23.12.10

CRÔNICA DE UM DISTANTE NATAL
(Publicada no 24.dez.2010, no Destak Rio, SP e DF)


O ano de 2001 havia sido particularmente ruim, e aquele Natal apenas confirmava isso. Perdas na família, no coração e no emprego pareciam incontornáveis. Mecanicamente, comi a ceia da minha tia-avó e fui levar a melancolia para passear. Beijei os parentes, saí sozinho pelo edifício e tomei a rua, tentando decidir se iria encarar alguma festa – amigos me chamavam para lá e para cá. 

O que lembro, dobrando a esquina da Gomes Carneiro com a Visconde de Pirajá, em Ipanema, é de ver seis mendigos, amontoados na calçada, comendo restos de ceias. Eram cinco homens e uma mulher – hoje chamaríamos de sem-teto, mas ali eram só mendigos animados. 

De repente, a mulher achou entre seus embrulhos uma velha câmera fotográfica, que parecia ser daquelas compridas, descartáveis. Empolgada, ordenou a todos que posassem diante da máquina. Que provavelmente não tinha filme. Nem pilha. E, mesmo que tivesse tudo, nada me garantiria que tal foto seria revelada – ou que tal situação mereceria ser revisitada.

Parei diante daquela cena, sem palavras. Notando que eu prestava atenção neles, um dos sem-teto acenou para mim no meio da pose e gritou um “Feliz Natal”. Respondi no susto, confesso. Com um tímido e nada convicente “Pra você também”.

Não sei onde fui parar depois, ou se fui para casa dormir. Não me lembro de mais nada.

*****

Sempre resisti à tentação de escrever sobre esse episódio. Eu o respeito muito; nunca achei que ele me pertencesse tanto a ponto de poder interpretá-lo em definitivo. Toda vez que o Natal chega, penso novamente sobre o que vi, ouvi e disse, e às vezes conto aos amigos, sem concluir muito. Gosto de deixar o ouvinte à vontade para interpretar esse meu auto pessoal como quiser, sob maior ou menor efeito dos simbolismos desses dezembros profundos.

Ouço cada conclusão que me apresentam e gosto de muitas, mas são sempre reduções; nenhuma imprime em papel o encantamento que me arrebatou. Hoje, sem medo, posso finalmente desistir de querer explicar o que vi, porque sei que falharei sempre. Nunca estarei preparado. 

Ali, não fui mais que uma câmera.


.

31.8.10

MACHISMO PARA INICIANTES


Fui acusado de machismo. É até engraçado; a denúncia soa anacrônica como soaria a você, leitora, se de repente alguém, em tom difamatório, apontasse o dedo para você e lhe dissesse: "Eu sei que você não é mais virgem!". É daqueles crimes que dão vontade de confessar na hora, simplesmente porque foram bem arquitetados, bem executados e não deixam nenhum rastro de culpa. A impunidade é terrível nessas horas: é como se não concedessem o reconhecimento devido.

A "condenação"  veio, é verdade, por uma besteira: algumas pessoas leram o meu último texto na Maria Filó e me consideraram "repetidor de preconceitos em relação à mulher". Apenas descrevi como um homem decodifica imagens que se cristalizaram no mundo da Playboy. E sinceramente, pouco me importa se Larissa Riquelme será uma mãe exemplar e uma avó dedicada, ou se essa na verdade é Cleo Pires, ou se tanto faz, ou se N.R.A. Eu falava do que elas me permitiram fantasiar naquele contexto de coelhinhas de celuloide a que elas voluntariamente se submeteram com cachê razoável; o resto vai por conta do humor de quem lê.

Ok, eu sou um tipo de machista, sim. Mas agora vamos definir os limites desse machismo civilizado, democrático e pluralista que eu advogo, antes que vocês me enquadrem num fantasma de décadas e séculos que não vivi, demonizado por bibliografias feministas das quais muitas de vocês nem passaram perto. O curioso é que creio que jamais conseguirei ser tão machista quanto uma mulher consegue ser.

Sou um conservador utópico, porque não se acredita no amor sem um quê de conservadorismo e outro de utopia; afinal, não se trata da ideia mais nova do mundo, nem da meta mais palpável. O amor pressupõe uma questão de pertinência (que se deriva do verbo "pertencer"). Mas pertencer a longo prazo está datado, diante da videolocadora humana que se instalou após as conquistas de liberdades sexuais para ambos os sexos.

(Se eu sou contra isso tudo? Não, afinal de contas, é necessário entretenimento de vez em quando. E um traço do conservadorismo utópico é, vez por outra, admitir que toda essa busca é utópica demais e partir às 2h da manhã para o pragmatismo lúdico, diante de alguém razoavelmente irresistível. E lembre-se: sempre são 2h da manhã em algum lugar do mundo. Você foi avisada.)

Sou também partidário de um machismo que é resposta ao feminismo, porque não somos culpados de tudo. O machismo que advogo entende que a mulher dirija, vote e tome a iniciativa da conquista, mas que se mantenham substancialmente diferentes. O objetivo-chave desse machismo descendente do cavalheirismo é lembrar às mulheres como é gostoso ser diferente de nós, no maior número possível de significados dessa diferença.

E nós trataremos vocês, sim, como seres mais frágeis, não porque vocês são menos capazes, mas para que vocês exerçam o sagrado direito de serem mais frágeis do que nós. Porque vocês têm, além das guerras que aprenderam conosco, uma outra que nós não temos, que exige mais força do que qualquer outra que jamais enfrentamos: a da conquista da beleza, como arma pelo amor, como definição da feminilidade, como estandarte do sonho que a menina em cada uma de vocês nunca abandona: o de encantar. Não adianta, vocês se formam, criam independência, emancipam-se, mas adoram ser lembradas de que são, também, um rostinho bonito.

E damos essa colher de chá pelo simples fato de que gostamos de nos encantar. Sim, não fazemos nada que não seja do interesse da classe. Lamento informar de novo, mas nem eu sou, nem meus bróderes são, o seu amigo gay.

10.3.10

NOVA EMPREITADA: O INFILTRADO

Agora, sou um dos blogueiros na grife feminina Maria Filó. O primeiro post se chama "Roubos e Furtos"
http://www.mariafilo.com.br/blog/?p=239

5.3.10

E ELA SE LEVANTOU PARA BUSCAR ÁGUA
(publicada no Destak)


Os lençóis ainda estavam quentes, e eu ainda não havia notado os fios de cabelo que também estavam deitados na cama conosco quando ela se levantou e foi até a cozinha para buscar água.


Num lance de sorte, virei o rosto e ainda pude ver suas costas nuas, suas pernas olímpicas e o ritmo binário de suas nádegas em marcha, como se buscar um copo d'água fosse uma missão humanitária entregue a alguém que preza o estrito cumprimento do dever.


Sim, ela caminhava até a cozinha como um soldado vitorioso, que deixava para trás de si um inimigo vencido. Como uma enfermeira que conhece as obrigações de seu uniforme branco e se apega a elas mais do que ao sentimento de empatia pelo sofrimento alheio.


Ela também pega água como uma gueixa.


Assim que ela sumiu no corredor, tombei a cabeça para o outro lado, onde a parede branca metaforizava a impossibilidade de outras belezas naquele mesmo quarto depois daquela epifania maior.


A televisão calada, o aparelho de som em silêncio, nenhum pássaro na janela, o resto do mundo respirava em raros ruídos, como as plateias de teatro que tossem para dentro no meio de uma cena crucial.


E sua ida me deu consciência de um vazio mais fundo que todas as privações físicas já sentidas. Nenhuma fome, nenhum calor ou frio na história da minha humanidade mereceram mais autoanálise do que a secura despertada pelo momento em que ela se levantou.


E o atrito da língua no palato movimentava um ar seco como Brasília. Eu tinha os olhos úmidos de um largo cansaço, e o suor dos lençóis se havia evaporado, soprando na pele a necessidade de recorrer à água que viria, como uma bênção, da geladeira dela.


Tentei imaginar de onde viria a água. Poderia ser uma mineral sem gás de 1,5 litro, como as que bebo do gargalo quando jogo bola. Ou uma das bojudas garrafas com tampa de plástico e abas retráteis que imitam as dos bules. Ou das de vidro verde elegante e opaco.


Decidi que vem da moringa de alumínio que a minha avó materna tinha, com o metal suado pelo frescor potável que prometia às gargantas mais áridas.


E, quando ela voltar, nua, trazendo aquele grande copo d'água nas suas mãos pequenas - nas quais ele ganhará a forma de um enorme balde transparente de vida -, o milagre efêmero da satisfação humana se recriará. Até que seja preciso outro gole dela.
AO CARNAVAL, UM MERECIDO EPÍLOGO
(publicada no Destak em 19.fev.2010)

Vestido como um dos 300 de Esparta, fui um dos muitos heróis do Carnaval mais quente dos últimos 50 anos no Rio. Com pés revestidos de esparadrapo e gaze para aguentar a sandália grega, caminhei por vários blocos, respeitei tradições e vi as novas serem criadas. Testemunhei a folia e posso decretar que, sim, a Belle Époque foi restaurada no Rio a partir de 2010.

