A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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26.9.01
Soneto da auto-ajuda (se o leitor me permitir...) Sei quando perco, e encaro bem os fatos. Depois de receber o golpe duro, Estudo os passos dados e procuro Ensinamentos para os novos atos. Assino depois disso alguns contratos Comigo mesmo, testemunho e juro Não perpetuar os erros no futuro Pra voltar a ganhar os campeonatos. Por ora ainda vejo-me vencido. Vou superar, pois já tenho escolhido Metas que não se cumprem por acaso. Continuar é a guerra de ser vivo. Vitórias, perdas... tudo é relativo, E questão de pensar a longo prazo. 25.9.01
Lendas de Enecom (*Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, ou carnaval fora de época da categoria) I Meu estado era mais que lastimável, O dela, eu acho, Santa Catarina. Naquele alojamento (uma latrina), Meu porre pareceu-nos incurável. Passou-me sobre a calça a mão amável, Sorrindo-me, safada e feminina. “Demorou”, disse rápido à menina, Puxando fora o bicho infatigável. E bastaram apenas dezessete Minutos para ver-lhe a boca cheia Selando o pagamento de um boquete. Só vi quando ela foi como era feia... “Tô no lucro”, pensei no colchonete, Depois que me limpei na fronha alheia. II Falou pra quem ouvisse antes de ir: "Esse ano eu vou passar rodo em geral!!" Prometia uma esbórnia radical, Tudo que fosse etílico ingerir. Só que o "Terror do Encontro Nacional" Foi um fiasco que se pôde conferir. Na ida, o primeiríssimo a dormir Foi nosso candidato a maioral. E o quanto pôde foi garoteando: Um Enecom inteiro namorando, Colado na primeira que lá viu. No fim bebeu, entrou num coma alcoólico, Tardou a volta e o fim foi melancólico, Com cem mandando-o à puta que o pariu. 24.9.01
Minha religião Creio em Deus. Não escolhi. Não tive como. A minha fé não remove as manchas do tapete, Mas creio em Deus. Um Deus que é artista, Espectador e fã n. 1 das próprias obras, Que em si mesmas se inspiram, recriando-se Numa montagem nonsense tragicômica. Entendo a religião que fiz sem duvidar, E a solidão reforça a minha crença; Creio em Deus por precisar de companhia. 23.9.01
Sono impossível Quero dormir. Preciso de mais sono. Fecho a porta, as cortinas, desligo as luzes. Meu quarto é o útero onde pretendo Descansar por necessários nove meses. Não me afaga o travesseiro, nem o lençol. A minha cama, depois de todos esses anos, Não faz a mínima idéia de como se acalenta A hiperatividade do abandono. Sonho que o tempo passa. Porém, Quando abro os olhos, meu relógio diz Que sequer adormeci por meia hora. E eu vivo a sensação contínua Que a dor que se prolonga dura um dia Que impressionantemente não se acaba. 22.9.01
Soneto de Nova Iorque sobre o 11 de setembro de 2001 Morreram cinco mil nesta semana, Vitimados no ataque terrorista Que destruiu, preciso e especialista, O orgulho da nação americana. A meio pau, essa bandeira emana A dor de um povo que baixou a crista Ao se reconhecer na torpe lista Dos mortos da desgovernança humana. Que aqueles cinco mil nova-iorquinos Não sejam mais nem menos lamentados Que as perdas de judeus, de palestinos, De povos igualmente massacrados, Cujos filhos nem foram sepultados, Em honra a quem não dobrarão os sinos. Soneto da raiva de ser poeta As palavras pra mim são um brinquedo Desde o tempo em que eu tinha já nove anos. Meu desenhar não inspirava enganos, E nos esportes não entrei tão cedo. Da poesia, porém, não tive medo. Ela se tornou parte dos meus planos Tão natural que nem me causa danos Que a crítica me julgue um arremedo. Tu sabes quanto gosto do que faço. Só que não sabes que eu daria um braço Pra que, a cada bilhete meu que lesses, Pudesses te dar conta do que falo, E que ao final, em vez de elogiá-lo, Que simplesmente tu me compreendesses... Poema inacabado porque não foi começado Para Aninha ...E cada dia que eu passo sem ela O mundo passa um dia sem mim. Frágil Não pensava que era assim tão frágil. Costumava achar que eu era a fortaleza Erguida sobre tantas cicatrizes. Imóvel, resoluto, irremovível, Impassível diante das ventanias, Meu mudo coração de pedra embrutecida. Mas hoje a leve brisa do abandono Sopra nos ouvidos, e a esperança, Acostumada a não ter que ajudar-me, Parece estar longe demais dos meus sussurros. Vou sangrar as lágrimas sozinho. Agora sei que é necessário