apaixonem, Ou pior, que quase não me vejam. Volto pra casa, antes de me sentir quase cansado. E quase vivo, quase morto, Vou ligar a TV e me enganar um pouco mais, Telefonar para um amigo e deixar que ele me diga: “Calma, Pedro, não se mate. Está quase tudo certo.” Diante da Insânia Ninguém espera de mim um ato de vandalismo. Rebeldia zero. Estou terminantemente sob controle, Acreditam eles. Em paz com meus dias, Eles pensam. Sou a válvula de escape que eles têm Pros absurdos de seus mundos. Comigo podem ser loucos, pois confiam em meu equilíbrio. E não me reconhecem sendo desarrazoado. Quem um dia me viu nos meus arroubos? Quem foi capaz me ver, tomado de fúria, Pleno de razões doentias, com motivos Para conquistar Roma sozinho, e derrotar quem sabe o próprio Satanás? Não, eles nunca me viram no fogo da minha insanidade. Eles não sabem que minhas mãos são tão capazes de atos monstruosos Quanto as mãos deles mesmos. Que sou capaz de arquitetar com precisão e executar com frieza Toda a psicopatia da raça humana. Eu também vim do lodo, do barro, do carbono, do amoníaco. A mim também me coube o direito à alguma insânia. Posso explodir, posso fugir, posso irresponsabilizar-me De cada uma das minhas atitudes. Ontem cortei a mão. Não me lembro como. Não senti a dor que me fez sangrar o punho... A cicatriz? Está ali, e eu a vejo, enquanto digito nervosamente Cada tecla com a mão direita. O efeito está ali, aparentemente sem causa, Como tantos males, como tantos acasos, Todos os acasos e coincidências capazes de convencer cada ser humano De que o Destino brinca de lançar-nos infortúnios. Eu não creio nos destinos, e talvez não creia na ferida. Posso crer na cicatriz Porque ela está ali. E crendo nela, Posso crer em tantas outras coisas que faço Sem mínimos porquês, ou sem ter que recordá-los. As coincidências precisam de motivos? Precisamos compreender tudo? Precisamos ser assim tão científicos, ou místicos? Eu posso aceitar o acaso, e tantas outras coisas que acontecem Sem o menor sentido, Como todas as formigas que simplesmente aceitaram quando as pisei Na minha infância, ou como todas as baratas Que morreram debaixo dos meus sapatos. Não houve vontade planejada, não houve propósito. Houve a ação, Assim como há a minha cicatriz, que surgiu espontânea, E assim como acontecerão todas as outras instintividades dessa vida. Não posso crer que tudo tem sentido. Senão me mato. E eu sou equilibrado a ponto de manter-me equilibrado, Escravo do meu bom senso, Para que eles possam ser absurdos, desmedidos, Desregrados, obtusos, estúpidos ou simplesmente Indiferentes. Eles precisam de mim para verem seus absurdos. Para entenderem sua estupidez como algo errado, Ou quem sabe aperfeiçoá-la, Se estiverem mais certos Do que eu. Talvez haja um motivo no absurdo. Talvez haja propósito. Talvez eu precise ser absurdo algum dia. Não há os que se jogam das janelas? Os que matam por tão pouco? Os que berram em casa diariamente com seus filhos? Os que jogam lixo na casa dos vizinhos? Os que se negam a dizer bom dia? Os que refutam qualquer “obrigado”? E aqueles pobres diabos que jamais acreditam Quando uma boa alma lhes diz “eu-te-amo”? Tanta gente absurda no mundo, e eu equilibrado... O que estou fazendo? Estou sendo humano, Em todas as possibilidades da minha humanidade? E o que é o humano senão um animal feroz? Estou sendo equilibrado por quê? E eu preciso desse porquê? Talvez desse eu precise. Eu tenho que acreditar nesse porquê, pois quem garante Que eu possa um dia desequilibrar-me? Se eu precisar ser absurdo, saberei sê-lo? Ou estarei anestesiado nessa paz artificial que me dei Sem ter motivos nem porquês? Eu tenho alguma insanidade, eu posso estar entre vocês, Eu sei disso. Irmão, irmã, pai, mãe, minha hereditariedade de absurdos Ainda vai honrá-los e deixá-los absurdamente Orgulhosos. Porque eu desisto dessa paz. Cansei do absurdo de ser tão equilibrado No meio desses ocasionalmente loucos Vivendo dias que não têm porquês. 3.7.03
Divertimento Quando vou na direção De tudo que amo na vida, Meu movimento é de mergulho. Se há paixão na busca, é porque sei Que estou no alto. 23.6.03
Último dia de uma volta para casa (Rio, 23/06/2003) Eram 3h20 da manhã e eu estava na Fonte da Saudade quando a vida perdeu o sentido. Diante da Lagoa, aos pés do Céu, Eu sentia a dolorosa falta do que tinha ali, À minha frente. Eu me encantava com tudo aquilo E tudo aquilo parecia me chamar de forasteiro. Amanhã, devo ir. A brisa salitrada da Lagoa soprava-me o adeus. Meus olhos, como os de um turista, Queriam carregar essa lembrança para uma distante casa, Fosse onde fosse. E eu chorei com medo De um dia não ter mais o Rio em mim. Eram 3h20 da manhã; Já era tarde pra falar de amor. 19.6.03
Constatação No decorrer da vida, em cada hora Do dia, não te deixes esquecer Que estás sós, que assim hás de viver E que ninguém olha por ti lá fora. Não te enganes; ao teu redor agora Estão só solidões e -como vou dizer?- As companhias que te dão prazer Daqui a pouco devem ir embora. 20.12.02
Moça diante de esmeralda Ela busca um reflexo na pedra. Precisa ver-se de um jeito novo, rico e diferente. Carrega sobre os ombros o peso de uma idade Deixa sob os pés uma cidade já distante Chegou aqui faz tempo, e nada achou que parecesse aquilo que buscava. Anda acompanhada pelos muitos estranhos dessa estrada Não sabe o nome deles, mas suas intenções são – ocasionalmente – Boas, e isso lhe bastava. Mal-tratada pelos que conhecia, Cansou-se, e foi viver de solidão. Sozinha descobriu-se maior que este planeta, Longe descobriu-se plena de si mesma. E plena e só descobriu-se sem sentido, Como uma Bíblia sem cristãos. Por isso, Continua diante dessa pedra, estática, À espera dum reflexo, duma opinião de pedra, Que sem hesitação lhe diga “Sorri, moça; ainda continuas Linda.” 11.10.02
Várias formas Havia várias formas de dizer-te nada. Eu nada dizia, você nada falava, E tudo quanto se calava Nos repetia a cada instante Que havia amor ali, mais nada. Havia várias formas de sentir-te amada Uma delas, em silêncio, celebrava O sono, o sexo, o carinho que mudava A minha vida e insinuava Que o tempo ali passou, mais nada. Havia várias formas de cantar-te cada Canção que inconscientemente recordava A dor de algo que a gente já perdia Pelos cantos, sem ruídos, se escondendo, Até que logo não se achou mais nada. Havia várias formas de virar-te a cara Fingir que não a vi, quando passava Por todos os lugares onde eu ia Presente ou não, psíquica cilada Disposta a se vingar, mais nada. Havia várias formas de dizer-te nada. Eu nada dizia, você nada falava, E tudo quanto se calava Nos repetia a cada instante Que havia amor ali, mais nada. 12.9.02