Seduzi-me no Bloco das Trepadeiras, moças de finíssimo trato revestidas de galhos e folhas verdes, rebatizadas como Maria Sem-Vergonha, Comigo Ninguém Phode e Costela de Adão, entre outras. Vi Pedro Ladeira, candidato a candidato em 2010, homem que, de terno e gravata, ignorou a sensação térmica cinquentenária e distribuiu programa de governo que criminalizava o toco - ou seja, o fora - durante o Carnaval. Louco.

Vi escritores consagrados vestidos de empregada, ostentando bigodes freddie-mercuryanos, varrendo de si os fardos do dia a dia e criando personagens e cenários para o futuro melhor que a cidade merece deles.

Sei que Paulinho da Viola estava incógnito de árabe no formidável Sassaricando, na Glória, e mais não digo, porque Paulinho é assim, de imensa elegância e discrição.

Circulei no Boitatá, segui o Boi-Tolo e me impressionei com a fartura de carnes e carniças no baile de máscaras a céu aberto. Estar sem fantasia na Praça 15 e na 1º de Março era inafiançável até para os mais paulistas. Ali, gritava-se a plenos pulmões, parodiando Obina, que "O Rio é melhor que Salvador" - rivalidade que se instala por vias dúbias, como reação ao Choque de Ordem nos blocos (que, diga-se, foi saudável).

Subi o Volta, Alice! e desci a tempo de ver o Epa Rei atravessar ruas de pedestres no Centro, do Real Gabinete Português ao Consulado da Suécia, sem precisar comunicar à prefeitura. Aplaudi a ideia de usarmos o anfiteatro do Buraco do Lume e escalarmos depois os degraus da Alerj, triunfantes e espontâneos. Lá, soube por alto que Arruda ainda se vestia de Irmão Metralha numa jaula do DF.

Do sambódromo - juro! -, só soube na apuração, porque sou um Paulo Barros de mim mesmo.

Vi o Bagunça o Meu Coreto, o Último Gole e honrei os blocos de praça, em que crianças e adultos não precisam ser separados. Naqueles espaços, virei menino.

Vi a Orquestra Voadora varrer o parque do Flamengo sob sol inclemente e escassez de líquidos. Lembrou o sofrido Círio de Nazaré, mas soube que posteriormente veio a Era de Aquário sob as árvores de Burle Marx.

E com memórias que guardarei na retina, desarmei meu espartano torto (um rei Leônidas da Silva?) e fui trabalhar na quarta, depois do Me Beija que Sou Cineasta, certo de que jamais haverá Carnaval como este.

22.1.10

QUANDO O MERCADO SEXUAL INCOMODA?

"Combatidos", prédios do Rio com atividades ligadas ao sexo apenas pagam o preço de suas visibilidades

Depois que tapumes decorativos esconderam a boate Help até que ela se torne o novo Museu da Imagem e do Som em parceria com a Fundação Roberto Marinho (leia-se Organizações Globo), o Estado do Rio já tem novo projeto cultural para barrar safadezas na ex-cidade mais sexual do Brasil, a outrora Rio Babilônia. Para criar a Sala Pixinguinha, deverá expropriar o Cine Íris – processo que, a julgar pelo da Help, deve levar um ano.

Trata-se do cinema mais antigo da cidade, que hoje exibe filmes pornôs prestigiados por trabalhadores do Centro e, de vez em quando, sedia festas alternativas.

Tanto a Help quanto o Íris acostumaram-se a ser pilares tradicionais do comportamento sexual da cidade. Nada no Centro é tão decadente e glamouroso a um só tempo como o centenário Íris e seus cartazes honestíssimos que levam office-boys e executivos a uma "aliviada". Ninguém entra lá só pela arquitetura art-nouveau.

Já a Help, na avenida Atlântica, em Copacabana, era o mais famoso ponto de turismo sexual do país, com a diferença de que era tudo, menos um ponto criminalizável. A boate atraía turistas de muitos países porque as prostitutas (nitidamente maiores de idade) iam para lá dançar (e obviamente fisgar clientes), mas a saliência era feita nas suas aforas. Os seguranças eram inclementes com amassos incisivos. E elas pagavam para entrar, como qualquer pessoa. Ou seja, o turismo sexual que é tolerado em qualquer lugar do mundo, e não o mercado pedófilo.

Transformar esses prédios hedonistas em áreas de interesse cultural é emblemático. Mas do quê?

Adoraria que o debate fosse "o governo Cabral se empenha em uma cruzada moralista em nome dos bons costumes"; no mínimo haveria a chance de intervenções em estabelecimentos famosos que exploram a prostituição usando alvarás disfarçados – o que perfaz dois crimes. Seria curioso ver o secretário de Segurança e os chefes das polícias numa empreitada digna de Os Intocáveis. Mas não é exatamente essa a estratégia.

Cine Íris e Help pagam o preço de suas visibilidades; o cinema, pelo caráter de patrimônio tombado pelo Estado; a boate, por sua preciosa localização litorânea. Ambos podem ser renomeados com ajuda de fundações parceiras, que se interessam pouco por outras regiões da cidade e sempre terão prioridade na hora de usar emprestado as instalações "recuperadas".

Vamos ver que fundação vai cuidar do Cine Íris.

15.1.10

Minha coluna de hoje no DESTAK.

FICÇÃO SUBTERRÂNEA Nº 2 - O ZAPPING

Detestamos ficar em silêncio, ainda mais com gente próxima, como no metrô. O problema é o que ouvir




Entro no metrô. Lotado. O ar-condicionado não funciona bem, e as pessoas começam a falar mais alto. Talvez as altas temperaturas realmente sejam as responsáveis por nosso comportamento mais ruidoso. Alguém deve ter teorizado sobre isso. Não sei quem.

Assim, é possível participar de conversas, mesmo para quem não tenha interlocutores. Viro o rosto para a direita. Uma senhora se abana, sentada nos assentos para idosos. Comenta sobre o calor. "Isso aqui tá um forno, meu Deus, nunca vi isso, Jesus Cristo." É um hit a conversa sobre o clima, ainda mais no verão. Acho que é talvez o principal traço da espontaneidade latina. Detestamos ficar em silêncio, queremos proximidade, queremos concordar sinfonicamente uns com os outros, principalmente com os que não conhecemos. E aí, desanda-se a falar daquilo que merece um desabafo. É uma conversa cansativa, então zapeio.

Meus ouvidos agora apontam dois rapazes em camisas ensopadas de suor. Tentaram conversar sobre futebol, mas as contratações de verão, pelo que pude perceber, não os animaram. Até que um resolve se arriscar num terreno que não parece dominar.

"E aquela parada que deu no Haiti, hein? Sinistro, tudo acabou lá naquele lado." Seu colega, que se pendurava na barra do teto do vagão, olhando para o chão, solta um palavrão de desabafo. Mas, como se sente impelido a falar alguma coisa sobre o sofrimento de milhares...

"É fogo. Deus não alivia a África mesmo..." Desisto de acompanhar a conversa até que os rapazes situem melhor o Haiti dentro de suas prioridades e geografias. A composição, que estava parada, fecha as portas no exato momento em que uma moça belíssima aterrissava das escadas com pressa - e aqui eu concedo, leitor e leitora, que vocês descrevam mentalmente como seria essa pessoa belíssima. Cansada e frustrada, ela se curva e vira a cabeça, bem na minha frente.

Abro os braços como quem lamenta, não só por ela, mas também pelo nosso vagão, que iria ficar mais agradável - afinal, há mulheres que são como brisas. Ela me sorri, sem jeito, e vira a cabeça. Na camiseta, lê-se, em inglês, a frase "O amor é um milagre", entre grafismos coloridos num fundo branco.

Foi a melhor conversa da viagem. No resto, entre calores, terremotos e empurrões, contribuí com o silêncio e desliguei os ouvidos. Nada mais era comigo.

6.1.10

Setlist de A PAIXÃO SEGUNDO CABARET

Prólogo
1.
A Paixão segundo Cabaret - o jovem Dontlov, após seguidas desilusões, jura se negar ao amor.

Ária

2. O Amor de Ninguém - Uma canção que apresenta o personagem já com cerca de 40 anos, e descreve o salto dele no tempo, seduzindo e deixando-se seduzir sem se apegar, com resignação sobre sua falta de talento para o compromisso. Até que surge uma mulher da qual ele não poderá escapar.

AS 10 ETAPAS DA PAIXÃO TRÁGICA
3. Animal, ou a Atração
4. Um Dia no Paraíso, ou a Obsessão
5. Bela e Vulgar, ou a Concessão
6. Crianças, ou a Transcendência
7. Eu Não Quero Mais Ouvir, ou a Decepção
8. Não É Mulher pra Você, ou o Arrependimento
9. Dentro de Você, ou o Rancor (com participação de Ney Matogrosso)
10. Glória, ou a Desistência
11. Já é Tarde, ou a Depuração
12. Nada Vai Ser Amor, ou a Terceirização

Epílogo
13. A Persistência da Memória


Essas são as pretensões. Fiquem à vontade para esquecê-las.

18.9.09

Inesquecibilidade

Ela veio da memória, desde o primeiro dia;
Não como se de tempos não a visse,
Nem como se a houvesse inventado,
Mas como quem vem do seu país de origem,
De maneira que, naquela mesma hora,
Eu pude me lembrar (em traços vivos
De sentimentos familiares e sentidos)
Da dificuldade que teria
De esquecê-la.

26.11.06

As letras de "Cabaret"

Como no post anterior a esta série eu tinha falado que estava me dedicando às letras da minha banda, o CABARET, nada mais lógico do que postá-las aqui, na ordem em que elas se apresentam no álbum.

