18.4.13

Uma PEC por uma nova família




E se tudo isso fosse divertido, justamente por que os une?*


Tamara é uma das minhas mais queridas amigas. Carioca, ela vive hoje em Israel, com dois filhos lindos, Lucas e Olívia, e o marido, Daniel. Enquanto o Brasil discutia a PEC das domésticas, eu estava por lá, maravilhado com a família deles.

Enquanto batíamos papo, houve um dado momento em que Lucas, 5 anos e 1 mês, desobedeceu a mãe. Tamara imediatamente o lembrou de um castigo: se não se emendasse, não seria autorizado a ajudar a arrumar a casa (!)

Ver Lucas ficar absolutamente triste com o risco de ficar de fora da arrumação – da qual até Olívia, 3, participa – foi muito mais impactante em relação à minha cultura do que qualquer coisa que eu possa falar sobre muçulmanos ou judeus ultraortodoxos. Na casa da Tamara, arrumar a casa é parte da brincadeira – todo mundo participa, sem exceções nem diferenças de gênero.

Não é que o capitalismo esteja fora de casa, nem que isso seja regra no país. Tamara é jornalista free-lancer e Daniel trabalha como engenheiro numa multinacional de processadores. Mas há prioridades: primeiramente, uma decisão a respeito de criar os filhos e um profundo respeito mútuo no casal; além disso, alguns traços que identifico no senso de coletividade da sociedade judaica israelense, que tem exemplos que vão do trabalho em cooperativa (kibutzim) ao Exército, vivenciados por homens e mulheres da enorme classe média do país.

Outra dessas coisas é o shabat – o dia religioso do descanso, que começa ao pôr-do-sol da sexta e termina 24 horas depois. Há várias formas de vivê-lo, mas a maneira mais difundida é a de reunir parentes ou amigos em casa para fazerem um jantar – a maioria dos estabelecimentos está fechada, não há muita saída. O resultado disso é que a classe média e as famílias se frequentam mais do que acontece nas metrópoles do Ocidente. Além disso, tive a impressão de que as pessoas que moram sozinhas lá vivenciam menos as solidões opressoras que temos aqui, pelo mesmo motivo.

O Brasil da nova classe média e das garantias trabalhistas para as empregadas - cuja mão-de-obra declina cada vez mais, uma vez que outros empregos aparecem com salários mais atraentes – pede uma nova ideia de família. Talvez isso nos leve a sermos mais participativos, mais solidários, menos machistas e, quem sabe, menos solitários. Talvez isso até ganhe as ruas, contamine a sociedade e mude as coisas que condenamos tanto nos outros, mas que adoramos ter, seja como pai, seja como patroa.

Pagar pelo direito de ser desigual naquilo que é comum começa em casa: é a pedra fundamental do Brasil. Mas pode mudar com o sabor de uma brincadeira.


*Meramente ilustrativa, a foto não traz os membros da família que descrevo.

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