Tão gentil, tão honesta no saudar... Tanto gentile e tanto onesta pare la donna mia quand'ella altrui saluta, ch 'ogne lingua deven tremando muta , e li occhi no l'ardiscon di guardare . Ella si va, sentendosi laudare, benignamente d'umiltà vestuta; e par che sia una cosa venuta da cielo in terra a miracol mostrare. Mostrasi sì piacente a chi la mira, che dà per li occhi una dolcezza al core, che 'ntender no la può chi no la prova; e par che de la sua labbra si mova un spirito soave pien d'amore, che va dicendo a l'anima: sospira. Dante Alighieri, em La Vita Nuova _______________________________ Tão gentil, tão honesta em seu saudar É minha dona, e tanto me parece, Que minha língua dobra, a alma emudece, E os olhos nem se arriscam num olhar. Assim louvada, segue a caminhar, Trajando a veste que a humildade tece; Como algo que dos Céus à Terra desce Vinda para milagres nos mostrar. Só contemplá-la enorme bem inspira, Pois dos seus olhos flui uma doçura Que só compreenderá quem talvez prove. E em seus lábios, parece que se move Um 'spírito de amor de tal brandura Que vai dizendo ao coração: suspira. 10.9.02
Paranóia No alto daquele prédio, Naquela calçada, Fitando da janela, Estão todos, todos Contra mim. Unidos sob um sólido ideal, repetem meu nome em sórdidas tramóias, Sou seu mais digno alvo, última coluna a derrubar. Na mesa daquele restaurante, Na escadarias do Municipal, Nas estações do metrô, Todo e qualquer instante é pouco para eles, eles todos, todos contra mim. Eles e seus malditos códigos, sinais, Criptografias, isso que atravessa a mente e mente e mente e mente, Esse calvário diariamente entre o que já não sei se é E o que é simplesmente. Eles me dizem em silêncio as coisas que não ouço E você no meu lugar talvez nem entendesse. É verdade é sério é de verdade e eu juro que é Acredito na minha intuição Tanto quanto em minha imaginação. Atrás de você, Ao nosso redor, Diante da sombra trêmula que vela por nós dois, Eles conspiram, eles querem sua ajuda, Eles e você, sim, São talvez vocês todos, juntos, Todos contra mim. Eles querem me matar porque eu os fiz viver e posso assassiná-los E você no meu lugar talvez sobrevivesse. Só que eu nem posso estar no seu lugar. (O horizonte se afasta lentamente de mim enquanto Um sopro gélido de vento pousa a mão sobre o meu ombro e some.) No elevador, No túmulo, No Céu, Eles, você e eu, Ele, enfim, Todos juntos, vamos, todos nós agora Contra mim. 16.8.02
Poema em 3x4 Um 3x4 teu em minha mesa Me contempla, Me vigia, Vela o passar da tarde do meu lado e me assedia, Pedindo uma olhadela. Um 3x4 teu é uma janela, Onde às vezes Eu te vejo Quase sorrindo tímida e pensando Num desejo, Que apenas nessa foto caberia. Num 3x4 teu sorri meu dia. 7.5.02
Soneto do Amor tal qual ele é (para Aninha)
Quando olhar para mim, jamais procure O homem perfeito. Tente achar primeiro Alguém que se dedica por inteiro Para que o nosso amor muito perdure. Que ninguém um amor eterno jure, Porque o Tempo é do mundo o bom coveiro Que enterra (de costume e sorrateiro) Sentimentos, até que nada dure. Pois tudo está entregue à própria sorte; Se não termina aqui, finda na morte E até quando os seus dias serão meus? Não importa. Se o fim é inevitável, Façamos desse amor algo agradável E um eterno adiar-se desse adeus. (em fev/1997) 21.4.02
Soneto do Amor que espera a volta Sabes que existem coisas que sentimos Num momento, o qual vê-se claramente Que é único, difícil, diferente, E a eternidade dele perseguimos? É algo que choramos, ou que rimos, E que se vive a dois, intensamente, Que não se encontra assim, em toda gente, E nossas vidas nele refletimos. Isto passei contigo, e hoje lamento Não ter eternizado esse momento Do modo como sei que merecias. Pra me entreter, preparo-te alegrias E te aguardo, ninando um sentimento Que não se perde na erosão dos dias. 15.4.02
Condenação Se não quiseres ver-me, faze-o bem; Rasga as cartas, esquece das memórias, Apaga todas as dedicatórias, E queima tudo que for meu também. Se falarem de mim, pergunte: “Quem?” - Mas não procure ouvir outras histórias. Mesmo que eu morra, ou cubra-me de glórias, Não digas o meu nome a mais ninguém. Nem olhes para trás, que me envergonha Reconhecer que nada há que ponha Teus olhos a favor do homem ruim. Faze o que convier ao teu bom gosto: Que o tempo passará, verás meu rosto, Mas nem querendo vais lembrar de mim. 12.3.02
Lição Das pessoas, aprendi que um dia vão-se; Todos os dias, milhares de adeuses não são ditos, Todos as horas são tarde demais, As portas batem sem aviso, os dias não mais voltam, Somem segredos, esquecem-se carinhos em gavetas, Recordações de ouro se perdem nos caixões de madeira. Telefones ocupados, secretárias eletrônicas, Cartas sem destino, por-enquantos sem presente, Desaparecemos na rotina dos ônibus e dos sinais de trânsito. Por onde ando? De quem já desapareci? Abandonei-te, sei, mas me buscaste? Ou deixaste simplesmente Que eu me permitisse prescindir da tua despedida? Ai, amor, eu queria tanto ser eterno, Mas não sei se agüentaria ser sempre abandonado... Porque dos outros, eu sei que um dia vão-se, Sem querer, sem pedir, sem saber. Não é da nossa vocação o estarmos juntos, Não temos o talento pro convívio... Fracassamos, e ninguém mais nos acha. A perfeição de Deus está na Sua permanência, Onde quer que Ele de nós se ausente. Dos outros, eu só sei que hão de ir embora. De ti, só sei que já te foste Daquele, que abandono aqui. 9.3.02
Algo em meus olhos que perdi nos teus Algo em meus olhos que perdi nos teus Existe, e que não quero ter de volta. Desejo apenas vê-lo em tua face, Dia após dia, Pois, se o haver perdido fez-me assim, Com algo de cegueira, sem razão em mim, O que enxergo de meu quando me encantas Já me permite ver tudo que quero. Algo em meus olhos que perdi nos teus Existe, e te faz linda como apenas eu posso apreciar, Por conta do que podes ver Somente em mim. 22.2.02
A tempestade e eu As ruas feitas córregos e rios, As roupas ensopadas, os bueiros Entupidos. Escutam-se os primeiros Trovões, quedas de postes, assovios; Sob as nuvens de cinza e os céus sombrios Sirenes, ambulâncias e bombeiros, Os gritos aos que fogem, corredeiros, Rumores de tragédias, arrepios, O desabrigo enchente após enchente... (Tu tens pensado em mim ultimamente? Ando com tantos sóis no meu olhar...) ... até que o cinza some, fuzilado Por raios dum alívio esperançado, A bonança que exige retornar. 17.2.02