Pensei em fazer uma edição comentada de cada uma das 12 letras, mas mudei de idéia. O que posso falar delas é que capto todo um conceito perpassando cada uma delas. O estrelato, tanto no palco quanto o protagonismo da própria vida. Gente desejando (e fazendo tudo por) atenção e recebendo desamor.

O palco não pode ser pouco é o caminho do exagero em busca da atenção de quem quer que seja. Quando queremos alguém, de certa forma, estamos atuando: decoramos falas, impostamos a voz, fazemos cenas. Nada garante o sucesso, mas mergulhar no personagem pode arrebatar a "platéia", o alvo da paixão. Acredito nisso, em fazer tudo o que estiver ao alcance -no mínimo, a culpa de um insucesso passa a ser do outro.

Com vocês, as letras de "Cabaret", álbum de estréia do Cabaret
Beijos,
Márvio/Marvel
www.radiocabaret.com.br
1. O palco não pode ser pouco
(Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)

I
Desse jeito tão normal
Esse show não vale R$ 1
Desce logo, pega mal
Ficar alugando o pessoal

O palco não pode ser pouco não pode ser palco não pode ser pouco
O pouco não pode ser palco não pode ser pouco não pode ser palco


II

Seu produto industrial
Sua aposta audiovisual
Sua pose sensual
Não emplaca nem comercial

Meio metro acima do bem e do mal
2. Messias pessoal
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Chorava sozinha, queria se matar
Trazia uma dor e pedia amor para aliviar
No primeiro que viu ela se jogou
E disse: "Eu te esperei, agora me salvei,
Estranhamente minha vida mudou"

Pode ser que nada disso
Nunca justifique o mal
De fazer do amor um vício
Por milagre na horizontal
E se você fizer de mim
O seu messias pessoal
Vá por sua conta e risco
Não peça perdão nem me julgue no final


II
Mas, numa manhã, algo aconteceu:
Sozinha ela acordou
Sem ninguém pra chamar de seu
Ele vestiu a roupa sem dizer adeus
E então desapareceu, o telefone não deu
Nem rezando ele te atendeu
3. Dama da noite
(João Paulo Cuenca - Marvel - Myself Deluxe, Setembro Edições 2006)

I
Ela está ali, debruçada sobre o bar
Preocupada em manter a pose e esperar
Um drink a mais, um drink a mais
Um drink não é mais do que a noite,
Do que noite toda vai lhe dar

II
Hey, hey, onde está o sucesso que ela fez,
Hey, por que será
Que ninguém liga a mais de um mês
E nada mais, e nada mais, nada mais
A dama da noite hoje não,
Hoje já não é nada de mais

Dentro da fumaça, não se vê néon
Ninguém mais enxerga o brilho
Do seu batom
4. Brilhar
(Marvel - Myself Deluxe - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)

I
Preciso juntar certezas
As luzes estão acesas
Agora eu não posso mais errar

Meu corpo incandescente
Cristal de calor constante
A escuridão não pesa em meu olhar

Vou partir, competir com a luz solar
Devastar o planeta em silêncio
Sem te acordar


II
Um vôo inatingível
O sangue por combustível
Eu já estou mais leve que o ar

As cores estão mais densas
Irradiações suspensas
Numa calamidade nuclear

Vou partir, competir com a luz solar
Devastar o planeta em silêncio
Sem te acordar
E no céu, num minuto desintegrar
Sem deixar nem sinal de que um dia
Consegui brilhar


Toda luz vai brilhar, cintilar e morrer
5. Rockstar Baby
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Meio sem querer, quase sem pensar
Decidiu sair sem falar com ninguém

Ela só levou roupas e CDs
Ninguém entendeu
Até que alguém lembrou
O nome da banda que ela tatuou

Se apaixonou
Por um rockstar baby, you know
Por um rockstar ela deixou
Para trás a vida que foi
Por um rockstar baby, you know
Baby, you know
Por um rockstar ela deixou
Para trás a vida que foi
Por um rockstar...

II
Sempre em camarins, ônibus de tour
Portas de hotel, dormindo pelo chão

Não parece mais ex-segundo grau
Seu sorriso tem uma ironia a mais
De quem tem nas mãos tudo o que já sonhou

O nome da banda que ela tatuou...
6. Não desista de mim
(Marvel, Setembro Edições 2006)

Existe um nome que eu sempre grito
Quando estou perto demais de ficar pior
Existe sempre uma chance que eu peço
Mas que você talvez não possa me dar
Existe sempre um colo onde eu quero chorar
A minha dor manchada de vermelho
Existe sempre no mesmo espelho
Um idiota me esperando passar

Mas não, mesmo assim não desista de mim
Não, não desista de mim

25.11.06

7. O amor e a guerra
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Faço isso bem
Não tenho por que negar
Se te desejar não me faz nenhum mal
Num certo sorriso,
O meu corpo confessa essa má intenção
Só pra te cantar
E até quando sai do tom, a música fica melhor

E não tem porém que possa negociar
O amor e a guerra que eu vou declarar
Num certo sorriso,
O meu rosto traduz toda essa má-fé
Que só te quer bem
É como se fosse um dom que não pode morrer em vão

Não vai dar pra te abandonar nem te adiar
Se ontem o amor tinha o que dizer
Entrar sem bater, fazer sem doer,
É algo a se aprender
Mas já existe uma sombra no meu lar
Que deixou a marca no edredom
Sem sequer deitar, sem nem abusar...
...e morre de medo de tentar


II

Faço isso bem, não tenho por que negar
Se te desejar não me faz nenhum mal
8. Copacabana full-time
(Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)


I
Quatro horas da manhã
Nem sinal, a noite não pode parar
Os carros que vêm na minha contramão
Dão cinco tiros sem direção

Uma hora, R$ 100
Tão mulher que eu nem pude acreditar
No Leme, no Lido, no Arpoador
Copacabana sabe até falar de amor

II
Vem depois esse silêncio
Como o som de um paraíso infernal
No gozo que vem com um grito de dor
Copacabana sabe até falar de amor
9. Se você confiar
(Marvel - Carlos Gustavo Barros, Setembro Edições 2006)

I
Por que não?!
Ah, deixa disso, baby!
A gente não vai fazer absolutamente
Nada que você não queira

Ah, eles sempre falam...
E você liga pra isso?!
Você gosta assim...?
Você gosta assim?!

Eu posso te dar todo o meu amor
Se você confiar, confiar em mim

II
Tá mais calma?
Arrá, eu não disse?!
Todo mundo faz isso, baby,
Inclusive seus pais

Não vai mudar nada, juro
Eu te deixo em casa depois
Você acaba em mim
Você acaba em mim
10. Lingerie
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
O que eu não quis repetir aconteceu
De novo eu estava ali
Num quarto escuro, seu olhar, sem ter pudor,
Tirava minha lingerie

Faz tempo que eu prometi que nunca mais
Você ia me ver aqui
Mas, como um vício, o inferno volta
E eu não tenho mais como fugir

As suas falas são todas iguais
Comoum filme antigo, um déjà vu fatal
E eu sempre morro no final

Amor, devagar e pouco a pouco
Eu vou me vingar
Amor, devagar e pouco a pouco
Você vai pagar

II
Cada beijo agride e a noite me faz mal
Me faz ter náusea de você
Mas como um vício o inferno volta
E eu não tenho mais o que fazer

Me deixa ir, me deixa escapar
Abre essa prisão, aqui não é meu lar
Aqui inda vou te matar

Não tenho mais nada a dividir
Não tenho mais como implorar
Se for pedir muito a solidão
Se você não vai querer perdão

Não dê as costas para mim...
Não dê as costas para mim!
11. Um cadáver no palco
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Ninguem escutou, ninguém lhe deu atenção
Até que caiu o microfone em suas mãos

O baque seco de um corpo que ao chão tombou
Fazendo a platéia inteira gritar: "Roquenrou!!"

Sangue no ato, crime barato
Deixe o cadáver no palco
O show só termina quando ele levantar

II
Era um sacrifício, era autoflagelação,
Era um homem condenado à consagração
Finalmente a fama veio a banda não parou
Finamente a multidão estava vendo um show

O show só termina quando ele...

Palmas e vaias, vocês são todos animais (x3)
Palmas e vaias, vocês nos meus funerais

Sangue no ato, crime barato
Deixe o cadáver no palco
O show só termina quando ele levantar
O show só termina depois do bis que ele tocar
O show só termina...

Deixe o cadáver nu
12. Tudo o que aprendi
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I

Não adianta amar de qualquer jeito
Eu não quero, não aceito esmola
De mais ninguém.

E vou dar um tempo nessa de insistir
Que você ainda vale a pena, a cena

Vou brindar à minha solidão
Procurar meu chão
Me retocar e mostrar tudo o que aprendi.

II
Um pouco de vinho, à meia-luz de um quarto,
Um retrato vela o ritual
Que vai além

Não é qualquer roupa não que hoje me cai bem
Tem que ser algo especial, cruel,
Tudo o que os outros achem quase desleal
Atração fatal
Vou dar as cartas, vou me vender bem caro
Sem perdoar e mostrar tudo o que aprendi

III
Eu quero pra mim, num gole de champanhe,
Um amor que me sirva a taça
De mais prazer

Um beijo cuspido, um doce meio amargo,
Um afago pra deixar de lado, pensando:

"Se você não vem, vou beber a minha solidão,
Procurar meu chão
Juntar os cacos, deixar para amanhã
E negar cada palavra que eu me prometi...

