13.6.13

Talvez o protesto o represente, leitor



Falar que as manifestações que perturbam a ordem em São Paulo, Rio e outras cidades são causadas apenas por uma diferença de R$ 0,20 é uma bobagem. É ater-se apenas a um dos sintomas de um perigo muito maior e corrosivo, que é a perda do controle da inflação.

Talvez estejamos assistindo ao primeiro grande protesto popular contra a desvalorização da moeda, o aumento trotante de preços e inconscientemente contrário à política econômica do governo Dilma. E é nisto que talvez tais protestos o representem, leitor, ligue você para os 20 centavos a mais na passagem ou não.

Economistas explicam assim o atual processo inflacionário: a melhor partilha da renda trouxe mais pessoas ao consumo – o que é ótimo –, mas não incentivou de maneira sólida a produção industrial, as exportações, a competitividade. A produção freou; o consumo não. Preços sobem, perde-se a noção do valor do dinheiro. Gasta-se mais, cobra-se mais ainda.

O maior problema é quando essa ciranda de preços se torna uma verdade autoevidente: o consumidor para de questionar os preços por aceitar que, no Brasil, “é assim mesmo” – seja no chope do bar da moda, seja no transporte público que até melhora, mas em ritmo lento.

Não que o Movimento Passe Livre pretenda se ver assim, como uma crítica macroeconômica à política econômica de Guido Mantega. Suas palavras giram em torno da ideia de que o transporte público seja bancado só pelos impostos, como a educação e a saúde. É filosoficamente interessante, mas uma olhada em escolas e hospitais públicos mostra que o desafio da qualidade sem ônus ao usuário, no Brasil, é utopia. E não há metrópole no mundo com um sistema de transportes inteiramente grátis.

Porém, a bandeira hoje é contra o aumento da passagem, que sim, foi guindado pela inflação – ainda que abaixo do índice do período. A rigor, não é preciso abraçar todos os ideais do MPL: basta questionar se o serviço vale o preço e o aumento – algo que deveríamos fazer em qualquer compra, em qualquer refeição, em qualquer serviço e que, por não fazermos, contribui para acelerar a roda do processo inflacionário.

Quando se reúnem 10 mil pessoas, o sentimento nunca é homogêneo: é claro que há universitários com iPhone, assim como há gente de periferia, movimentos partidários e simpatizantes independentes, e cada um leva às ruas seus motivos, intenções e interpretações. E os R$ 0,20 talvez sejam apenas o símbolo barato de uma discussão maior, à qual o Planalto deveria atentar.

Sou e serei contrário a todo tipo de vandalismo, assim como sou contra a violência policial. Mas a perturbação da "ordem" de um ciclo inflacionário calcado em inércia da política econômica federal é muito bem-vinda.

12 comentários:

Tchê Guasco disse...

Muito bom!

Ogro disse...

Márvio, falou e disse. O que me espanta é a passividade dos governantes e suas entrevistas fora da realidade. O despreparo da PM já era conhecido. O vandalismo foi mínimo se comparado à importância do movimento.

Gay Son of Lesbian Mothers disse...

interessante, mas não acredito que as coisas mudem algum dia.
A maioria das pessoas é idiota e o sistema Capitalista Democratico Cristão é isso
(muitos idiotas anestesiados pela promessa de um pós mundo justiceiro trabalhando muuuuito para sustentar poucos espertos vigaristas)..

Sei que vale a maxima "pelo menos estão fazendo barulho",
mas prefiro que matem politicos espancando-os em praça publica!

Anônimo disse...

Espero que esse protesto se alastre por todo o país, que esses protesto sejam o estopim de algo que pode mudar a história desse país.

Vamos tomar o poder vamos acabar com esse governo corrupto.

Anônimo disse...

Marvio, fantástico. Compartilhei seu texto com centenas de amigos que compartilharam com outras centenas.

Também acredito que os protestos sobre o aumento das passagens são apenas "a ponta do iceberg". A insatisfação com inflação, corrupção e com esse governo populista é geral.

Espero que esse movimento tome conta não só do Brasil mas também da America Latina toda para acabar de vez com esses governos que atrasam nosso desenvolvimento.

