A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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23.11.01
Soneto dos passos Passo a passo eu te quero do meu lado, E sempre passo a passo, bem mais perto, Para que a cada passo dado certo, Um outro passo certo seja dado. Ao passo que esses passos no deserto Passem por um jardim primaverado, Deixaremos as dores no passado, E passo a passo, neste rumo incerto Que as vidas possam ter (pois são passantes Na calçada onde os passos dados antes Não passam para a história nenhum traço), Pensaremos na paz sem que algo impeça, Sem crimes passionais, com pés sem pressa, Num passeio por tudo passo a passo. 19.11.01
Soneto dos dois lados da moeda Eu penso em ti bem mais que deveria Se fosse apenas coisa de momento, Se eu só quisesse tê-la como o vento Que nos deixa depois que acaricia. Podia ser um sonho calmo e lento, Que numa ou noutra noite iludiria, Mas não... eu penso em ti à luz do dia, Dirigindo, desperto e bem atento. Do meu carro eu te busco em outros carros, Pelas noites te busco em outros sarros... Se me achasses na vida nessas horas, Imagino que tua voz diria Que em teus olhos se vê que inda me adoras... ...ou que penso em ti mais do que devia. 14.11.01
Canção do Jardineiro O amor é flor que se cultiva, Como a flor que precisa de amor Para florir. Como a flor pede outra Flor que empreste pólen Pra ser flor, Amor só pede amor Pra mais amor Tecer. Floreio o amor pois creio que isto o aflora, Já que amor não dá frutos como a amora, Só precisa morar Em nossa flor. 13.11.01
Dinastia Aos Fernandes e aos França dos Anjos Levantai e vede! A minha guerra Acabou, e eu venci. Meus inimigos Prostrados neste chão pedem abrigos Beijando as minhas botas, que de terra Estão cobertas, como os meus antigos Ancestrais. A batalha que se encerra Honrou meu sangue e assim os desenterra, Sem precisarmos ir aos seus jazigos. Pois como herança eu recebi exemplos Duma gente que errou por tantos trilhos Mas ensinou nobreza, verve e afetos. Minha vitória é o sino destes templos Cantando os pais que um dia foram filhos Pro filho que vai orgulhar seus netos. 8.11.01
De passagem por ela Beijou o travesseiro, cuja fronha Ainda tinha o cheiro fraco do suor que ele aspergira Quando, há duas semanas, se beijaram antes de dormir. Naquela noite, ela quis que seu quarto Fosse mais dele do que dela. Sem retratos que não fossem dele Sem homens que não fossem ele, Porque sem ele o quarto não seria dela. E levava a carne à sua boca gentilmente, Naquela sensual maternidade Que aquele órfão de alma não quis adotar. Ela viu nos seus olhos gratidão, Um prazer que soava confortante E uma paixão talvez insuficiente; Os dois sabiam que ele estava de passagem. E de novo, aquele quarto era só dela. De novo, estava só naquele quarto. De novo, alguém passou por lá Sem deixar nada além de um quarto Para ela. 5.11.01
Conversa depois de uma pelada ... Depois, nós fomos prum motel na Barra, Não vou lembrar do nome dele agora, Um desses bons, de dez reais a hora, Aos quais levo meu gado para farra. Só que ela tava assim, cheia de marra, Chatinha, meio dentro, meio fora, Aquelas coisas que mulher adora... Mas depois de um tempão de agarra-agarra, Postada como quem se volta à Meca, Virou o rosto, e ao ver-me de cueca, Pensou que eu estivesse de pochete. De perto olhou, mediu usando a palma, Para então sugerir, mantendo a calma: “Amor, vamos ficar só no boquete?” 3.11.01
Soneto a um merda Da vida ele não faz porra nenhuma. É inútil, nasceu por acidente, Vive a passeio, o mundo não o sente, Ninguém o quer por perto ou quer que suma. Quem convive com ele se acostuma À sua ausência até quando presente; Não brilha, não consola, não ressente, Nunca a ninguém fez diferença alguma. Desperdiça na terra cada instante Solto no espaço-tempo, agonizante, E, podendo ser muito, quis ser médio. Um estorvo imbecil, quase-abortado, Mediocremente vivo, um entediado Que soube achar conforto amando o tédio. Soneto-carta confessional de intenções Aos leitores de “A Nobre Farsa” Há quem pergunte ao ler os meus poemas Em tom curioso (às vezes, com piedade) “O que escreveste, é tudo de verdade?”, E quer saber se sofro por dilemas. Porém, não se preocupem com meus temas. Primeiro: por não ter necessidade; Segundo: porque é minha prioridade Celebrizar poesia, e não problemas. Não vou dizer que aqui não sou sincero, Pois precisei do amor pra ser artista E há na tristeza um belo cativante. Mas de vocês, amigos, eu só espero Que achem prazer com o que têm à vista; Isto faz minha vida interessante. 1.11.01
Soneto de um dia pra esquecer No último dia em que nós dois nos vimos, Já não havia mais sentido em nada, Ocasião para não ser lembrada Depois de todo amor que dividimos. Foi quando conformados admitimos Que ali findava a nossa caminhada. Cada um levou metade desse nada De um tudo do qual nós nos despedimos. Para onde for, eu levarei a parte Que me serve pra sempre recordar-te Sem ver tal dia entre os que foram teus. Porque nos outros, quando eu ia embora, Sempre insistias, “não, não vás agora”, E nesse me disseste vai-com-Deus. |