...ah, se eu pudesse te dar tudo o que eu aprendi".

3.6.06

Faz algum tempo...

...que não consigo blogar conforme me propus, devido ao ritmo de trabalho no jornal e ao empenho que tenho dedicado à minha banda, o Cabaret. No meu caso, poesia demanda tempo, demanda combustão e, acima de tudo, fragilização, que por sua vez, exige tempo para recuperação.

Não creio que tenha perdido a inspiração, ou a mão, para versos. Acredito apenas que ando canalizando esforços para o que considero mais urgente: a música, a letra de rock. Não considero as letras que faço poemas _talvez pelo fato de sentir que elas precisam da música para ficar de pé_, mas vejo nelas, sem dúvida, um exercício de metrificação semelhante ao que me ajudou a fazer poemas rígidos no ritmo.

Sem tempo para a poesia, vou fazer deste espaço um lugar para considerações. Se os poemas vierem, serão bem-vindos, mas não me obrigo mais a eles. A cabeça mudou muito desde o momento em que criei esse blog. Os blogs morreram, viraram flogs, que viraram podcasts... talvez seja a hora desde blog morrer para virar outra coisa.

A partir de agora, será assim. Abraços.

6.3.05

Mais dois poemas infantis que saíram na Folha de S. Paulo.
Prometo pôr em breve coisas mais maduras. Abraços.




O dia em que ninguém acordou


Estranhou ao perceber
Que a manhã chegara
sem ninguém despertar.

A cidade era um vazio.
Nas ruas, nenhum carro,
nas praças, nenhum pombo;
ninguém quis nada
com aquela terça-feira.

Passando pelas casas
ouviu roncos, assovios
e bocejos, repetindo
um mesmo sonho
ainda no começo.
Era um mundo inteiro
a babar no travesseiro.

Achou aquilo errado
e decidiu que não podia
voltar pra sua cama.
Foi berrar pelos bairros
contra o sono e a mesmice,
pois daquela chatice
não precisa não senhor.

E quando todos cochilavam,
ele virou despertador
pra no mínimo contar
que sonhava diferente.

Publicado na Folhinha de 5/3/2005




Medo do escuro
para Luca

Tinha medo do escuro
e, sempre ao fim da tarde,
apostava corrida
com a noite.

Atravessava a sala
naquele vôo às pressas
e aterrissava a salvo
nas cobertas.

Não queria ver Lua
nem contar as estrelas:
"Se elas só vêm no escuro,
pra que vê-las?!"

Até que se deu conta
De que bem mais escura
Era a noite guardada
Nas cobertas.

Içou a persiana,
e, olhando o céu aberto,
passou pela janela
uma certeza.

Quando perdeu o medo,
viu beleza.

Publicado na Folhinha de 27/11/2004

10.10.04

Nobre Farsa na Folha de S.Paulo

O suplemento Folhinha publicou este poema infantil inédito da Nobre Farsa no sábado, 9 de outubro. Era para ter avisado a vocês antes, mas o post não vingou aqui no Blogger.

Divido mais essa conquista com vocês. Abraços,
Márvio dos Anjos



Concerto para um marciano


Um dia, um marciano
(que estava em férias na Terra)
quis saber de nós humanos
qual foi o maior avanço
que tivemos no planeta.

Pela estranha maquininha
que lhe traduzia a fala,
conversou com cientistas
que explicaram muita coisa.

Só que nada convencia
o homem verde da nave:
"Sei disso tudo e sei mais",
disse pela maquininha.

Até que alguém teve a idéia
de tocar num velho disco
uma canção sem palavras,
e o ET quis entender
o que era a tal da Música.

Mal um disco terminava,
outro disco vinha atrás,
com flauta, piano, sax,
e essas gentilezas doces
que só o violino faz.

O marciano entendeu,
agradeceu, foi embora.
Jogou a máquina fora
(que não precisava mais).

Mas quem foi lhe dar tchauzinho
pôde ouvi-lo resmungar:
"Que inveja dessa gente!
Eles dizem tanta coisa
sem nem precisar falar..."

(em 28/09/2004)

1.10.04

Breve história do Tempo
A João Paulo Cuenca


Órbita emoldurando o caos, assim
Era o Tempo no princípio.

Caminho que a si mesmo percorria,
Corcel arisco a lacerar os céus
Sem piso algum, tocando a própria sombra,
Capaz de ir até quando voltava,
Como o senhor de um só e contínuo Instante.

Deus viu nele a matéria e lhe extraiu
A costela da qual esculpiu o Homem,
Fazendo-os pelo Instante combater:
Um, arrogante e novo, o quer eterno,
Mas o outro, rei deposto, o quer de volta.

Não haverá vitória, diz a regra
Da disputa.
A humanidade é a erosão do Tempo,
A consumir tudo que mais lhe falta.

28.9.04

Antologias publicam poemas da NOBRE FARSA

Fico muito feliz em comunicar que alguns poemas da Nobre Farsa viraram papel neste ano, nas antologias "Ponte de Versos - Uma Antologia Carioca", da Editora Ibis Libris, e no 18º número da revista-livro "Poesia Sempre", editada pela Biblioteca Nacional.
Ambas podem ser encontradas ou requisitadas nas melhores livrarias.

Agradeço aos amigos leitores, que sempre deram força, e a Deus, pelo mesmo motivo.



11.9.04

Carne

Não pretendo a dimensão do espírito,
Não me pertencem mente nem mentira.
Aceito-me carne, e meu corpo dá limites
À imensidão do Universo.

Na larga estrada do caminho eterno,
Sou a placa que avisa o quilômetro
Em que tomei do Tempo o tempo que era meu
(Por isso usamos lápides).

Sou táctil, espesso e licoroso,
Como o amor realizado.

Sou carne e, de tudo que sou, descendo.

9.1.04

Completude

A música vigora do contrato
Entre o homem e o Silêncio.
Mais do que som ausente,
As pausas são empréstimos
Daquilo que se ouvia
No prelúdio do Gênesis,
Nos ensaios da Criação
De um universo em estéreo.

Da musical quietude se coleta
Que também o homem se compõe
Do que tem e do que perde.

Cada tijolo não cimentado
É parte constante da obra.
Cada rumo preterido
Está no mapa de um percurso.

Nada, enfim, mais incompleto
Do que um homem sem perdas.

15.10.03

Soneto do Imbecil


Ao que me mira com desprezo morno,
Devolvo uma elegante baixa-estima;
Permito-lhe que me olhe desde cima
E cá embaixo, não dou ódio em retorno.

Não me interesso em arrumar esgrima
Com quem enxerga em mim tolo contorno.
Que julgue-me imprestável, débil, corno,
Tudo que fere o brio e desanima,

Pois não vou convencê-lo do contrário.
Deixo meu imbecil pra que o alcance,
Enquanto meu fulgor segue crescente,

Sem dar mais faces, que eu não sou otário
Pra conceder a todos sempre a chance
De conhecer quem sou inteiramente.

7.10.03

A Calma Tensa de uma Espera
Para Solanje, que me explicou este poema, cinco anos depois
Corações se partem no caos
Da calma tensa de uma espera.
Nunca mais precisaremos tanto
Um do outro quanto agora.

Que ao distrair não te afeiçoes,
A fim de desgastar segundos
Nem te agrades dos minutos
Já passados desse aguardo.

Que se perca o teu relógio
E não assistas mais ao tempo
No seu passo rumo ao sempre,

Pois devagar e vagabundo,
Cada adeus se faz perene,
E enquanto esperas, tarda o mundo.

12.9.03

PEDRO FRANÇA

Certa vez desenvolvi um heterônimo, um bon-vivant que, diante do bom dinheiro herdado dos pais, se especializou em não fazer nada de sua vida. Do alto de sua inércia, o que lhe garante ausência de erros cometidos fora as omissões, ele observa os absurdos à sua volta e, talvez por isso, se pergunte se ainda valeria a pena fazer alguma coisa.

Escreveu três poemas, num período de 38 anos de vida. E cessou, porque não lhe parecia bem começar uma extensa obra. Com vocês, Pedro França.

Poema de Ano-Novo

O ano novo está lá fora. Aqui, tudo é velho,
E frio, e fútil, e calmo, e desesperançoso.
Não há motivos pra vestir-me branco.
Não tenho essa pureza,
Não quero tanta sorte,
Nem sei se sou capaz de ser ingênuo a ponto de crer nessas tolices,
Embora fosse cômodo querê-las


Não quero esse ano-novo. Não quero.
Porque desperdicei tantos dias, porque joguei fora tantas horas
E não acho justo que eu possa ganhar outras,
Como uma criança que quebra todos os brinquedos que ganha.


Não quero esse ano-novo. Não quero.
Sei que ele me trará mais perdas do que ganhos,
Sei que a juventude vai se tornar um retrato em minha estante,
E eu que fui moço e fúria e brilho
Me aproximo a passos largos da realidade de ser um nada
Que se revigora a cada um dos anos-novos.


Eles estão lá fora, com seus champagnes, suas cidras, seus despachos praieiros,
Suas resoluções e sua desfaçatez.
Escolhem esse dia para serem puros, terem sonhos e sorrir.
Precisam de mais um ano para nos outros dias
Poderem se emputecer em paz; o ano-novo é viciante.
Por conta de uma convenção temporal, convenciona-se que seremos felizes.
Que podemos ter sonhos, e crenças e abraços agendados.