Mas tenhamos consciência de que não existe solução mágica e rápida e sim um caminho de longo prazo que começou a ser trilhado pelo FHC mas só retrocedeu desde que o PT assumiu o poder.

Anônimo disse...

Você expressou o sentimento e as ideias do que anda acontecendo. Quem sabe, temos o felicidade de que políticos e estudiosos leiam também o seu texto e aprendam o que você conseguiu transmitir. Ótima leitura do que acontece em nosso país.

Anônimo disse...

O texto é uma mea culpa do tuite onde você projeta o reajuste de 0,20 ao ano? Quando disse isso, ficou claro que se opunha ao "movimento" em função do valor.
Olhou a árvore (num viés que beira as raias do etnocentrismo), não a floresta.

Anônimo disse...

bom resumo, mas quando você diz que "não há metrópole no mundo com um sistema de transportes inteiramente grátis", você se equivoca:

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,transporte-gratuito-e-realidade-em-cidades-brasileiras,1042366,0.htm

Márvio disse...

Perdão, mas não creio que tenha me equivocado. Tenho certeza de que usei as palavras "metrópole" e "inteiramente". Não creio que cidades com 500 mil habitantes ou as duas linhas de ônibus em Sydney concorram para o que eu citei.

Anônimo disse...

Isso aí !
O povo brasileiro tem que acordar e ir às ruas!

Jeferson Dias disse...

Questões importantes para um protesto decente.
Onde estava à multidão, que dizia querer uma manifestação pacífica, quando os vândalos arruaceiros disfarçados de manifestantes iniciaram a depredação de parte de nossa cidade, a destruição do patrimônio histórico, do patrimônio alheio?
Porque não tomaram uma atitude enérgica em relação a isto? Porque não abraçaram nossa cidade para que não houvesse depredação e por consequência não existisse o confronto com a Polícia?
Porque não se tem com quem começa um quebra-quebra a mesma atitude que se tem com quem porta uma bandeira partidária?
“Minorias exaltadas” não podem roubar a cena no exercício da democracia. Na China uma pessoa desarmada conteve a ação violenta de um exército armado, equipado com tanques. Aqui 100.000 (cem mil) pessoas querendo paz não são suficientes para impedir que mais ou menos 300 “cidadãos” transformem manifestação pacífica em guerra.
Quantos supostos “líderes” do movimento vão tentar tirar proveito político disto nas próximas eleições? Quantos deputados, senadores, governadores e afins serão eleitos à custa do movimento para esquecer-se de toda esta ideologia logo que eleitos? Ou será que já se esqueceram dos caras-pintadas que destituíram o presidente Collor. Será que alguns deles não tiveram em sua carreira política atitudes tão deploráveis quanto às do próprio Collor?
Jovens, não permitam que uma minoria os transforme em massa de manobra, protestar sim, ser alienado nunca. Ajam com coerência, tenham com o próximo a mesma atitude que esperam que tenham com você.
Temos uma educação ruim, uma política de segurança que privilegia eventos como a Copa do mundo e as Olimpíadas, as UPPs foram instaladas estrategicamente para diminuir os índices de criminalidade onde acontecerão os jogos ou em pontos turísticos, pois para nossos governantes, só é necessário agir para proteger turistas. Quantas mulheres foram estupradas até que uma turista fosse estuprada, o caso fosse parar na mídia e depois disso a nossa polícia milagrosamente conseguiu encontrar em tempo recorde os criminosos?
Alguém se lembra da operação, muitíssimo bem sucedida por sinal, realizada para prender Elias Maluco, responsável pela morte do jornalista Tim Lopes?
Ao implantar uma UPP, o governo se gaba de não atirar um só projétil. Sendo que começam a anunciar com um mês de antecedência o local da implantação, para que assim os traficantes possam organizar a mudança. Reduz a criminalidade em um determinado local, e transfere o problema para outro. Procurem saber como está à situação na Baixada Fluminense, Região dos Lagos, Região Serrana, Norte Fluminense, etc... A situação nestas localidades está insustentável.
O menor dos nossos problemas é o preço da passagem. Educação não existe, saúde é uma piada de mau gosto e segurança nem dentro de casa. Tudo isto passa por uma política corrupta, fracassada e ultrapassada. Que tal começarmos mudando isto?

Jeferson Dias disse...
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