A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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26.12.01
Monólogo de um demônio Protege-te de mim nas tuas preces, Pois eu sou o demônio que te assiste, Discretamente à sombra, e quem persiste Em ser pior, bem mais do que mereces. Nunca me viste. Não, não me conheces; Minha virtude principal consiste Em SER demônio. Um mal que não existe, A crendice ancestral que desmereces. E até quando não é do meu intento, Ingenuamente segues tua sina E às vezes minha porta vens bater. É por isso que agora me apresento: Já procuras sozinho uma ruína, Nada mais há que eu tenha por fazer. 25.12.01
Recado ao meu biógrafo Se eu me tornar um homem importante Do tipo que merece biografia, Não quero que se escreva fantasia Do que vivi nem do que vem adiante. Quero um texto fiel a cada instante, Que não inspire tola simpatia, Imparcial sobre tudo o que eu fazia, Rigoroso e jamais mitificante. Que se elogie só o que merecer, E, com o perturbado que for ler, Seja meu redator sempre mais franco. Mas, quando for falar de Ana Maria, Por tudo o que não fiz e o que faria, Eu peço algumas páginas em branco. 21.12.01
Soneto da final Unico grande amore
Di tanta, tanta gente Che fai sospirà Hino da AS Roma, clube italiano de futebol Inda te amava quando fui sozinho Ao estádio, nem um pouco esperançoso; A tua ausência me mantém saudoso, Mas não pude ignorar o burburinho Da final. Era um público orgulhoso, O som de um só ardor, um só carinho, Ébrios de uma paixão que, como o vinho, Faz esquecer da dor com fácil gozo. Foi quando um desafortunado gol Traiu a multidão e lhes roubou De uma alegria os pensamentos doces. E ao ver os prantos, me indagava a mente Quanta dor sentiriam, se tu fosses O único grande amor de tanta gente. 20.12.01
Soneto de uma estranha vocação Nasci pra ser herói, virei palhaço. À medida que fui ganhando idades, Dentre todas as possibilidades Aperfeiçoei-me na arte do fracasso. Eu tinha esse talento do erro crasso, De equívocos, enganos, leviandades. Tentei voltar, mas vis fatalidades Torceriam o acerto do meu passo. Assim eu, por instinto, fiz a vida; Com chutes que acertavam sempre as traves, Cessando de escrever belos romances, Por conta da virtude incompreendida Manifesta de formas tão suaves: Saber desperdiçar as grandes chances. 19.12.01
Curso Livre de Poesia e outros serviços A partir de janeiro, oferecerei um Curso Livre de Poesia, envolvendo apreciação, criação e declamação de poemas. Os objetivos do curso serão: - estudos sobre as poesias portuguesa e brasileira; formação de leitores; - estímulo à composição poética; compreensão das formas fixas, versificação e estilística; - desenvolvimento da arte declamatória; a poesia ao público. Aulas semanais de 1h30 de duração. Mensalidade de R$ 50. Prazo de conclusão: indeterminado (sem diploma). Os interessados deverão entrar em contato comigo pelo e-mail marvio@skydome.net. Também dou aulas particulares de português e literatura para alunos de ginásio, segundo grau, universitários e profissionais. Preço a combinar. 17.12.01
Aos meus braços* Eu não creio num Deus de intervenções Como bem sei que crês. Se acreditasse, a Ele imploraria Que em tua vida nunca interferisse. Que não tocasse teu cabelo, Deixando-te como és, Porém, se Ele quisesse dar-te um rumo, Que viesses aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Tampouco cria na existência de anjos Como hoje penso, ao ver-te. Se acreditasse, eu mesmo os juntaria Pedindo que zelassem só por ti. Dando uma vela a cada um Pra ensolarar-te a via Com graça e amor, conforme Cristo andava, Guiando-te aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Porém no amor, querida, eu guardo crenças, Como igualmente crês. E tenho fé que exista alguma estrada Que juntos poderemos caminhar. Então, que acendam fortes velas Por toda a tua vida, Para que voltes sempre e mais e sempre... ...aos meus braços, Senhor Aos meus braços. Aos meus braços, Senhor Aos meus braços. *Tradução livre da canção Into my arms, de Nick Cave, lançada no álbum The Boatman's Call, de 1997, e gravada por Nick Cave and the Bad Seeds. 15.12.01
Pietà
Detalhe da Pietà, de Michelangelo. Basílica de São Pedro, Vaticano. Estava morto o Cristo. Envolto em panos, Sangrava ainda quando foi deposto. Banhado em suor e lágrimas, seu rosto Beijou Maria, diante dos romanos. Passados 33 daqueles anos, A mulher da qual Deus fez tanto gosto Chorou a honra e o sofrimento imposto Por dar seu filho à luz pelos humanos. Ao fim de toda dor que tinha visto, Por um momento se esqueceu do Cristo; Quis seu menino e nunca mais deixá-lo. E se inclinou para tirar do solo A cabeça que trouxe junto ao colo Como se inda pudesse amamentá-lo. 14.12.01
Soneto das distâncias A paisagem serena em sua face Inda enfeita as janelas do meu dia, Sem que eu precise ver fotografia Nem gastar tempo até que essa dor passe. Senti-la perto é simples, eu diria Que em sonho ela talvez me visitasse Se num sono profundo eu me deitasse Nas horas em que sei que ela dormia. Tão próxima de mim quanto eu distante... E a geometria plana não garante Que entre nós dois calcule-se uma reta. O que existe é uma linha sinuosa. De medição difícil, trabalhosa, E a estimativa nunca sai correta. De Amor e Ódio Amor, irmão siamês do ódio mal-visto, Fui entregar à mão duma incerteza Que, enquanto dou-lhe o bem, dá-me frieza, E não parece se importar com isto. Escravizado! Tido como presa! As melhores razões logo despisto Em prol duma maior, por quem existo, Arraigada em minha profundeza. Foi assim que eu, afeito às circunstâncias, Do ódio ao amor quis encurtar distâncias E quis odiá-la (com algum receio). Fracassei. E hoje indago no meu canto: Por que fui dedicar-lhe amor tão santo Se quanto mais a amo mais me odeio? 7.12.01
Réquiem para 12 rosas As rosas que mandei, sei que morreram, Pois é o destino vil de toda rosa. Nenhuma pôde em vida ser vaidosa; Tão logo abriram, cedo faleceram. As doze mensageiras se perderam Na missão já sabida desastrosa. Levaram um cartão, em simples prosa, Cumpriram seu dever e feneceram. Era preciso que elas fossem vê-la Para que eu desaguasse esses amores Tão represados no pensar em tê-la Sem poder, arruinando-me nas dores, Culpas de rosas mortas por querê-la E um amor que não vale doze flores. 4.12.01
Soneto do bar e do tédio Embriagado de um cansaço louco, Eu vim buscar um pouso nesta mesa. O que beber? Não tenho inda certeza, Mas prometo pedir daqui a pouco. Em meus bolsos eu trouxe qualquer troco Que não me bastará para a proeza De mais embriagar-me. "Esta dureza Me preserva", concluo, dando um soco (Levemente) na mesa, onde um cinzeiro, Um par de pratos limpos e um saleiro Me assistem numa noite de dezembro. São horas só de tédio, interrompido Quando indaga um garçom: "Foi atendido?" E eu, confuso, respondo que não lembro... |