Não, eu não quero esse ano-novo. Quero alguns anos de novo.
Quero refazer, reviver minhas vitórias,
Curtir os melhores momentos, ver a minha reprise na Sessão da Tarde e,
Se puder,
Ajudar o garoto que fui a tomar aquelas decisões que me ferraram tantos anos.
E que me reforçam a crença de que não, eu não preciso do ano-novo.
Quero viver sem anos pra contar, quero viver cem anos e perder a conta.
E não ver tudo passar.


Não. Dessa vez, eu não vou com vocês para o ano-novo.
Vou ficar mesmo neste aqui.

Quase Ode

Moro em Ipanema, quase à beira-mar.
Nem tão quase, porque, da minha casa,
Inda devo percorrer cinco andares, dar bom-dia ao meu porteiro
E atravessar os dois quarteirões que me separam
Do risco de ser atropelado na Vieira Souto
Por uma van cujo trajeto inclui obstruir a passagem dos carros,
Irritando os motoristas,
Exatamente como fazem os ônibus,
Que normalmente irritam também seus passageiros.


Se eu não for vítima da irritação alheia,
Quase chego à praia. Sim, quase,
Porque não gosto de praia. Prefiro caminhar no calçadão,
Que tem menos bundas à mostra que a areia,
Mas pelo menos faz a gente dar menos atenção
Às informações diárias sobre coliformes
Que a imprensa amigavelmente nos recorda.


Caminhando até o Leblon, quase emagreço.
Quase, porque, no caminho, há sempre tempo
De lembrar da vontade incessante de comer que eu trago
Como se fosse um etíope e sua fome.
Paro, como um sanduíche e me arrependo. Porque eu quase ia bem,
Mas eu já me acostumei a parar pelo caminho em meus projetos.
Que não foram poucos, nem eram tão difíceis,
Mas foram igualmente abandonados num segundo,
Como essa dieta imbecil.


“Tudo bem, sou um quase magro”, chego à conclusão.
E quase magros podem se dar ao direito de quase ir à praia,
Ficar no calçadão vendo as quase bundas
Enquanto quase se contaminam na imundície da praia, logo após
Quase terem morrido ao atravessar algumas ruas.


Alguém quase me olhou no meu passeio?
Não sei. Nesta vida que parece hesitar em ser vivida,
E nada chega a ser alguma coisa, deve ser natural
Que passem por mim e quase se apaixonem,
Ou pior, que quase não me vejam.


Volto pra casa, antes de me sentir quase cansado.
E quase vivo, quase morto,
Vou ligar a TV e me enganar um pouco mais,
Telefonar para um amigo e deixar que ele me diga:
“Calma, Pedro, não se mate.
Está quase tudo certo.”

Diante da Insânia

Ninguém espera de mim um ato de vandalismo.
Rebeldia zero. Estou terminantemente sob controle,
Acreditam eles. Em paz com meus dias,
Eles pensam. Sou a válvula de escape que eles têm
Pros absurdos de seus mundos.
Comigo podem ser loucos, pois confiam em meu equilíbrio.
E não me reconhecem sendo desarrazoado.


Quem um dia me viu nos meus arroubos?
Quem foi capaz me ver, tomado de fúria,
Pleno de razões doentias, com motivos
Para conquistar Roma sozinho, e derrotar quem sabe o próprio Satanás?
Não, eles nunca me viram no fogo da minha insanidade.
Eles não sabem que minhas mãos são tão capazes de atos monstruosos
Quanto as mãos deles mesmos.
Que sou capaz de arquitetar com precisão e executar com frieza
Toda a psicopatia da raça humana.


Eu também vim do lodo, do barro, do carbono, do amoníaco.
A mim também me coube o direito à alguma insânia.
Posso explodir, posso fugir, posso irresponsabilizar-me
De cada uma das minhas atitudes.


Ontem cortei a mão. Não me lembro como.
Não senti a dor que me fez sangrar o punho...
A cicatriz? Está ali, e eu a vejo, enquanto digito nervosamente
Cada tecla com a mão direita.
O efeito está ali, aparentemente sem causa,
Como tantos males, como tantos acasos,
Todos os acasos e coincidências capazes de convencer cada ser humano
De que o Destino brinca de lançar-nos infortúnios.
Eu não creio nos destinos, e talvez não creia na ferida. Posso crer na cicatriz
Porque ela está ali. E crendo nela,
Posso crer em tantas outras coisas que faço
Sem mínimos porquês, ou sem ter que recordá-los.


As coincidências precisam de motivos? Precisamos compreender tudo?
Precisamos ser assim tão científicos, ou místicos?
Eu posso aceitar o acaso, e tantas outras coisas que acontecem
Sem o menor sentido,
Como todas as formigas que simplesmente aceitaram quando as pisei
Na minha infância, ou como todas as baratas
Que morreram debaixo dos meus sapatos.


Não houve vontade planejada, não houve propósito. Houve a ação,
Assim como há a minha cicatriz, que surgiu espontânea,
E assim como acontecerão todas as outras instintividades dessa vida.
Não posso crer que tudo tem sentido. Senão me mato.
E eu sou equilibrado a ponto de manter-me equilibrado,
Escravo do meu bom senso,
Para que eles possam ser absurdos, desmedidos,
Desregrados, obtusos, estúpidos ou simplesmente
Indiferentes.


Eles precisam de mim para verem seus absurdos.
Para entenderem sua estupidez como algo errado,
Ou quem sabe aperfeiçoá-la,
Se estiverem mais certos
Do que eu.


Talvez haja um motivo no absurdo. Talvez haja propósito.
Talvez eu precise ser absurdo algum dia.
Não há os que se jogam das janelas? Os que matam por tão pouco?
Os que berram em casa diariamente com seus filhos?
Os que jogam lixo na casa dos vizinhos?
Os que se negam a dizer bom dia?
Os que refutam qualquer “obrigado”?
E aqueles pobres diabos que jamais acreditam
Quando uma boa alma lhes diz “eu-te-amo”?


Tanta gente absurda no mundo, e eu equilibrado...
O que estou fazendo? Estou sendo humano,
Em todas as possibilidades da minha humanidade?
E o que é o humano senão um animal feroz?
Estou sendo equilibrado por quê? E eu preciso desse porquê?
Talvez desse eu precise.
Eu tenho que acreditar nesse porquê, pois quem garante
Que eu possa um dia desequilibrar-me?
Se eu precisar ser absurdo, saberei sê-lo?
Ou estarei anestesiado nessa paz artificial que me dei
Sem ter motivos nem porquês?


Eu tenho alguma insanidade, eu posso estar entre vocês,
Eu sei disso.
Irmão, irmã, pai, mãe, minha hereditariedade de absurdos
Ainda vai honrá-los e deixá-los absurdamente
Orgulhosos. Porque eu desisto dessa paz.


Cansei do absurdo de ser tão equilibrado
No meio desses ocasionalmente loucos
Vivendo dias que não têm porquês.

3.7.03

Divertimento

Quando vou na direção
De tudo que amo na vida,
Meu movimento é de mergulho.

Se há paixão na busca, é porque sei
Que estou no alto.

23.6.03

Último dia de uma volta para casa
(Rio, 23/06/2003)

Eram 3h20 da manhã e eu estava na Fonte
da Saudade quando a vida perdeu o sentido.

Diante da Lagoa, aos pés do Céu,
Eu sentia a dolorosa falta do que tinha ali,
À minha frente.

Eu me encantava com tudo aquilo
E tudo aquilo parecia me chamar de forasteiro.
Amanhã, devo ir.

A brisa salitrada da Lagoa soprava-me o adeus.
Meus olhos, como os de um turista,
Queriam carregar essa lembrança para uma distante casa,
Fosse onde fosse.

E eu chorei com medo
De um dia não ter mais o Rio em mim.



Eram 3h20 da manhã;
Já era tarde pra falar de amor.

19.6.03

Constatação

No decorrer da vida, em cada hora
Do dia, não te deixes esquecer
Que estás sós, que assim hás de viver
E que ninguém olha por ti lá fora.

Não te enganes; ao teu redor agora
Estão só solidões e -como vou dizer?-
As companhias que te dão prazer
Daqui a pouco devem ir embora.

20.12.02

Moça diante de esmeralda

Ela busca um reflexo na pedra.

Precisa ver-se de um jeito novo,
rico e diferente.
Carrega sobre os ombros o peso de uma idade
Deixa sob os pés uma cidade já distante
Chegou aqui faz tempo, e nada achou que parecesse
aquilo que buscava.
Anda acompanhada pelos muitos estranhos dessa estrada
Não sabe o nome deles, mas suas intenções são
– ocasionalmente –
Boas, e isso lhe bastava.

Mal-tratada pelos que conhecia,
Cansou-se, e foi viver de solidão.

Sozinha descobriu-se maior que este planeta,
Longe descobriu-se plena de si mesma.
E plena e só descobriu-se sem sentido,
Como uma Bíblia sem cristãos.

Por isso,
Continua diante dessa pedra, estática,
À espera dum reflexo, duma opinião de pedra,
Que sem hesitação lhe diga
“Sorri, moça; ainda continuas
Linda.”