Que eu me fragilize mais ainda, enquanto espero A ajuda de uma mão preocupada Que ponha o lado certo para cima. Soneto atropelado A uma garotinha blasée da faculdade Quando ouço a valsa do teu ir e vir, Emudeço e permito que teus passos Toquem nos corredores os compassos Que ainda não me acostumei a ouvir. Espectador, me perco ao assistir À linda sinfonia dos teus traços... ...faria tudo até dar-te uns amassos, Mas güento a onda e esforço-me em fingir. O foda é que és escrota pra caralho: Desfilas sonsa em vestidinho preto Sem deixar nem um pouco de esperança, Desconcentras a mesa de baralho E (embora eu viesse bem), com tal lembrança, Acabei destruindo um bom soneto. Baixa as armas Baixa as armas. Estou inofensivo. Trago a bandeira branca sobre o corpo, Uma flor despetalada, E mil maneiras de pedir desculpas. Tenho ainda uma face de derrota Pra ser estapeada em praça pública. Se a minha rendição nao for aceita, Ainda posso garantir a tua diversão. Apenas baixa as armas, que não é hora Nem preciso gastar em mim mais munição, Que neste estado, o estado em que me encontro, Não és sequer capaz de me fazer um mal. 23/08/2001 Elegia ao Rafael dos Anjos "Que ninguém doma um coração de poeta" Augusto dos Anjos "Eu tenho a alma do poeta" Rafael dos Anjos Três da manhã. Domingo de um agosto. Com a serenidade costumeira, Meu avô dava a olhada derradeira No mundo que deixava, a contragosto. Arlinda, a esposa, ao lado honrava o posto Afagando-o, sentada na cadeira. O triste adeus velou uma enfermeira, Por trás da mão que lhe cobria o rosto. Para explicar de formas convincentes O que é pra mim tudo o que leste acima Não terei, leitor, versos suficientes. Mas foi como o desfecho da obra-prima De quem mostrou a amigos e parentes Alma de poeta sem ter uma rima. Estou à espera de uma grande tristeza Estou à espera de uma grande tristeza Porque ando só e me sinto bem com isso, Porque não tenho motivos pra estar triste E isso já vem desde longa data. Quando eu leio as notícias, Ou vejo as pessoas levando os traumas para passear, Percebo que me falta uma tragédia, Da qual os outros possam sentir pena. Algo que eu use pra justificar Metade das minhas inconseqüências. Estou à espera de uma grande tristeza Que arranque a máscara de todo o meu cinismo E me faça ter certeza de que fui muito feliz. Soneto da Arte Operária Aos artistas comuns Era esperar com fé que uma hora vinha Um pensamento, que trazia a frase, Que trazia uma estrofe e quase, quase, À sua frente o poema inteiro tinha. Era depois que vinha aquela fase Na qual ele, sentado à escrivaninha, Examinava atento cada linha E adornava e tingia a idéia-base. Encarava o difícil compromisso Como se dependesse apenas disso Pra durar de segunda a sexta-feira. Não era gênio, ou dádiva divina. Só não quis para si como rotina Viver sem uma arte rotineira. Enviado por Sua Fraude Predileta às 04:04hs Soneto da ex que passou por mim sorridente - Já viu como ela está bem diferente? Passos firmes, postura decidida... Dá pra notar que nossa despedida Um bem lhe fez, definitivamente. - Essa melhora dela, isso o ressente? Preferiria vê-la entristecida? - Não chega a tanto. Deixa uma ferida E leve dor de culpa sobre a mente. Porque houve um tempo em que eu apostaria Que ela, conformada, esperaria Por minha volta o tempo que levasse. - Parece que seu plano não deu certo... - Nem tanto. É bom vê-la feliz por perto, Embora eu sofra pra manter a classe... Soneto da conversa depois que mandei um buquê - Paixão é coisa para adolescentes, E eu já fiquei velho demais pra isso. Não sofro por amor. Não tem feitiço Que me faça chorar ou ranger dentes. Minha caneta eu não mais desperdiço Com aqueles versinhos comoventes, Elogiando musas transcendentes Que nunca se ligaram muito nisso. Se escutar por aí que estou amando, Ou que ando pelos cantos murmurando, Que por causa de amor tô na ruína, Não acredite nesses detratores. - Então por que tá me mandando flores?! - Ah, vai dizer que a gente não combina?? Nunca estivera tão sozinha Nunca estivera tão sozinha E foi tentar se acompanhar Indo ao bar de que era três quadras vizinha. Pediu água com gás, deixou esquentar, E se esqueceu dos outros lá no canto. Ninguém lhe ofereceu conversa nem bebida (As pessoas nunca sabem o que fazer com a nossa solidão). Para passar o tempo rabiscou em guardanapos Tudo aquilo de