Diálise da Alma Minha alma pesa como um caixão de amores Cujas alças não quiseste carregar. São cefaléias, depressões e dores, esperanças malogradas, Desenganos que me foram trazidos pelo otimismo Dos que nunca souberam se entregar. Doente, sobre a maca de um corpo que não a deixa repousar. Ela pesa sobre mim, e lhe restam poucos movimentos. Sofre, como se lhe restassem poucos dias. Recusa o apetite do sexo, recusa mais um confortável travesseiro, e conformada, Não pretende perturbar-me exigindo-me cuidados. Como o melhor dos enfermeiros, Preparo a diálise das almas. Porque é preciso saneá-la das impurezas da dor, Dos resíduos de todo o desespero infligido: É preciso salvá-la de mim mesmo. E é assim que eu penso em ti, no que me fazes sentir Na imposição da tua ausência, quando consentes que eu te ame De todo o coração e toda a crença e todo o espírito e simplesmente partes, Como se tudo o que desejo fosse estranho Ao teu desejo. E eu deixo que invadam meus ouvidos Todas as músicas que amamos juntos. E eu vejo como é estranho Escutá-las sem os teus ouvidos do meu lado. E eu me sinto amputado, infeliz, frustrado. Queria não te desejar unicamente. Invejo aqueles perdidos, Os que não sabem o que querem da vida, e assim, Consideram quase todo o bem que aporta como lucro. Eu não sou assim. Tudo o que é diferente de ti é derrota em minha vida. As coisas que não têm origem em ti não reconheço Como um bem. Na verdade, são quase nada. E de nadas estou cheio. Os sorrisos, os olhares, os elogios, o aplauso, o dinheiro, O que significam se não são a ínfima parte do que quero? A minha maldição é saber exatamente o que desejo: a tua volta, Como se tu soubesses os motivos que me trouxeram a este mundo, Por onde devo andar, Onde devo dormir. Eu penso nestas coisas e choro. Não aquele choro que envergonha, Aquele que enrubesce a face e que exige esconderijo, aquele que é fraqueza. Choro porque há mais vida em mim quando recordo Que te amo desta forma. E à medida que o pranto escoa, Drenagem de excreções retidas, Eu me sinto mergulhado em bálsamos leves. Uma vertigem amistosa toma conta dos meus ânimos, a cabeça pende, De um lado a outro, circularmente e devagar, Um vácuo obscuro no pensar me permite ser inda mais leve E a gravidade me perde, rumo ao infinito dos desprovidos de razão. E eu posso ir longe nesse efêmero instante De sadia insanidade. O peso dos meus ombros se afasta de mim (talvez meus próprios ombros Façam o mesmo, como se me livrasse da carcaça que carrego), E assim, tornado alma e desgarrado das torturas, Eu posso amar-te em toda essência, ser mais inalcançável que o teu amor, E mais incompreensível que a recusa tua. As lágrimas no chão, minha alma no céu, meu corpo à deriva, Um amor que te espera; Espalho-me aos poucos em lugares e funções Que só têm razão de ser e final a celebrar Na tua volta. 14.2.02
Soneto das cinzas Manhã de quarta-feira, e o carnaval Termina, nessas cinzas de euforia, Num último suspiro de folia, Num beijo suado, num abraço e um tchau. São finadas a febre e a fantasia. O estandarte é esquecido a meio-pau, E ficam só cansaços do final, E nos resta dormir, que já é dia. Adeus a essa alegria fevereira, Que ninguém sente mais na quarta-feira Depois que silencia o último bumbo. E eu me encontro de novo com a rotina, Vestida de pierrô sem colombina, O eterno fim de festa ao qual sucumbo. 21.1.02
Soneto, depois de tanta conversa fora Beethoven morreu surdo. Uma ironia, Se virmos que, em seus últimos dez anos, Não mais podia ouvir-se nos pianos Que ressoavam sua maestria. Ainda mais irônico, eu diria, É pensar que a surdez lhe trouxe danos, Fúrias e depressões e desenganos Sem lhe negar a Nona Sinfonia. E pode-se dizer que, até a morte, O gênio pôde, sim, gozar a sorte De ouvir Beethoven só, e nada mais. Uma bênção, sem dúvida nenhuma, Enquanto eu, que não sou de porra alguma, Nem posso ensurdecer pra alguns boçais. 7.1.02
A Nobre Farsa no Jardim Botânico Nesta terça-feira, 8 de janeiro, vou declamar poemas no projeto PONTE DE VERSOS às 20h30. Além de mim, também declamarão os poetas Braulio Tavares e Sandra Fernandes. Todos os leitores da Nobre Farsa serão bem-vindos. Livraria Ponte de Tábuas R. Jardim Botânico, 585 (à altura da Rua J.J. Seabra) Jardim Botânico - RJ organizadores: Thereza Christina Motta, Ricardo Ruiz, Gilson Maurity 26.12.01
Monólogo de um demônio Protege-te de mim nas tuas preces, Pois eu sou o demônio que te assiste, Discretamente à sombra, e quem persiste Em ser pior, bem mais do que mereces. Nunca me viste. Não, não me conheces; Minha virtude principal consiste Em SER demônio. Um mal que não existe, A crendice ancestral que desmereces. E até quando não é do meu intento, Ingenuamente segues tua sina E às vezes minha porta vens bater. É por isso que agora me apresento: Já procuras sozinho uma ruína, Nada mais há que eu tenha por fazer. 25.12.01
Recado ao meu biógrafo Se eu me tornar um homem importante Do tipo que merece biografia, Não quero que se escreva fantasia Do que vivi nem do que vem adiante. Quero um texto fiel a cada instante, Que não inspire tola simpatia, Imparcial sobre tudo o que eu fazia, Rigoroso e jamais mitificante. Que se elogie só o que merecer, E, com o perturbado que for ler, Seja meu redator sempre mais franco. Mas, quando for falar de Ana Maria, Por tudo o que não fiz e o que faria, Eu peço algumas páginas em branco. 21.12.01
Soneto da final Unico grande amore
Di tanta, tanta gente Che fai sospirà Hino da AS Roma, clube italiano de futebol Inda te amava quando fui sozinho Ao estádio, nem um pouco esperançoso; A tua ausência me mantém saudoso, Mas não pude ignorar o burburinho Da final. Era um público orgulhoso, O som de um só ardor, um só carinho, Ébrios de uma paixão que, como o vinho, Faz esquecer da dor com fácil gozo. Foi quando um desafortunado gol Traiu a multidão e lhes roubou De uma alegria os pensamentos doces. E ao ver os prantos, me indagava a mente Quanta dor sentiriam, se tu fosses O único grande amor de tanta gente. 20.12.01
Soneto de uma estranha vocação Nasci pra ser herói, virei palhaço. À medida que fui ganhando idades, Dentre todas as possibilidades Aperfeiçoei-me na arte do fracasso. Eu tinha esse talento do erro crasso, De equívocos, enganos, leviandades. Tentei voltar, mas vis fatalidades Torceriam o acerto do meu passo. Assim eu, por instinto, fiz a vida; Com chutes que acertavam sempre as traves, Cessando de escrever belos romances, Por conta da virtude incompreendida Manifesta de formas tão suaves: Saber desperdiçar as grandes chances. 19.12.01