11.10.02

Várias formas

Havia várias formas de dizer-te nada.
Eu nada dizia, você nada falava,
E tudo quanto se calava
Nos repetia a cada instante
Que havia amor ali, mais nada.

Havia várias formas de sentir-te amada
Uma delas, em silêncio, celebrava
O sono, o sexo, o carinho que mudava
A minha vida e insinuava
Que o tempo ali passou, mais nada.

Havia várias formas de cantar-te cada
Canção que inconscientemente recordava
A dor de algo que a gente já perdia
Pelos cantos, sem ruídos, se escondendo,
Até que logo não se achou mais nada.

Havia várias formas de virar-te a cara
Fingir que não a vi, quando passava
Por todos os lugares onde eu ia
Presente ou não, psíquica cilada
Disposta a se vingar, mais nada.

Havia várias formas de dizer-te nada.
Eu nada dizia, você nada falava,
E tudo quanto se calava
Nos repetia a cada instante
Que havia amor ali, mais nada.

12.9.02

Tão gentil, tão honesta no saudar...

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quand'ella altrui saluta,
ch 'ogne lingua deven tremando muta ,
e li occhi no l'ardiscon di guardare .

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d'umiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira,
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbra si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: sospira.

Dante Alighieri, em La Vita Nuova
_______________________________

Tão gentil, tão honesta em seu saudar
É minha dona, e tanto me parece,
Que minha língua dobra, a alma emudece,
E os olhos nem se arriscam num olhar.

Assim louvada, segue a caminhar,
Trajando a veste que a humildade tece;
Como algo que dos Céus à Terra desce
Vinda para milagres nos mostrar.

Só contemplá-la enorme bem inspira,
Pois dos seus olhos flui uma doçura
Que só compreenderá quem talvez prove.

E em seus lábios, parece que se move
Um 'spírito de amor de tal brandura
Que vai dizendo ao coração: suspira.






10.9.02

Paranóia

No alto daquele prédio,
Naquela calçada,
Fitando da janela,
Estão todos, todos
Contra mim.

Unidos sob um sólido ideal, repetem meu nome em sórdidas tramóias,
Sou seu mais digno alvo, última coluna a derrubar.

Na mesa daquele restaurante,
Na escadarias do Municipal,
Nas estações do metrô,
Todo e qualquer instante é pouco para eles, eles todos, todos contra mim.

Eles e seus malditos códigos, sinais,
Criptografias, isso que atravessa a mente e mente e mente e mente,
Esse calvário diariamente entre o que já não sei se é
E o que é simplesmente.

Eles me dizem em silêncio as coisas que não ouço
E você no meu lugar talvez nem entendesse.

É verdade é sério é de verdade e eu juro que é
Acredito na minha intuição
Tanto quanto em minha imaginação.

Atrás de você,
Ao nosso redor,
Diante da sombra trêmula que vela por nós dois,
Eles conspiram, eles querem sua ajuda,
Eles e você, sim,
São talvez vocês todos, juntos,
Todos contra mim.

Eles querem me matar porque eu os fiz viver e posso assassiná-los
E você no meu lugar talvez sobrevivesse.
Só que eu nem posso estar no seu lugar.

(O horizonte se afasta lentamente de mim enquanto
Um sopro gélido de vento pousa a mão sobre o meu ombro e some.)

No elevador,
No túmulo,
No Céu,
Eles, você e eu, Ele, enfim,
Todos juntos, vamos, todos nós agora
Contra mim.

16.8.02

Poema em 3x4

Um 3x4 teu em minha mesa
Me contempla,
Me vigia,
Vela o passar da tarde do meu lado e
me assedia,
Pedindo uma olhadela.

Um 3x4 teu é uma janela,
Onde às vezes
Eu te vejo
Quase sorrindo tímida e pensando
Num desejo,
Que apenas nessa foto caberia.

Num 3x4 teu sorri meu dia.

7.5.02

Soneto do Amor tal qual ele é
(para Aninha)


Quando olhar para mim, jamais procure
O homem perfeito. Tente achar primeiro
Alguém que se dedica por inteiro
Para que o nosso amor muito perdure.

Que ninguém um amor eterno jure,
Porque o Tempo é do mundo o bom coveiro
Que enterra (de costume e sorrateiro)
Sentimentos, até que nada dure.

Pois tudo está entregue à própria sorte;
Se não termina aqui, finda na morte
E até quando os seus dias serão meus?

Não importa. Se o fim é inevitável,
Façamos desse amor algo agradável
E um eterno adiar-se desse adeus.

(em fev/1997)

21.4.02

Soneto do Amor que espera a volta

Sabes que existem coisas que sentimos
Num momento, o qual vê-se claramente
Que é único, difícil, diferente,
E a eternidade dele perseguimos?

É algo que choramos, ou que rimos,
E que se vive a dois, intensamente,
Que não se encontra assim, em toda gente,
E nossas vidas nele refletimos.

Isto passei contigo, e hoje lamento
Não ter eternizado esse momento
Do modo como sei que merecias.

Pra me entreter, preparo-te alegrias
E te aguardo, ninando um sentimento
Que não se perde na erosão dos dias.

15.4.02

Condenação

Se não quiseres ver-me, faze-o bem;
Rasga as cartas, esquece das memórias,
Apaga todas as dedicatórias,
E queima tudo que for meu também.

Se falarem de mim, pergunte: “Quem?” -
Mas não procure ouvir outras histórias.
Mesmo que eu morra, ou cubra-me de glórias,
Não digas o meu nome a mais ninguém.

Nem olhes para trás, que me envergonha
Reconhecer que nada há que ponha
Teus olhos a favor do homem ruim.

Faze o que convier ao teu bom gosto:
Que o tempo passará, verás meu rosto,
Mas nem querendo vais lembrar de mim.

12.3.02

Lição

Das pessoas, aprendi que um dia vão-se;
Todos os dias, milhares de adeuses não são ditos,
Todos as horas são tarde demais,
As portas batem sem aviso, os dias não mais voltam,
Somem segredos, esquecem-se carinhos em gavetas,
Recordações de ouro se perdem nos caixões de madeira.
Telefones ocupados, secretárias eletrônicas,
Cartas sem destino, por-enquantos sem presente,
Desaparecemos na rotina dos ônibus e dos sinais de trânsito.

Por onde ando? De quem já desapareci?
Abandonei-te, sei, mas me buscaste? Ou deixaste simplesmente
Que eu me permitisse prescindir da tua despedida?
Ai, amor, eu queria tanto ser eterno,
Mas não sei se agüentaria ser sempre abandonado...
Porque dos outros, eu sei que um dia vão-se,
Sem querer, sem pedir, sem saber.
Não é da nossa vocação o estarmos juntos,
Não temos o talento pro convívio...
Fracassamos, e ninguém mais nos acha.

A perfeição de Deus está na Sua permanência,
Onde quer que Ele de nós se ausente.
Dos outros, eu só sei que hão de ir embora.
De ti, só sei que já te foste
Daquele, que abandono aqui.

9.3.02

Algo em meus olhos que perdi nos teus

Algo em meus olhos que perdi nos teus
Existe, e que não quero ter de volta.
Desejo apenas vê-lo em tua face,
Dia após dia,
Pois, se o haver perdido fez-me assim,
Com algo de cegueira, sem razão em mim,
O que enxergo de meu quando me encantas
Já me permite ver tudo que quero.

Algo em meus olhos que perdi nos teus
Existe, e te faz linda como apenas eu posso apreciar,
Por conta do que podes ver
Somente em mim.

22.2.02

A tempestade e eu

As ruas feitas córregos e rios,
As roupas ensopadas, os bueiros
Entupidos. Escutam-se os primeiros
Trovões, quedas de postes, assovios;

Sob as nuvens de cinza e os céus sombrios
Sirenes, ambulâncias e bombeiros,
Os gritos aos que fogem, corredeiros,
Rumores de tragédias, arrepios,

O desabrigo enchente após enchente...

(Tu tens pensado em mim ultimamente?
Ando com tantos sóis no meu olhar...)

... até que o cinza some, fuzilado
Por raios dum alívio esperançado,
A bonança que exige retornar.

17.2.02

Diálise da Alma

Minha alma pesa como um caixão de amores
Cujas alças não quiseste carregar.
São cefaléias, depressões e dores, esperanças malogradas,
Desenganos que me foram trazidos pelo otimismo
Dos que nunca souberam se entregar.

Doente, sobre a maca de um corpo que não a deixa repousar.
Ela pesa sobre mim, e lhe restam poucos movimentos.
Sofre, como se lhe restassem poucos dias.
Recusa o apetite do sexo, recusa mais um confortável travesseiro, e conformada,
Não pretende perturbar-me exigindo-me cuidados.

Como o melhor dos enfermeiros,
Preparo a diálise das almas.
Porque é preciso saneá-la das impurezas da dor,
Dos resíduos de todo o desespero infligido:
É preciso salvá-la de mim mesmo.

E é assim que eu penso em ti, no que me fazes sentir
Na imposição da tua ausência, quando consentes que eu te ame
De todo o coração e toda a crença e todo o espírito e simplesmente partes,
Como se tudo o que desejo fosse estranho
Ao teu desejo.