que achava ter certeza (uma frase em cada um). Pediu a conta, mas ninguém lhe trouxe. Levantou-se então, deixando sobre a mesa A meia dúzia de certezas que tinha, Levando em suas mãos apenas uma: "Nunca estive antes tão sozinha." Desinteressante Os créditos finais diziam: "Baseado na vida de Fulano de Tal" Aquilo o impressionou mais do que filme. E o fez pensar: "e se tivessem se inspirado em minha vida?". Quis começar o esboço de um roteiro. Parou num bar e pensou por três chopes nos grandes momentos que vivera. Mas nada pareceu cinegrafável. Tudo muito simples e mecânico, morno e desinteressante. Projetou o seu futuro, e não havia nos próximos dez anos nenhuma seqüência fascinante. Só lhe restou na vida ser platéia. Há conversas das quais não necessito Há conversas das quais não necessito. Algumas porque já as tive, Outras porque não serei útil a elas. Tenho muitas frases a dizer ainda. Não tenho por quê repetir as velhas, Nem por quê redizer as que não são minhas. Quero poder me convencer de coisas novas, E ouvir algo com que possa concordar. Pro lixo com os papos esgotados, Os diálogos em reprise e as frases-d'efeito, Que eu prefiro passar a vida inteira ouvindo A preferir que ninguém ouça o que eu falo. Poema de futebol ao meu amor Você, amor, é quase tão bonita Quanto o Maracanã lotado em dia de final, Cabeçada certeira no segundo pau, O nosso capitão levantando a taça Interclubes Mundial. Você, amor, é quase tão bonita quanto A bandeira tremulante do meu time, O zagueiro que falha, faz um gol e se redime, O meu goleiro defendendo o pênalti que se entrasse agora seria um crime. Você, amor, é quase tão bonita quanto A justa expulsão do adversário, Chegar à final do torneio universitário, Toda a torcida xingando o juiz de salafrário. Sim, amor, você é quase tão bonita Quanto as paixões que duram toda a vida. Preso do lado de fora Fala. Fala qualquer coisa. Não faças o silêncio apenas pra me ver ruir. Canta. Uma canção qualquer. Algo que se escute baixo, só para constar. Chora. Soluça qualquer nota. Não podes ser-te toda apenas para ti. Que eu estou preso do lado de fora da tua vida e quero entrar agora mas não há saída nem entrada só a vontade de ir embora pra dentro dessa jaula que te liberta a carne da minha ferida. Soneto da aposta que ela não topou Estatísticas mostram claramente Que as minhas chances de te conquistar São pequenas, e não devem nem passar Dos 6%, aproximadamente. É muito pouco e chego a concordar Que é caso de internar se eu for em frente, Mas o índice nem é tão deprimente Se a vida for um jogo vil de azar. Queria te propor um bom acordo: A gente pega os 6%, sai, Toma um chope e começa a conversar. Não perderás nada com isso, vai... A gente aposta, eu provo que não mordo E divido contigo o que ganhar. Pensa em mim quando dormires Pensa em mim quando dormires. Quando sorrires, não há necessidade. Que o teu sorriso seja impensado, com fim em si mesmo, como todo sorriso. Pensa em mim quando dormires. Que durmas bem, pensando em mim. Que nem te lembres que pensaste, ao acordares. Que teus ares de manhã sejam cada vez mais leves, e teus sóis inda mais claros, quase que por acidente. Pensa em mim quando dormires. Que não vás dormir chorando, pois não sei se tenho como em minhas mãos tão duras te fazer sorrir. Pois se eu não te faço chorar e quase não sei te alegrar, que graça eu hei de ter se ao dormir não me pensares? Pensa em mim, que vou dormir sem ter pra quê despertar. Aniversários e Hipocrisia Sou uma criança. Tenho certeza de que todos me vêem como tal. Não há em mim o menor resquício de maturidade. É ridículo imaginar que vou fazer 23 anos, se ao menor sinal de tédio ainda sou capaz de me imaginar correndo freneticamente até virar uma bola de fogo. Como posso ser isso tudo, se ao andar pelas ruas, me pego correndo, de braços abertos, pelo simples fato de saber que um dia voltarei a voar? Faço festas de aniversário pelo prazer de tê-los à minha volta. Sei que os engano todos os anos, não é por maldade, juro. Mas é preciso fingir pra conviver. Somente com um pouco de hipocrisia podemos viver em paz. Se somo os anos, é por simples solidariedade aos que acham que são de minha geração. A minha hipocrisia é justamente essa, a dos aniversários. Esqueçam. Não vivi o suficiente para ter saudade. Nem se preocupem: até o tempo desistiu de mim. |