A Nobre Farsa |
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Poesia de hoje com cara de ontem. Emoção transformada em fingimento. Sua última chance de se fragilizar.
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Por Márvio dos Anjos
ICQ: 39132747
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22.2.02
A tempestade e eu As ruas feitas córregos e rios, As roupas ensopadas, os bueiros Entupidos. Escutam-se os primeiros Trovões, quedas de postes, assovios; Sob as nuvens de cinza e os céus sombrios Sirenes, ambulâncias e bombeiros, Os gritos aos que fogem, corredeiros, Rumores de tragédias, arrepios, O desabrigo enchente após enchente... (Tu tens pensado em mim ultimamente? Ando com tantos sóis no meu olhar...) ... até que o cinza some, fuzilado Por raios dum alívio esperançado, A bonança que exige retornar. 17.2.02
Diálise da Alma Minha alma pesa como um caixão de amores Cujas alças não quiseste carregar. São cefaléias, depressões e dores, esperanças malogradas, Desenganos que me foram trazidos pelo otimismo Dos que nunca souberam se entregar. Doente, sobre a maca de um corpo que não a deixa repousar. Ela pesa sobre mim, e lhe restam poucos movimentos. Sofre, como se lhe restassem poucos dias. Recusa o apetite do sexo, recusa mais um confortável travesseiro, e conformada, Não pretende perturbar-me exigindo-me cuidados. Como o melhor dos enfermeiros, Preparo a diálise das almas. Porque é preciso saneá-la das impurezas da dor, Dos resíduos de todo o desespero infligido: É preciso salvá-la de mim mesmo. E é assim que eu penso em ti, no que me fazes sentir Na imposição da tua ausência, quando consentes que eu te ame De todo o coração e toda a crença e todo o espírito e simplesmente partes, Como se tudo o que desejo fosse estranho Ao teu desejo. E eu deixo que invadam meus ouvidos Todas as músicas que amamos juntos. E eu vejo como é estranho Escutá-las sem os teus ouvidos do meu lado. E eu me sinto amputado, infeliz, frustrado. Queria não te desejar unicamente. Invejo aqueles perdidos, Os que não sabem o que querem da vida, e assim, Consideram quase todo o bem que aporta como lucro. Eu não sou assim. Tudo o que é diferente de ti é derrota em minha vida. As coisas que não têm origem em ti não reconheço Como um bem. Na verdade, são quase nada. E de nadas estou cheio. Os sorrisos, os olhares, os elogios, o aplauso, o dinheiro, O que significam se não são a ínfima parte do que quero? A minha maldição é saber exatamente o que desejo: a tua volta, Como se tu soubesses os motivos que me trouxeram a este mundo, Por onde devo andar, Onde devo dormir. Eu penso nestas coisas e choro. Não aquele choro que envergonha, Aquele que enrubesce a face e que exige esconderijo, aquele que é fraqueza. Choro porque há mais vida em mim quando recordo Que te amo desta forma. E à medida que o pranto escoa, Drenagem de excreções retidas, Eu me sinto mergulhado em bálsamos leves. Uma vertigem amistosa toma conta dos meus ânimos, a cabeça pende, De um lado a outro, circularmente e devagar, Um vácuo obscuro no pensar me permite ser inda mais leve E a gravidade me perde, rumo ao infinito dos desprovidos de razão. E eu posso ir longe nesse efêmero instante De sadia insanidade. O peso dos meus ombros se afasta de mim (talvez meus próprios ombros Façam o mesmo, como se me livrasse da carcaça que carrego), E assim, tornado alma e desgarrado das torturas, Eu posso amar-te em toda essência, ser mais inalcançável que o teu amor, E mais incompreensível que a recusa tua. As lágrimas no chão, minha alma no céu, meu corpo à deriva, Um amor que te espera; Espalho-me aos poucos em lugares e funções Que só têm razão de ser e final a celebrar Na tua volta. 14.2.02
Soneto das cinzas Manhã de quarta-feira, e o carnaval Termina, nessas cinzas de euforia, Num último suspiro de folia, Num beijo suado, num abraço e um tchau. São finadas a febre e a fantasia. O estandarte é esquecido a meio-pau, E ficam só cansaços do final, E nos resta dormir, que já é dia. Adeus a essa alegria fevereira, Que ninguém sente mais na quarta-feira Depois que silencia o último bumbo. E eu me encontro de novo com a rotina, Vestida de pierrô sem colombina, O eterno fim de festa ao qual sucumbo. |