E eu deixo que invadam meus ouvidos
Todas as músicas que amamos juntos. E eu vejo como é estranho
Escutá-las sem os teus ouvidos do meu lado.
E eu me sinto amputado, infeliz, frustrado.
Queria não te desejar unicamente.
Invejo aqueles perdidos,
Os que não sabem o que querem da vida, e assim,
Consideram quase todo o bem que aporta como lucro.

Eu não sou assim.

Tudo o que é diferente de ti é derrota em minha vida.
As coisas que não têm origem em ti não reconheço
Como um bem.
Na verdade, são quase nada. E de nadas estou cheio.
Os sorrisos, os olhares, os elogios, o aplauso, o dinheiro,
O que significam se não são a ínfima parte do que quero?
A minha maldição é saber exatamente o que desejo: a tua volta,
Como se tu soubesses os motivos que me trouxeram a este mundo,
Por onde devo andar,
Onde devo dormir.

Eu penso nestas coisas e choro. Não aquele choro que envergonha,
Aquele que enrubesce a face e que exige esconderijo, aquele que é fraqueza.
Choro porque há mais vida em mim quando recordo
Que te amo desta forma.
E à medida que o pranto escoa,
Drenagem de excreções retidas,
Eu me sinto mergulhado em bálsamos leves.
Uma vertigem amistosa toma conta dos meus ânimos, a cabeça pende,
De um lado a outro, circularmente e devagar,
Um vácuo obscuro no pensar me permite ser inda mais leve
E a gravidade me perde, rumo ao infinito dos desprovidos de razão.
E eu posso ir longe nesse efêmero instante
De sadia insanidade.
O peso dos meus ombros se afasta de mim (talvez meus próprios ombros
Façam o mesmo, como se me livrasse da carcaça que carrego),
E assim, tornado alma e desgarrado das torturas,
Eu posso amar-te em toda essência, ser mais inalcançável que o teu amor,
E mais incompreensível que a recusa tua.

As lágrimas no chão, minha alma no céu, meu corpo à deriva,
Um amor que te espera;
Espalho-me aos poucos em lugares e funções
Que só têm razão de ser e final a celebrar
Na tua volta.

14.2.02

Soneto das cinzas

Manhã de quarta-feira, e o carnaval
Termina, nessas cinzas de euforia,
Num último suspiro de folia,
Num beijo suado, num abraço e um tchau.

São finadas a febre e a fantasia.
O estandarte é esquecido a meio-pau,
E ficam só cansaços do final,
E nos resta dormir, que já é dia.

Adeus a essa alegria fevereira,
Que ninguém sente mais na quarta-feira
Depois que silencia o último bumbo.

E eu me encontro de novo com a rotina,
Vestida de pierrô sem colombina,
O eterno fim de festa ao qual sucumbo.

21.1.02

Soneto, depois de tanta conversa fora

Beethoven morreu surdo. Uma ironia,
Se virmos que, em seus últimos dez anos,
Não mais podia ouvir-se nos pianos
Que ressoavam sua maestria.

Ainda mais irônico, eu diria,
É pensar que a surdez lhe trouxe danos,
Fúrias e depressões e desenganos
Sem lhe negar a Nona Sinfonia.

E pode-se dizer que, até a morte,
O gênio pôde, sim, gozar a sorte
De ouvir Beethoven só, e nada mais.

Uma bênção, sem dúvida nenhuma,
Enquanto eu, que não sou de porra alguma,
Nem posso ensurdecer pra alguns boçais.

7.1.02

A Nobre Farsa no Jardim Botânico

Nesta terça-feira, 8 de janeiro, vou declamar poemas no projeto PONTE DE VERSOS às 20h30. Além de mim, também declamarão os poetas Braulio Tavares e Sandra Fernandes. Todos os leitores da Nobre Farsa serão bem-vindos.

Livraria Ponte de Tábuas
R. Jardim Botânico, 585
(à altura da Rua J.J. Seabra)
Jardim Botânico - RJ
organizadores: Thereza Christina Motta, Ricardo Ruiz, Gilson Maurity

26.12.01

Monólogo de um demônio

Protege-te de mim nas tuas preces,
Pois eu sou o demônio que te assiste,
Discretamente à sombra, e quem persiste
Em ser pior, bem mais do que mereces.

Nunca me viste. Não, não me conheces;
Minha virtude principal consiste
Em SER demônio. Um mal que não existe,
A crendice ancestral que desmereces.

E até quando não é do meu intento,
Ingenuamente segues tua sina
E às vezes minha porta vens bater.

É por isso que agora me apresento:
Já procuras sozinho uma ruína,
Nada mais há que eu tenha por fazer.

25.12.01

Recado ao meu biógrafo

Se eu me tornar um homem importante
Do tipo que merece biografia,
Não quero que se escreva fantasia
Do que vivi nem do que vem adiante.

Quero um texto fiel a cada instante,
Que não inspire tola simpatia,
Imparcial sobre tudo o que eu fazia,
Rigoroso e jamais mitificante.

Que se elogie só o que merecer,
E, com o perturbado que for ler,
Seja meu redator sempre mais franco.

Mas, quando for falar de Ana Maria,
Por tudo o que não fiz e o que faria,
Eu peço algumas páginas em branco.

21.12.01

Soneto da final
Unico grande amore
Di tanta, tanta gente
Che fai sospirà

Hino da AS Roma, clube italiano de futebol


Inda te amava quando fui sozinho
Ao estádio, nem um pouco esperançoso;
A tua ausência me mantém saudoso,
Mas não pude ignorar o burburinho

Da final. Era um público orgulhoso,
O som de um só ardor, um só carinho,
Ébrios de uma paixão que, como o vinho,
Faz esquecer da dor com fácil gozo.

Foi quando um desafortunado gol
Traiu a multidão e lhes roubou
De uma alegria os pensamentos doces.

E ao ver os prantos, me indagava a mente
Quanta dor sentiriam, se tu fosses
O único grande amor de tanta gente.

20.12.01

Soneto de uma estranha vocação

Nasci pra ser herói, virei palhaço.
À medida que fui ganhando idades,
Dentre todas as possibilidades
Aperfeiçoei-me na arte do fracasso.

Eu tinha esse talento do erro crasso,
De equívocos, enganos, leviandades.
Tentei voltar, mas vis fatalidades
Torceriam o acerto do meu passo.

Assim eu, por instinto, fiz a vida;
Com chutes que acertavam sempre as traves,
Cessando de escrever belos romances,

Por conta da virtude incompreendida
Manifesta de formas tão suaves:
Saber desperdiçar as grandes chances.

19.12.01

Curso Livre de Poesia e outros serviços

A partir de janeiro, oferecerei um Curso Livre de Poesia, envolvendo apreciação, criação e declamação de poemas. Os objetivos do curso serão:

- estudos sobre as poesias portuguesa e brasileira; formação de leitores;
- estímulo à composição poética; compreensão das formas fixas, versificação e estilística;
- desenvolvimento da arte declamatória; a poesia ao público.

Aulas semanais de 1h30 de duração. Mensalidade de R$ 50. Prazo de conclusão: indeterminado (sem diploma). Os interessados deverão entrar em contato comigo pelo e-mail marvio@skydome.net.

Também dou aulas particulares de português e literatura para alunos de ginásio, segundo grau, universitários e profissionais. Preço a combinar.

17.12.01

Aos meus braços*

Eu não creio num Deus de intervenções
Como bem sei que crês.
Se acreditasse, a Ele imploraria
Que em tua vida nunca interferisse.
Que não tocasse teu cabelo,
Deixando-te como és,
Porém, se Ele quisesse dar-te um rumo,
Que viesses aos meus braços.

Aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.
Aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.

Tampouco cria na existência de anjos
Como hoje penso, ao ver-te.
Se acreditasse, eu mesmo os juntaria
Pedindo que zelassem só por ti.
Dando uma vela a cada um
Pra ensolarar-te a via
Com graça e amor, conforme Cristo andava,
Guiando-te aos meus braços.

Aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.
Aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.

Porém no amor, querida, eu guardo crenças,
Como igualmente crês.
E tenho fé que exista alguma estrada
Que juntos poderemos caminhar.
Então, que acendam fortes velas
Por toda a tua vida,
Para que voltes sempre e mais e sempre...

...aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.
Aos meus braços, Senhor
Aos meus braços.

*Tradução livre da canção Into my arms, de Nick Cave, lançada no álbum The Boatman's Call, de 1997, e gravada por Nick Cave and the Bad Seeds.

15.12.01

Pietà

Detalhe da Pietà, de Michelangelo. Basílica de São Pedro, Vaticano.

Estava morto o Cristo. Envolto em panos,
Sangrava ainda quando foi deposto.
Banhado em suor e lágrimas, seu rosto
Beijou Maria, diante dos romanos.

Passados 33 daqueles anos,
A mulher da qual Deus fez tanto gosto
Chorou a honra e o sofrimento imposto
Por dar seu filho à luz pelos humanos.

Ao fim de toda dor que tinha visto,
Por um momento se esqueceu do Cristo;
Quis seu menino e nunca mais deixá-lo.

E se inclinou para tirar do solo
A cabeça que trouxe junto ao colo
Como se inda pudesse amamentá-lo.

14.12.01

Soneto das distâncias

A paisagem serena em sua face
Inda enfeita as janelas do meu dia,
Sem que eu precise ver fotografia
Nem gastar tempo até que essa dor passe.

Senti-la perto é simples, eu diria
Que em sonho ela talvez me visitasse
Se num sono profundo eu me deitasse
Nas horas em que sei que ela dormia.