Curso Livre de Poesia e outros serviços A partir de janeiro, oferecerei um Curso Livre de Poesia, envolvendo apreciação, criação e declamação de poemas. Os objetivos do curso serão: - estudos sobre as poesias portuguesa e brasileira; formação de leitores; - estímulo à composição poética; compreensão das formas fixas, versificação e estilística; - desenvolvimento da arte declamatória; a poesia ao público. Aulas semanais de 1h30 de duração. Mensalidade de R$ 50. Prazo de conclusão: indeterminado (sem diploma). Os interessados deverão entrar em contato comigo pelo e-mail marvio@skydome.net. Também dou aulas particulares de português e literatura para alunos de ginásio, segundo grau, universitários e profissionais. Preço a combinar. 17.12.01
Aos meus braços* Eu não creio num Deus de intervenções Como bem sei que crês. Se acreditasse, a Ele imploraria Que em tua vida nunca interferisse. Que não tocasse teu cabelo, Deixando-te como és, Porém, se Ele quisesse dar-te um rumo, Que viesses aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Tampouco cria na existência de anjos Como hoje penso, ao ver-te. Se acreditasse, eu mesmo os juntaria Pedindo que zelassem só por ti. Dando uma vela a cada um Pra ensolarar-te a via Com graça e amor, conforme Cristo andava, Guiando-te aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Porém no amor, querida, eu guardo crenças, Como igualmente crês. E tenho fé que exista alguma estrada Que juntos poderemos caminhar. Então, que acendam fortes velas Por toda a tua vida, Para que voltes sempre e mais e sempre... ...aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. *Tradução livre da canção Into my arms, de Nick Cave, lançada no álbum The Boatman's Call, de 1997, e gravada por Nick Cave and the Bad Seeds. 15.12.01
Pietà
Detalhe da Pietà, de Michelangelo. Basílica de São Pedro, Vaticano. Estava morto o Cristo. Envolto em panos, Sangrava ainda quando foi deposto. Banhado em suor e lágrimas, seu rosto Beijou Maria, diante dos romanos. Passados 33 daqueles anos, A mulher da qual Deus fez tanto gosto Chorou a honra e o sofrimento imposto Por dar seu filho à luz pelos humanos. Ao fim de toda dor que tinha visto, Por um momento se esqueceu do Cristo; Quis seu menino e nunca mais deixá-lo. E se inclinou para tirar do solo A cabeça que trouxe junto ao colo Como se inda pudesse amamentá-lo. 14.12.01
Soneto das distâncias A paisagem serena em sua face Inda enfeita as janelas do meu dia, Sem que eu precise ver fotografia Nem gastar tempo até que essa dor passe. Senti-la perto é simples, eu diria Que em sonho ela talvez me visitasse Se num sono profundo eu me deitasse Nas horas em que sei que ela dormia. Tão próxima de mim quanto eu distante... E a geometria plana não garante Que entre nós dois calcule-se uma reta. O que existe é uma linha sinuosa. De medição difícil, trabalhosa, E a estimativa nunca sai correta. De Amor e Ódio Amor, irmão siamês do ódio mal-visto, Fui entregar à mão duma incerteza Que, enquanto dou-lhe o bem, dá-me frieza, E não parece se importar com isto. Escravizado! Tido como presa! As melhores razões logo despisto Em prol duma maior, por quem existo, Arraigada em minha profundeza. Foi assim que eu, afeito às circunstâncias, Do ódio ao amor quis encurtar distâncias E quis odiá-la (com algum receio). Fracassei. E hoje indago no meu canto: Por que fui dedicar-lhe amor tão santo Se quanto mais a amo mais me odeio? 7.12.01
Réquiem para 12 rosas As rosas que mandei, sei que morreram, Pois é o destino vil de toda rosa. Nenhuma pôde em vida ser vaidosa; Tão logo abriram, cedo faleceram. As doze mensageiras se perderam Na missão já sabida desastrosa. Levaram um cartão, em simples prosa, Cumpriram seu dever e feneceram. Era preciso que elas fossem vê-la Para que eu desaguasse esses amores Tão represados no pensar em tê-la Sem poder, arruinando-me nas dores, Culpas de rosas mortas por querê-la E um amor que não vale doze flores. 4.12.01
Soneto do bar e do tédio Embriagado de um cansaço louco, Eu vim buscar um pouso nesta mesa. O que beber? Não tenho inda certeza, Mas prometo pedir daqui a pouco. Em meus bolsos eu trouxe qualquer troco Que não me bastará para a proeza De mais embriagar-me. "Esta dureza Me preserva", concluo, dando um soco (Levemente) na mesa, onde um cinzeiro, Um par de pratos limpos e um saleiro Me assistem numa noite de dezembro. São horas só de tédio, interrompido Quando indaga um garçom: "Foi atendido?" E eu, confuso, respondo que não lembro... 23.11.01
Soneto dos passos Passo a passo eu te quero do meu lado, E sempre passo a passo, bem mais perto, Para que a cada passo dado certo, Um outro passo certo seja dado. Ao passo que esses passos no deserto Passem por um jardim primaverado, Deixaremos as dores no passado, E passo a passo, neste rumo incerto Que as vidas possam ter (pois são passantes Na calçada onde os passos dados antes Não passam para a história nenhum traço), Pensaremos na paz sem que algo impeça, Sem crimes passionais, com pés sem pressa, Num passeio por tudo passo a passo. 19.11.01
Soneto dos dois lados da moeda Eu penso em ti bem mais que deveria Se fosse apenas coisa de momento, Se eu só quisesse tê-la como o vento Que nos deixa depois que acaricia. Podia ser um sonho calmo e lento, Que numa ou noutra noite iludiria, Mas não... eu penso em ti à luz do dia, Dirigindo, desperto e bem atento. Do meu carro eu te busco em outros carros, Pelas noites te busco em outros sarros... Se me achasses na vida nessas horas, Imagino que tua voz diria Que em teus olhos se vê que inda me adoras... ...ou que penso em ti mais do que devia. 14.11.01
Canção do Jardineiro O amor é flor que se cultiva, Como a flor que precisa de amor Para florir. Como a flor pede outra Flor que empreste pólen Pra ser flor, Amor só pede amor Pra mais amor Tecer. Floreio o amor pois creio que isto o aflora, Já que amor não dá frutos como a amora, Só precisa morar Em nossa flor. 13.11.01
Dinastia Aos Fernandes e aos França dos Anjos Levantai e vede! A minha guerra Acabou, e eu venci. Meus inimigos Prostrados neste chão pedem abrigos Beijando as minhas botas, que de terra Estão cobertas, como os meus antigos Ancestrais. A batalha que se encerra Honrou meu sangue e assim os desenterra, Sem precisarmos ir aos seus jazigos. Pois como herança eu recebi exemplos Duma gente que errou por tantos trilhos Mas ensinou nobreza, verve e afetos. Minha vitória é o sino destes templos Cantando os pais que um dia foram filhos Pro filho que vai orgulhar seus netos. 8.11.01
