A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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12.9.02
Tão gentil, tão honesta no saudar... Tanto gentile e tanto onesta pare la donna mia quand'ella altrui saluta, ch 'ogne lingua deven tremando muta , e li occhi no l'ardiscon di guardare . Ella si va, sentendosi laudare, benignamente d'umiltà vestuta; e par che sia una cosa venuta da cielo in terra a miracol mostrare. Mostrasi sì piacente a chi la mira, che dà per li occhi una dolcezza al core, che 'ntender no la può chi no la prova; e par che de la sua labbra si mova un spirito soave pien d'amore, che va dicendo a l'anima: sospira. Dante Alighieri, em La Vita Nuova _______________________________ Tão gentil, tão honesta em seu saudar É minha dona, e tanto me parece, Que minha língua dobra, a alma emudece, E os olhos nem se arriscam num olhar. Assim louvada, segue a caminhar, Trajando a veste que a humildade tece; Como algo que dos Céus à Terra desce Vinda para milagres nos mostrar. Só contemplá-la enorme bem inspira, Pois dos seus olhos flui uma doçura Que só compreenderá quem talvez prove. E em seus lábios, parece que se move Um 'spírito de amor de tal brandura Que vai dizendo ao coração: suspira. 10.9.02
Paranóia No alto daquele prédio, Naquela calçada, Fitando da janela, Estão todos, todos Contra mim. Unidos sob um sólido ideal, repetem meu nome em sórdidas tramóias, Sou seu mais digno alvo, última coluna a derrubar. Na mesa daquele restaurante, Na escadarias do Municipal, Nas estações do metrô, Todo e qualquer instante é pouco para eles, eles todos, todos contra mim. Eles e seus malditos códigos, sinais, Criptografias, isso que atravessa a mente e mente e mente e mente, Esse calvário diariamente entre o que já não sei se é E o que é simplesmente. Eles me dizem em silêncio as coisas que não ouço E você no meu lugar talvez nem entendesse. É verdade é sério é de verdade e eu juro que é Acredito na minha intuição Tanto quanto em minha imaginação. Atrás de você, Ao nosso redor, Diante da sombra trêmula que vela por nós dois, Eles conspiram, eles querem sua ajuda, Eles e você, sim, São talvez vocês todos, juntos, Todos contra mim. Eles querem me matar porque eu os fiz viver e posso assassiná-los E você no meu lugar talvez sobrevivesse. Só que eu nem posso estar no seu lugar. (O horizonte se afasta lentamente de mim enquanto Um sopro gélido de vento pousa a mão sobre o meu ombro e some.) No elevador, No túmulo, No Céu, Eles, você e eu, Ele, enfim, Todos juntos, vamos, todos nós agora Contra mim. |