Um recente debate na imprensa questionou a qualidade da arte do Brasil: a provocação surgiu na “Carta Capital”, despertou artigos e entrevistas e todos saíram atrás dos Portinaris, Chicos e Machados atuais.
O antropólogo Hermano Vianna – que concebeu o “Esquenta”, de Regina Casé – defende que a produção cultural no Brasil nunca foi tão intensa, sobretudo nas favelas, que se entretêm com o que fazem; não há vácuo à espera da colonização da elite. O escritor Michel Laub, na “Folha”, também deu boa resposta: lembrou que a descentralização da produção cultural, causada pela internet, quebrou a lógica em que indústria (canais de TV, gravadoras, editoras) e crítica exerciam um aparente “controle de qualidade”, “ordenando” o que era válido ou não. E concluiu que os artistas “de verdade” sempre foram exceções dentro dum caldo de puro e descartável entretenimento.
Hermano não me surpreende, sendo ele antropólogo: formas rudimentares de cultura e folclore o atraem academicamente.
Já a resposta de Laub é quase indiscutível: o artista-de-verdade, essa pessoa interessada em expressar algo para além do afago no gosto popular, é sempre um milagre; não existe a “indústria de gênios”.
Mas não sou tão otimista a ponto de negar o forte rebaixamento do piso cultural que cria legados, causado por velhos carmas.
Saímos da indústria cultural absolutista e chegamos ao momento do público-deus a ser agradado sem criar ambiente suficiente para a qualidade que venha a surgir hoje. No país da educação que não forma leitores, do imenso abismo social e do raro fomento, o receptor médio tem muito mais dificuldade de se conectar com o autor “alto” e vice-versa.
O público primário e acrítico é obviamente mais numeroso que o exigente, na proporção direta da desigualdade; o diálogo tende a ocorrer só pela facilitação, um risco ao autor. A separação desses Brasis acentua também uma impressão habitual do grande público e da mídia-classe-média: a de que nossos cinema, teatro, literatura e música (esta em menor escala, porque o brasileiro dança cantando) são tão duvidosos quanto uma garrafa de uísque nacional.
E enquanto isso os importados não cessam de chegar fortes.
Onde há mais educação e menos desigualdade, o artista local não é hit instantâneo, mas tem espaço e atenção que o sustentam até que o público mais amplo o testa por sua persistência. Aqui, sem golpe de sorte ou mecenas, o talento decide agradar para viver ou, pior, desiste.