De passagem por ela Beijou o travesseiro, cuja fronha Ainda tinha o cheiro fraco do suor que ele aspergira Quando, há duas semanas, se beijaram antes de dormir. Naquela noite, ela quis que seu quarto Fosse mais dele do que dela. Sem retratos que não fossem dele Sem homens que não fossem ele, Porque sem ele o quarto não seria dela. E levava a carne à sua boca gentilmente, Naquela sensual maternidade Que aquele órfão de alma não quis adotar. Ela viu nos seus olhos gratidão, Um prazer que soava confortante E uma paixão talvez insuficiente; Os dois sabiam que ele estava de passagem. E de novo, aquele quarto era só dela. De novo, estava só naquele quarto. De novo, alguém passou por lá Sem deixar nada além de um quarto Para ela. 5.11.01
Conversa depois de uma pelada ... Depois, nós fomos prum motel na Barra, Não vou lembrar do nome dele agora, Um desses bons, de dez reais a hora, Aos quais levo meu gado para farra. Só que ela tava assim, cheia de marra, Chatinha, meio dentro, meio fora, Aquelas coisas que mulher adora... Mas depois de um tempão de agarra-agarra, Postada como quem se volta à Meca, Virou o rosto, e ao ver-me de cueca, Pensou que eu estivesse de pochete. De perto olhou, mediu usando a palma, Para então sugerir, mantendo a calma: “Amor, vamos ficar só no boquete?” 3.11.01
Soneto a um merda Da vida ele não faz porra nenhuma. É inútil, nasceu por acidente, Vive a passeio, o mundo não o sente, Ninguém o quer por perto ou quer que suma. Quem convive com ele se acostuma À sua ausência até quando presente; Não brilha, não consola, não ressente, Nunca a ninguém fez diferença alguma. Desperdiça na terra cada instante Solto no espaço-tempo, agonizante, E, podendo ser muito, quis ser médio. Um estorvo imbecil, quase-abortado, Mediocremente vivo, um entediado Que soube achar conforto amando o tédio. Soneto-carta confessional de intenções Aos leitores de “A Nobre Farsa” Há quem pergunte ao ler os meus poemas Em tom curioso (às vezes, com piedade) “O que escreveste, é tudo de verdade?”, E quer saber se sofro por dilemas. Porém, não se preocupem com meus temas. Primeiro: por não ter necessidade; Segundo: porque é minha prioridade Celebrizar poesia, e não problemas. Não vou dizer que aqui não sou sincero, Pois precisei do amor pra ser artista E há na tristeza um belo cativante. Mas de vocês, amigos, eu só espero Que achem prazer com o que têm à vista; Isto faz minha vida interessante. 1.11.01
Soneto de um dia pra esquecer No último dia em que nós dois nos vimos, Já não havia mais sentido em nada, Ocasião para não ser lembrada Depois de todo amor que dividimos. Foi quando conformados admitimos Que ali findava a nossa caminhada. Cada um levou metade desse nada De um tudo do qual nós nos despedimos. Para onde for, eu levarei a parte Que me serve pra sempre recordar-te Sem ver tal dia entre os que foram teus. Porque nos outros, quando eu ia embora, Sempre insistias, “não, não vás agora”, E nesse me disseste vai-com-Deus. 30.10.01
Soneto da Teoria do Merecimento - Estás tão triste assim quanto parece? - Estou, mas algum dia vai passar. - Já faz tempo que te vejo assim chorar... - Não te preocupes, por favor... esquece... - É um mal comum, que a todos acontece. Não existe outra forma de encarar Senão viver, e ao tempo relegar, Porque quem não nos quer não nos merece. - Mas como, se a memória me resgata Aquela decisão tão insensata, Quando deixei quem mais me merecia? - Não podes fazer nada agora, aceita... - Eu sei, mas hoje paira-me a suspeita De que ela já aprendeu essa teoria... 29.10.01
Soneto do Violoncelista Psicopata Quando empunhou o arco do instrumento, Quis arrancar do nobre violoncelo Um som que fosse triste e fosse belo, O grave/agudo seco de um lamento, Como o grito esculpido do martelo No mármore em combate violento, Cru e abafado, o grave-ferimento Das próprias cordas enforcando o cello. “É dia de sangrar, seu desgraçado!!” Disse enquanto esgrimava, debruçado, Deixando o suor cair pelo tapete. E quando achou o efeito que buscava, Quem pôde ouvir a música pensava Que alguém morria a golpes de estilete. 27.10.01
Meu primeiro soneto (ou Soneto pra lembrar quando faço aniversário) 1978, 9 de agosto: Nasço, carioca, O nome “Márvio Rafael” me toca, Vindo eu depois do almoço, nada afoito. A inspiração dos pais naquele coito Vê-se neste sorriso de boboca Que gosto de exibir, e que não choca Se inda o tiver após fazer dezoito. Entre tantos contentes, sinto a pressa Dos que esperam de mim qualquer promessa E tecem previsões pro meu destino. E ao ver que por mim fazem tanta festa, Descubro a vocação que só me resta: Pra sempre querer ser um bom menino. 24.10.01
Sevilhana Tem o rosto das moças andaluzas. É morena na pele, nos cabelos, E sabe desenhar virando os olhos Um véu que esconde trinta mil mistérios. Um quê da Arábia e um outro quê de Espanha, Como se um dia, o Islã e o Cristianismo Criassem juntos uma fé diversa Cujo templo eu devesse construir. Se houvesse castanholas nessas mãos, A percussão flamenga dos destinos Marcaria o compasso do meu rumo. Mas não há nada além de um só fascínio Que Sevilha inspirou a tantas almas E, por acaso, eu encontrei no Rio. 17.10.01
Soneto-salmo da última crença Se puderes, Senhor, dar-me um ouvido, Aceita este convite que promovo: Faze de mim agora um homem novo E purifica o barro já falido. Que hoje sou dor, pecado repetido, Vergonha e mágoa andando em meio ao povo. Sei que sozinho as culpas não removo, Por isso peço ajuda, encarecido. Se eu não puder recomeçar do zero, Me arranca os pés, os braços, a esperança, Põe-me num coma e apaga-me a consciência. Direi a tudo “amém”, pois o que quero É ser à tua imagem semelhança, Mesmo que signifique inexistência. Soneto a um amor sem poesia Ela nunca gostou de poesia. Foda-se. Caguei pro que ela pensa. Isto não há de ser a desavença Na qual o nosso amor fracassaria. Será pra mim no máximo heresia Que eu nunca julgarei assim imensa. Numa boa? Não faço diferença, E seguirei sentindo o que sentia. Não me vai ler? Não quer? Não tá com saco? Cansada? Trabalhou, voltou um caco? Não sabe versos ler? Tem dislexia? Ok, entendo tudo, amor, e deixo, Mas justifique sempre ou eu me queixo De que essa má-vontade é putaria. Sobre o túmulo de J.S. Bach Pudera eu ser humilde e genial Como foste, e lançar sobre os humanos Acordes, a princípio luteranos, Com ares de verdade universal. Quisera eu ensinar, tão magistral, Os cantos mais sagrados e os profanos, Indiferentemente, como planos De uma doutrina apenas musical. Quisera eu ser duma arte sacerdote, Apóstolo, messias, serviçal, E inda no ofício achar divertimentos, Ganhar de algum talento o mesmo lote, Ser autor de um legado enfim total, E dar às almas novos sentimentos. 15.10.01
