
Foi uma vitória do povo? Foi uma vitória do Movimento Passe Livre? Do vandalismo? Terá sido do PT, cujo presidente, Rui Falcão, convocou seus militantes a participar das passeatas de ontem? Se a oposição nas ruas e a situação nos gabinetes ganharam, que protesto era esse? É possível ser governo e oposição simultaneamente? O PT é apartidário?
Se a queda das tarifas virá com queda em investimentos nos transportes – como disse o governador tucano Geraldo Alckmin, apontando que o bode já está confortavelmente instalado na sala –, foi uma vitória do povo? Se o vandalismo foi crucial para atemorizar os governantes a ponto de rasgarem planilhas e empurrarem a conta mais para frente, por que os líderes do MPL tentam agora se afastar dele, identificando quem protestava e quem não?
Outra: se o MPL defende o povo, como seus líderes conseguem dizer tão descaradamente que movimentos sociais não são obrigados a pensar como e onde os governos devem achar o dinheiro que faltará com a redução da tarifa? O repasse dos custos e a falta de melhorias não prejudicam o mesmo povo que defendem?
É uma Copa de Puristas, cada um mais puro em sua teoria e mais avesso à prática – ou melhor, à realidade – e cada um invocando para si a tarefa de ser o melhor intérprete da voz desse deus chamado povo – que, sim, tem todo o direito de protestar sobre suas insatisfações. E sim, foi por isso que tanta gente de esquerda e de direita aproveitou os protestos para dizer o que estava entalado na garganta.
Só não apareceu quem entenda esses clamores e quem desonere o povo inteligentemente.
E sim, há um cenário de imensa desilusão da democracia como regime mediador do bem-estar social. A causa é vazio ideológico dos partidos. O resultado é que os portadores de ideologia se recusam a ser vistos e agir como partidos, em nome da pureza ideológica e metodológica. Essa desilusão leva ao autoritarismo das massas autodeterminadas a saciar desejos sem mediadores, por considerarem que estes só agem em nome de seus próprios interesses e não representam ninguém.
Costuma ser o cenário perfeito para uma porrada de coisas terríveis ao longo da história - Collor? 1964? Chávez? Hitler? Escolha o seu. Governos não devem se curvar às massas, e os partidos não deveriam ser só casas de câmbio. Como desistiram de ser reservatórios representativos de ideias e gentes, o povo percebeu que há algo de fundamentalmente errado no que chamamos democracia.
Todas essas passeatas são um alerta. A persistir tanta surdez, o próximo passo é o sequestro da democracia.