3.10.13

Existirá vida após a des-PM no Rio?

Ser carioca é ter a noção clara de que o noticiário de crimes contra a vida recebe enorme contribuição da nossa bicentenária Polícia Militar. Nos casos de repercussão, é inegável um monopólio policial na autoria ou na suspeita.

Relembremos: Vigário Geral, Candelária, Geisa e Sandro do ônibus 174, o menino João Roberto, a juíza Patrícia Acioli, o menino Juan e os inúmeros milicianos que saem de corporações militares. 

Reforça essa certeza o desfecho do inquérito policial do pedreiro Amarildo – no mesmo dia em que policiais em ação durante os protestos dos professores na Cinelândia algemaram um rapaz via flagrante falso de três morteiros, que desistiram de registrar, talvez por instinto de sobrevivência. O flagrante é anunciado – "Está com três morteiros", diz o policial – mas não chega aos autos. Não importa: o motivo das humilhantes algemas e do encaminhamento à delegacia foi o tal flagrante.


Amarildo: vítima de tortura, segundo o inquérito policial


Se Amarildo foi torturado por PMs com choques elétricos e sufocamento e morto em dependência da UPP da Rocinha, como concluiu o inquérito, provaremos ao mundo que, a menos de um ano da final de Copa, não somos um bom lugar para viver, não nos pacificamos ao pé da letra, não humanizamos o tratamento dado às populações carentes atendidas pelas UPPs.

É ainda mais grave porque as UPPs foram anunciadas pelo Governo do Estado como planejadas para receber policiais recém-formados, “sem vícios de conduta” – e o treinamento deles, pelo visto, continua igual ao dos veteranos que policiam manifestações: apagar incêndios com gasolina.

No vídeo em que os policiais armam o flagrante dos morteiros, temos pelo menos duas câmeras filmando tudo. Impressiona a indiscrição dos policiais, a cara de pau, o destemor diante de qualquer risco de punição que lhes possa sobrevir.

Desmilitarizar a polícia virou um mantra, a verdade autoevidente que corrigiria todo o sistema. Não é. Se um dia ocorrer, será uma experiência. Desmilitarizá-la será aceitar que decida entrar em greve, por exemplo, um luxo para um país com índices de violência superiores aos de zonas conflagradas. E tudo isso com as características que as greves têm adquirido no país, como a de servir de trampolim midiático para partidos e políticos muito pouco preocupados com o bem-estar popular.

Por outro lado, será a aposta de que, num regime civil de trabalho, a polícia fluminense não aja como se estivesse em guerra no Afeganistão. Mas eu escrevo essas coisas e me lembro da chuva de tiros disparada neste ano por um helicóptero da Polícia Civil na favela do Rola, arriscando vidas e baleando paredes em toda a vizinhança. Repito: Polícia Civil. A missão? A execução sumária de um traficante, uma operação de guerra que mancha qualquer estado que se diga democrático.

O que quero dizer é que civilizar a PM não significa transformá-la imediatamente nas polícias de outras cidades do mundo, sacadas como exemplo pelos sociólogos e antropológos mais bem-intencionados. Ainda vamos ter uma cultura policial carrasca, com pouco pudor de matar, situações de alta tensão incomuns no Ocidente civilizado e nossa atávica corrupção. Talvez valha tentar, mas talvez falhe, no cenário descrito.

Mas é muito difícil que surja um desastre pior que o do presente.

Um comentário:

Alan (FFC) disse...

Marvio o que adianta desmilitarizar se a nossa sociedade continua sendo covarde, violenta, autoritária, sempre pronta apoiar atos violentos desde, é claro, que não seja com ele ou um dos seus?

A tal desmilitarização tão defendidas pelos sociólogos, antropólogos, cientistas sociais (entre eles eu)e outros não é a solução mágica é um caminho que passa por uma drástica mudança na forma de pensar nesse país.

Desmilitarizar mas continuar aceitando a tortura, aceitando que matem favelados para preservar a própria segurança, aceitando as favelas sendo invadidas, apoiando a "porradaria", aceitando os desmandos, não vai adiantar muito.