O paciente A um paciente terminal, não restam mais Que duas escolhas: milagre ou eutanásia. Tudo depende da vontade de viver Ou morrer. Nenhuma das escolhas depende Do paciente. Na verdade, ele escolhe apenas O que esperar. Quem garante o milagre? Quem autoriza uma eutanásia? Pra qualquer escolha que se espere, Não haverá certeza até que venha Qualquer uma. E pra qualquer que seja a espera, Quanto mais terminal, mais é preciso Ser paciente. Ode à mesmice do planeta Uma guerra acontece a milhares de quilômetros daqui. Não me preocupo com isso. Porque sei que você mora num bairro próximo de mim Muito provavelmente bem a salvo. Hoje um carro em alta velocidade atropelou um homem A uns 100 metros da minha casa. Ele morava no prédio em frente. Sei que não poderia ser Um dos seus familiares, e assim, Nada mais eu quis saber sobre o incidente. Meu Flamengo venceu uma partida heroicamente. Jogou fora de casa, começou perdendo e saiu triunfante, com dois golaços. E daí? Você é Fluminense, que empatou sem festa em 1 a 1, E futebol nunca foi marcante na sua tão tranqüila vida. Até agora nem sei quem fez os gols. Meu único interesse hoje, ao abrir as páginas do jornal, Ao ver televisão, ao conversar com qualquer um que me traga novidades, É saber como você está, se vai bem, Se pensa em mim, se quer voltar. Porque o mundo sempre teve guerras, carros sempre mataram gente, E o Flamengo de vez em quando sabe dar alegrias. Nada em volta de nós está tão diferente de quando nos amamos. Só nós mudamos. Talvez as redações esperem de nós boas notícias, Algo que possa ser primeira página, manchete. “Último dia de mesmice do planeta: eles voltaram”. Nesse dia, serão assinados todos os acordos de paz, As ruas da cidade serão reservadas aos pedestres, Nenhum time entrará em campo, para que não haja na boca de ninguém O menor gosto de derrota, E não teremos nada a declarar, senão um ao outro. Eles que achem outras coisas pra fazer Do que ficar se metendo em nossa vida. 14.10.01
Canção Infantil para o 1º minueto do "Caderno de Anna Magdalena”, de J.S. Bach* Passa por mim um dia E olha pra quem te espera Derrama essa simpatia Sobre quem chora na primavera Vem para a minha rua E deixa ficar mais bela Enfeitada com teu sorriso, O paraíso já foi aqui. Sei que vou entender Se para o meu lado Não mais puderes seguir. Mas que o mundo nunca peça Que eu volte a sorrir... *Para download do mp3, procurar por "Bach", "Menuet" e "Anna". Duração aproximada: 2 minutos. 13.10.01
Soneto de Copacabana Copacabana madrugava fria E, na Avenida Atlântica, sem sono, Eu caminhava a trilha do abandono E o sujo meretrício me assistia. De repente, uma puta me assedia, Me pega a mão, mas nada eu intenciono. Agradeço, recuso ser seu dono Por cinqüenta paus/hora e dou bom dia. Antes de me deixar seguir meu passo, Pediu-me com doçura um quente abraço, Que lhe emprestasse dignidade humana. Ela encontrou calor numa frieza Como eu, que tive nojo e vi grandeza No dia que entendi Copacabana. 11.10.01
Os campos estão secos Pai, os campos estão secos. Nada cresce Nestas terras. Não chores, pai, sobre este solo Que não podes regar estas sementes Com o sal esperançoso dos teus olhos. Os campos, pai, estão secos. Mas nós, Que tanto suor deixamos neste piso, Não desaprendemos a suar. Andemos. Levaremos nossas mãos a outros terrenos, Nossos pés hão de pisar um pasto novo Que nos receberá agradecido e fértil. Dói-te, pai. Eu vejo. Mas se aqui ficares, Se junto destes campos tu secares, Nem saudade dos bons tempos da colheita Verás germinando no teu peito. Vem, pai, que eu te ajudo. Não desistas, Que sempre vinga o amor no que tu plantas, Mas nestes campos, pai, tudo secou. 10.10.01
Torcedores Sentam-se lado a lado, arquibancados. Pagam por incertezas em minutos. Exibem nas camisas suas crenças, Um orgulho de filhos bem-nascidos E as maldições do amor que não dá frutos. Mas são todos irmãos desamparados, Prole bastarda que adotou família, História, tradição e antepassados, Como um mistério atroz, lindo, supremo, Ilegitimamente hereditário. Os jogos são as noites de Natal Dessa grande família desunida. Meninos que jamais ganham brinquedos Assistindo aos parentes presenteados Agüentando essa inveja, comportados, Pedindo apenas pra brincar também. 6.10.01
Soneto da Inevitável Hora É provável que a gente se reveja, Em um lugar qualquer, numa hora à toa; Talvez contigo esteja uma pessoa, Talvez comigo outra pessoa esteja. Vai ser fácil? Quem sabe nunca seja Domar tanto carinho e talvez doa Perceber que um passado ainda ecoa, E disso eu peço a Deus que nos proteja. Não quero indiferenças nesta cena; Vou te cumprimentar, e já te aviso Que vou sorrir de alma sincera e plena. E neste gesto simples te autorizo A nunca se culpar ou sentir pena, E a sempre vir buscar outro sorriso... 4.10.01
Queria te dizer que estou feliz Para Ana Maria Queria te dizer que estou feliz Mas tenho medo de ser mal-entendido; Que tentes ver entrelinhas onde não há, Que aches intenções mesquinhas Onde não existe nada mais que um bom momento Pelo qual passei por estes dias. Queria te dizer que estou feliz E que sinto poder recomeçar sozinho, Mas também não quero que interpretes Que já sei viver com tua ausência. Falta algo que é teu ao meu lado Pra que eu possa dizer-te certas coisas De um jeito que nenhum de nós duvide. Queria te dizer que estou feliz Mesmo sem ter como me provar. 2.10.01
Delírio do eu maior A minha dimensão mais grandiosa Eu vou deixar no mundo bem impressa. É apenas uma chance, e me interessa Que a temporada seja vitoriosa. Não se trata de idéia pretensiosa Que o medíocre aos amigos nem confessa. É o talento que exige de mim pressa, Pois nunca teve graça a glória idosa. E eu sinto a cada vez que o sol levanta Que mais e mais meu vulto se agiganta E uma firme certeza se renova: Eu sou o maior gênio desta Terra. Se havia discussão, aqui se encerra; Se pensas o contrário, mostra a prova. 1.10.01
Soneto dos três personagens Para J.P. Cuenca e Carlos Jazzmo São três caras comuns ali sentados. Personagens de livros diferentes, Heróis – de tantas páginas pungentes, Vilões – de crimes não premeditados. Naquela mesa estão sendo julgados Das histórias os rumos aparentes Que os autores vêm dando, inconseqüentes, Aos passos desses três biografados. São romances distantes dos desfechos Reconhecendo-se por muitos trechos Como cópias de essência parecida. São três caras comuns tão semelhantes, Amigos como nunca foram antes, Se abraçando nos plágios dessa vida. 26.9.01
