22.7.11

 A BELEZA QUE SÓ SE ENTENDE NA VOZ
 [Destak, 22 de julho]

A verdade é que a parte mais bonita do corpo da mulher é a voz. Não sei se dou atenção demasiada às circunstâncias musicais da vida, mas me parece extremamente difícil amar alguém cuja voz parece fora do tom em que se afina o coração. 

Não é questão de ser mais ou menos aguda, ou mais ou menos grave. Tanto o mais estridente flautim quanto o mais solene violoncelo têm sua música particular e podem ser extremamente agradáveis ou provocantes; depende de como se maneja, e a voz funciona igualmente. 

E não estou falando de cantoras. Falo daquela voz que ao telefone hipnotiza, que sabe nos acordar quando os olhos ainda estão fechados e que consegue derreter as geleiras da alma mesmo quando discorda de nós ou aponta nossos equívocos com severidade. 

Há uma extensão clara disso no nosso mundo cada vez mais verbal, que às vezes não é percebida: mesmo numa mensagem de texto por celular, ou numa conversa em chat, há uma voz que se ouve nos olhos de quem lê. 

Há quem diga que escrever bem é sexy, e nesse caso os critérios variam. Não vou dizer quais são os meus, mas tenho certeza de que isso tem a ver com a possibilidade de imaginar a pessoa dizendo isso, a expressão alheia que nos vem à mente quando a lemos. 

Ainda assim, escrever é um ato pensado. Há sempre um tempo que permite hesitar, reconsiderar ou mesmo elaborar a melhor resposta. A voz padece por ser um veículo da espontaneidade. É possível perguntar ao celular se "está tudo bem" apenas por sentir que a voz do outro lado está estranha e nos preocupa. A quilômetros de distância, ela ainda é capaz de denunciar o mais triste dos semblantes. 

E sempre há o tempero dos sotaques, que nada mais são do que essa melodia da fala que aprendemos quando queremos fazer parte de algum grupo de falantes. No Rio, ela se assemelha a uma ladeira que termina numa freada harmoniosa; em São Paulo, vem embalada em consoantes secas e uma nasalidade que cai de paraquedas; no Sul, ela repete uma frequência que aponta várias vezes para cima; e, no Nordeste, quem fala não tem nada a esconder.

3 comentários:

Carol / Cóga disse...

curti! acho q a voz, mais q os olhos, e a janela da alma

Gisa Gonsioroski disse...

Eu sou verborrágica até num e-mail. rs Espero que não desafine demais!
Adorei o texto! Vou roubar pedaços e postar por aí. Nunca mais falo "-Alô" sem checar a intonação!!!

Cecilia Cavalieri disse...

a voz feminina meio tom mais grave e delicadamente lapidada por uma lixa é puro amor <3