Soneto da auto-ajuda (se o leitor me permitir...) Sei quando perco, e encaro bem os fatos. Depois de receber o golpe duro, Estudo os passos dados e procuro Ensinamentos para os novos atos. Assino depois disso alguns contratos Comigo mesmo, testemunho e juro Não perpetuar os erros no futuro Pra voltar a ganhar os campeonatos. Por ora ainda vejo-me vencido. Vou superar, pois já tenho escolhido Metas que não se cumprem por acaso. Continuar é a guerra de ser vivo. Vitórias, perdas... tudo é relativo, E questão de pensar a longo prazo. 25.9.01
Lendas de Enecom (*Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, ou carnaval fora de época da categoria) I Meu estado era mais que lastimável, O dela, eu acho, Santa Catarina. Naquele alojamento (uma latrina), Meu porre pareceu-nos incurável. Passou-me sobre a calça a mão amável, Sorrindo-me, safada e feminina. “Demorou”, disse rápido à menina, Puxando fora o bicho infatigável. E bastaram apenas dezessete Minutos para ver-lhe a boca cheia Selando o pagamento de um boquete. Só vi quando ela foi como era feia... “Tô no lucro”, pensei no colchonete, Depois que me limpei na fronha alheia. II Falou pra quem ouvisse antes de ir: "Esse ano eu vou passar rodo em geral!!" Prometia uma esbórnia radical, Tudo que fosse etílico ingerir. Só que o "Terror do Encontro Nacional" Foi um fiasco que se pôde conferir. Na ida, o primeiríssimo a dormir Foi nosso candidato a maioral. E o quanto pôde foi garoteando: Um Enecom inteiro namorando, Colado na primeira que lá viu. No fim bebeu, entrou num coma alcoólico, Tardou a volta e o fim foi melancólico, Com cem mandando-o à puta que o pariu. 24.9.01
Minha religião Creio em Deus. Não escolhi. Não tive como. A minha fé não remove as manchas do tapete, Mas creio em Deus. Um Deus que é artista, Espectador e fã n. 1 das próprias obras, Que em si mesmas se inspiram, recriando-se Numa montagem nonsense tragicômica. Entendo a religião que fiz sem duvidar, E a solidão reforça a minha crença; Creio em Deus por precisar de companhia. 23.9.01
Sono impossível Quero dormir. Preciso de mais sono. Fecho a porta, as cortinas, desligo as luzes. Meu quarto é o útero onde pretendo Descansar por necessários nove meses. Não me afaga o travesseiro, nem o lençol. A minha cama, depois de todos esses anos, Não faz a mínima idéia de como se acalenta A hiperatividade do abandono. Sonho que o tempo passa. Porém, Quando abro os olhos, meu relógio diz Que sequer adormeci por meia hora. E eu vivo a sensação contínua Que a dor que se prolonga dura um dia Que impressionantemente não se acaba. 22.9.01
Soneto de Nova Iorque sobre o 11 de setembro de 2001 Morreram cinco mil nesta semana, Vitimados no ataque terrorista Que destruiu, preciso e especialista, O orgulho da nação americana. A meio pau, essa bandeira emana A dor de um povo que baixou a crista Ao se reconhecer na torpe lista Dos mortos da desgovernança humana. Que aqueles cinco mil nova-iorquinos Não sejam mais nem menos lamentados Que as perdas de judeus, de palestinos, De povos igualmente massacrados, Cujos filhos nem foram sepultados, Em honra a quem não dobrarão os sinos. Soneto da raiva de ser poeta As palavras pra mim são um brinquedo Desde o tempo em que eu tinha já nove anos. Meu desenhar não inspirava enganos, E nos esportes não entrei tão cedo. Da poesia, porém, não tive medo. Ela se tornou parte dos meus planos Tão natural que nem me causa danos Que a crítica me julgue um arremedo. Tu sabes quanto gosto do que faço. Só que não sabes que eu daria um braço Pra que, a cada bilhete meu que lesses, Pudesses te dar conta do que falo, E que ao final, em vez de elogiá-lo, Que simplesmente tu me compreendesses... Poema inacabado porque não foi começado Para Aninha ...E cada dia que eu passo sem ela O mundo passa um dia sem mim. Frágil Não pensava que era assim tão frágil. Costumava achar que eu era a fortaleza Erguida sobre tantas cicatrizes. Imóvel, resoluto, irremovível, Impassível diante das ventanias, Meu mudo coração de pedra embrutecida. Mas hoje a leve brisa do abandono Sopra nos ouvidos, e a esperança, Acostumada a não ter que ajudar-me, Parece estar longe demais dos meus sussurros. Vou sangrar as lágrimas sozinho. Agora sei que é necessário Que eu me fragilize mais ainda, enquanto espero A ajuda de uma mão preocupada Que ponha o lado certo para cima. Soneto atropelado A uma garotinha blasée da faculdade Quando ouço a valsa do teu ir e vir, Emudeço e permito que teus passos Toquem nos corredores os compassos Que ainda não me acostumei a ouvir. Espectador, me perco ao assistir À linda sinfonia dos teus traços... ...faria tudo até dar-te uns amassos, Mas güento a onda e esforço-me em fingir. O foda é que és escrota pra caralho: Desfilas sonsa em vestidinho preto Sem deixar nem um pouco de esperança, Desconcentras a mesa de baralho E (embora eu viesse bem), com tal lembrança, Acabei destruindo um bom soneto. Baixa as armas Baixa as armas. Estou inofensivo. Trago a bandeira branca sobre o corpo, Uma flor despetalada, E mil maneiras de pedir desculpas. Tenho ainda uma face de derrota Pra ser estapeada em praça pública. Se a minha rendição nao for aceita, Ainda posso garantir a tua diversão. Apenas baixa as armas, que não é hora Nem preciso gastar em mim mais munição, Que neste estado, o estado em que me encontro, Não és sequer capaz de me fazer um mal. 23/08/2001 Elegia ao Rafael dos Anjos "Que ninguém doma um coração de poeta" Augusto dos Anjos "Eu tenho a alma do poeta" Rafael dos Anjos Três da manhã. Domingo de um agosto. Com a serenidade costumeira, Meu avô dava a olhada derradeira No mundo que deixava, a contragosto. Arlinda, a esposa, ao lado honrava o posto Afagando-o, sentada na cadeira. O triste adeus velou uma enfermeira, Por trás da mão que lhe cobria o rosto. Para explicar de formas convincentes O que é pra mim tudo o que leste acima Não terei, leitor, versos suficientes. Mas foi como o desfecho da obra-prima De quem mostrou a amigos e parentes Alma de poeta sem ter uma rima. Estou à espera de uma grande tristeza Estou à espera de uma grande tristeza Porque ando só e me sinto bem com isso, Porque não tenho motivos pra estar triste E isso já vem desde longa data. Quando eu leio as notícias, Ou vejo as pessoas levando os traumas para passear, Percebo que me falta uma tragédia, Da qual os outros possam sentir pena. Algo que eu use pra justificar Metade das minhas inconseqüências. Estou à espera de uma grande tristeza Que arranque a máscara de todo o meu cinismo E me faça ter certeza de que fui muito feliz. Soneto da Arte Operária Aos artistas comuns Era esperar com fé que uma hora vinha Um pensamento, que trazia a frase, Que trazia uma estrofe e quase, quase, À sua frente o poema inteiro tinha. Era depois que vinha aquela fase Na qual ele, sentado à escrivaninha, Examinava atento cada linha E adornava e tingia a idéia-base. Encarava o difícil compromisso Como se dependesse apenas disso Pra durar de segunda a sexta-feira. Não era gênio, ou dádiva divina. Só não quis para si como rotina Viver sem uma arte rotineira. Enviado por Sua Fraude Predileta às 04:04hs Soneto da ex que passou por mim sorridente - Já viu como ela está bem diferente? Passos firmes, postura decidida... Dá pra notar que nossa despedida Um bem lhe fez, definitivamente. - Essa melhora dela, isso o ressente? Preferiria vê-la entristecida? - Não chega a tanto. Deixa uma ferida E leve dor de culpa sobre a mente. Porque houve um tempo em que eu apostaria Que ela, conformada, esperaria Por minha volta o tempo que levasse. - Parece que seu plano não deu certo... - Nem tanto. É bom vê-la feliz por perto, Embora eu sofra pra manter a classe... Soneto da conversa depois que mandei um buquê - Paixão é coisa para adolescentes, E eu já fiquei velho demais pra isso. Não sofro por amor. Não tem feitiço Que me faça chorar ou ranger dentes. Minha caneta eu não mais desperdiço Com aqueles versinhos comoventes, Elogiando musas transcendentes Que nunca se ligaram muito nisso. Se escutar por aí que estou amando, Ou que ando pelos cantos murmurando, Que por causa de amor tô na ruína, Não acredite nesses detratores. - Então por que tá me mandando flores?! - Ah, vai dizer que a gente não combina?? Nunca estivera tão sozinha Nunca estivera tão sozinha E foi tentar se acompanhar Indo ao bar de que era três quadras vizinha. Pediu água com gás, deixou esquentar, E se esqueceu dos outros lá no canto. Ninguém lhe ofereceu conversa nem bebida (As pessoas nunca sabem o que fazer com a nossa solidão). Para passar o tempo rabiscou em guardanapos Tudo aquilo de que achava ter certeza (uma frase em cada um). Pediu a conta, mas ninguém lhe trouxe. Levantou-se então, deixando sobre a mesa A meia dúzia de certezas que tinha, Levando em suas mãos apenas uma: "Nunca estive antes tão sozinha." Desinteressante Os créditos finais diziam: "Baseado na vida de Fulano de Tal" Aquilo o impressionou mais do que filme. E o fez pensar: "e se tivessem se inspirado em minha vida?". Quis começar o esboço de um roteiro. Parou num bar e pensou por três chopes nos grandes momentos que vivera. Mas nada pareceu cinegrafável. Tudo muito simples e mecânico, morno e desinteressante. Projetou o seu futuro, e não havia nos próximos dez anos nenhuma seqüência fascinante. Só lhe restou na vida ser platéia. Há conversas das quais não necessito Há conversas das quais não necessito. Algumas porque já as tive, Outras porque não serei útil a elas. Tenho muitas frases a dizer ainda. Não tenho por quê repetir as velhas, Nem por quê redizer as que não são minhas. Quero poder me convencer de coisas novas, E ouvir algo com que possa concordar. Pro lixo com os papos esgotados, Os diálogos em reprise e as frases-d'efeito, Que eu prefiro passar a vida inteira ouvindo A preferir que ninguém ouça o que eu falo. Poema de futebol ao meu amor Você, amor, é quase tão bonita Quanto o Maracanã lotado em dia de final, Cabeçada certeira no segundo pau, O nosso capitão levantando a taça Interclubes Mundial. Você, amor, é quase tão bonita quanto A bandeira tremulante do meu time, O zagueiro que falha, faz um gol e se redime, O meu goleiro defendendo o pênalti que se entrasse agora seria um crime. Você, amor, é quase tão bonita quanto A justa expulsão do adversário, Chegar à final do torneio universitário, Toda a torcida xingando o juiz de salafrário. Sim, amor, você é quase tão bonita Quanto as paixões que duram toda a vida. Preso do lado de fora Fala. Fala qualquer coisa. Não faças o silêncio apenas pra me ver ruir. Canta. Uma canção qualquer. Algo que se escute baixo, só para constar. Chora. Soluça qualquer nota. Não podes ser-te toda apenas para ti. Que eu estou preso do lado de fora da tua vida e quero entrar agora mas não há saída nem entrada só a vontade de ir embora pra dentro dessa jaula que te liberta a carne da minha ferida. Soneto da aposta que ela não topou Estatísticas mostram claramente Que as minhas chances de te conquistar São pequenas, e não devem nem passar Dos 6%, aproximadamente. É muito pouco e chego a concordar Que é caso de internar se eu for em frente, Mas o índice nem é tão deprimente Se a vida for um jogo vil de azar. Queria te propor um bom acordo: A gente pega os 6%, sai, Toma um chope e começa a conversar. Não perderás nada com isso, vai... A gente aposta, eu provo que não mordo E divido contigo o que ganhar. Pensa em mim quando dormires Pensa em mim quando dormires. Quando sorrires, não há necessidade. Que o teu sorriso seja impensado, com fim em si mesmo, como todo sorriso. Pensa em mim quando dormires. Que durmas bem, pensando em mim. Que nem te lembres que pensaste, ao acordares. Que teus ares de manhã sejam cada vez mais leves, e teus sóis inda mais claros, quase que por acidente. Pensa em mim quando dormires. Que não vás dormir chorando, pois não sei se tenho como em minhas mãos tão duras te fazer sorrir. Pois se eu não te faço chorar e quase não sei te alegrar, que graça eu hei de ter se ao dormir não me pensares? Pensa em mim, que vou dormir sem ter pra quê despertar. Aniversários e Hipocrisia Sou uma criança. Tenho certeza de que todos me vêem como tal. Não há em mim o menor resquício de maturidade. É ridículo imaginar que vou fazer 23 anos, se ao menor sinal de tédio ainda sou capaz de me imaginar correndo freneticamente até virar uma bola de fogo. Como posso ser isso tudo, se ao andar pelas ruas, me pego correndo, de braços abertos, pelo simples fato de saber que um dia voltarei a voar? Faço festas de aniversário pelo prazer de tê-los à minha volta. Sei que os engano todos os anos, não é por maldade, juro. Mas é preciso fingir pra conviver. Somente com um pouco de hipocrisia podemos viver em paz. Se somo os anos, é por simples solidariedade aos que acham que são de minha geração. A minha hipocrisia é justamente essa, a dos aniversários. Esqueçam. Não vivi o suficiente para ter saudade. Nem se preocupem: até o tempo desistiu de mim. 11.8.01
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