Tão próxima de mim quanto eu distante...
E a geometria plana não garante
Que entre nós dois calcule-se uma reta.

O que existe é uma linha sinuosa.
De medição difícil, trabalhosa,
E a estimativa nunca sai correta.
De Amor e Ódio

Amor, irmão siamês do ódio mal-visto,
Fui entregar à mão duma incerteza
Que, enquanto dou-lhe o bem, dá-me frieza,
E não parece se importar com isto.

Escravizado! Tido como presa!
As melhores razões logo despisto
Em prol duma maior, por quem existo,
Arraigada em minha profundeza.

Foi assim que eu, afeito às circunstâncias,
Do ódio ao amor quis encurtar distâncias
E quis odiá-la (com algum receio).

Fracassei. E hoje indago no meu canto:
Por que fui dedicar-lhe amor tão santo
Se quanto mais a amo mais me odeio?

7.12.01

Réquiem para 12 rosas

As rosas que mandei, sei que morreram,
Pois é o destino vil de toda rosa.
Nenhuma pôde em vida ser vaidosa;
Tão logo abriram, cedo faleceram.

As doze mensageiras se perderam
Na missão já sabida desastrosa.
Levaram um cartão, em simples prosa,
Cumpriram seu dever e feneceram.

Era preciso que elas fossem vê-la
Para que eu desaguasse esses amores
Tão represados no pensar em tê-la

Sem poder, arruinando-me nas dores,
Culpas de rosas mortas por querê-la
E um amor que não vale doze flores.

4.12.01

Soneto do bar e do tédio

Embriagado de um cansaço louco,
Eu vim buscar um pouso nesta mesa.
O que beber? Não tenho inda certeza,
Mas prometo pedir daqui a pouco.

Em meus bolsos eu trouxe qualquer troco
Que não me bastará para a proeza
De mais embriagar-me. "Esta dureza
Me preserva", concluo, dando um soco

(Levemente) na mesa, onde um cinzeiro,
Um par de pratos limpos e um saleiro
Me assistem numa noite de dezembro.

São horas só de tédio, interrompido
Quando indaga um garçom: "Foi atendido?"
E eu, confuso, respondo que não lembro...

23.11.01

Soneto dos passos

Passo a passo eu te quero do meu lado,
E sempre passo a passo, bem mais perto,
Para que a cada passo dado certo,
Um outro passo certo seja dado.

Ao passo que esses passos no deserto
Passem por um jardim primaverado,
Deixaremos as dores no passado,
E passo a passo, neste rumo incerto

Que as vidas possam ter (pois são passantes
Na calçada onde os passos dados antes
Não passam para a história nenhum traço),

Pensaremos na paz sem que algo impeça,
Sem crimes passionais, com pés sem pressa,
Num passeio por tudo passo a passo.

19.11.01

Soneto dos dois lados da moeda

Eu penso em ti bem mais que deveria
Se fosse apenas coisa de momento,
Se eu só quisesse tê-la como o vento
Que nos deixa depois que acaricia.

Podia ser um sonho calmo e lento,
Que numa ou noutra noite iludiria,
Mas não... eu penso em ti à luz do dia,
Dirigindo, desperto e bem atento.

Do meu carro eu te busco em outros carros,
Pelas noites te busco em outros sarros...
Se me achasses na vida nessas horas,

Imagino que tua voz diria
Que em teus olhos se vê que inda me adoras...
...ou que penso em ti mais do que devia.

14.11.01

Canção do Jardineiro

O amor é flor que se cultiva,
Como a flor que precisa de amor
Para florir.

Como a flor pede outra
Flor que empreste pólen
Pra ser flor,
Amor só pede amor
Pra mais amor
Tecer.

Floreio o amor pois creio que isto o aflora,
Já que amor não dá frutos como a amora,
Só precisa morar
Em nossa flor.

13.11.01

Dinastia

Aos Fernandes e aos França dos Anjos

Levantai e vede! A minha guerra
Acabou, e eu venci. Meus inimigos
Prostrados neste chão pedem abrigos
Beijando as minhas botas, que de terra

Estão cobertas, como os meus antigos
Ancestrais. A batalha que se encerra
Honrou meu sangue e assim os desenterra,
Sem precisarmos ir aos seus jazigos.

Pois como herança eu recebi exemplos
Duma gente que errou por tantos trilhos
Mas ensinou nobreza, verve e afetos.

Minha vitória é o sino destes templos
Cantando os pais que um dia foram filhos
Pro filho que vai orgulhar seus netos.

8.11.01

De passagem por ela

Beijou o travesseiro, cuja fronha
Ainda tinha o cheiro fraco do suor que ele aspergira
Quando, há duas semanas, se beijaram antes de dormir.

Naquela noite, ela quis que seu quarto
Fosse mais dele do que dela.
Sem retratos que não fossem dele
Sem homens que não fossem ele,
Porque sem ele o quarto não seria dela.
E levava a carne à sua boca gentilmente,
Naquela sensual maternidade
Que aquele órfão de alma não quis adotar.

Ela viu nos seus olhos gratidão,
Um prazer que soava confortante
E uma paixão talvez insuficiente;
Os dois sabiam que ele estava de passagem.

E de novo, aquele quarto era só dela.
De novo, estava só naquele quarto.
De novo, alguém passou por lá
Sem deixar nada além de um quarto
Para ela.

5.11.01

Conversa depois de uma pelada

... Depois, nós fomos prum motel na Barra,
Não vou lembrar do nome dele agora,
Um desses bons, de dez reais a hora,
Aos quais levo meu gado para farra.

Só que ela tava assim, cheia de marra,
Chatinha, meio dentro, meio fora,
Aquelas coisas que mulher adora...
Mas depois de um tempão de agarra-agarra,

Postada como quem se volta à Meca,
Virou o rosto, e ao ver-me de cueca,
Pensou que eu estivesse de pochete.

De perto olhou, mediu usando a palma,
Para então sugerir, mantendo a calma:
“Amor, vamos ficar só no boquete?”

3.11.01

Soneto a um merda

Da vida ele não faz porra nenhuma.
É inútil, nasceu por acidente,
Vive a passeio, o mundo não o sente,
Ninguém o quer por perto ou quer que suma.

Quem convive com ele se acostuma
À sua ausência até quando presente;
Não brilha, não consola, não ressente,
Nunca a ninguém fez diferença alguma.

Desperdiça na terra cada instante
Solto no espaço-tempo, agonizante,
E, podendo ser muito, quis ser médio.

Um estorvo imbecil, quase-abortado,
Mediocremente vivo, um entediado
Que soube achar conforto amando o tédio.
Soneto-carta confessional de intenções

Aos leitores de “A Nobre Farsa”

Há quem pergunte ao ler os meus poemas
Em tom curioso (às vezes, com piedade)
“O que escreveste, é tudo de verdade?”,
E quer saber se sofro por dilemas.

Porém, não se preocupem com meus temas.
Primeiro: por não ter necessidade;
Segundo: porque é minha prioridade
Celebrizar poesia, e não problemas.

Não vou dizer que aqui não sou sincero,
Pois precisei do amor pra ser artista
E há na tristeza um belo cativante.

Mas de vocês, amigos, eu só espero
Que achem prazer com o que têm à vista;
Isto faz minha vida interessante.

1.11.01

Soneto de um dia pra esquecer

No último dia em que nós dois nos vimos,
Já não havia mais sentido em nada,
Ocasião para não ser lembrada
Depois de todo amor que dividimos.

Foi quando conformados admitimos
Que ali findava a nossa caminhada.
Cada um levou metade desse nada
De um tudo do qual nós nos despedimos.

Para onde for, eu levarei a parte
Que me serve pra sempre recordar-te
Sem ver tal dia entre os que foram teus.

Porque nos outros, quando eu ia embora,
Sempre insistias, “não, não vás agora”,
E nesse me disseste vai-com-Deus.

30.10.01

Soneto da Teoria do Merecimento

- Estás tão triste assim quanto parece?
- Estou, mas algum dia vai passar.
- Já faz tempo que te vejo assim chorar...
- Não te preocupes, por favor... esquece...

- É um mal comum, que a todos acontece.
Não existe outra forma de encarar
Senão viver, e ao tempo relegar,
Porque quem não nos quer não nos merece.

- Mas como, se a memória me resgata
Aquela decisão tão insensata,
Quando deixei quem mais me merecia?

- Não podes fazer nada agora, aceita...
- Eu sei, mas hoje paira-me a suspeita
De que ela já aprendeu essa teoria...

29.10.01

Soneto do Violoncelista Psicopata

Quando empunhou o arco do instrumento,
Quis arrancar do nobre violoncelo
Um som que fosse triste e fosse belo,
O grave/agudo seco de um lamento,

Como o grito esculpido do martelo
No mármore em combate violento,
Cru e abafado, o grave-ferimento
Das próprias cordas enforcando o cello.

“É dia de sangrar, seu desgraçado!!”
Disse enquanto esgrimava, debruçado,
Deixando o suor cair pelo tapete.

E quando achou o efeito que buscava,
Quem pôde ouvir a música pensava
Que alguém morria a golpes de estilete.

27.10.01

Meu primeiro soneto
(ou Soneto pra lembrar quando faço aniversário)

1978,
9 de agosto: Nasço, carioca,
O nome “Márvio Rafael” me toca,
Vindo eu depois do almoço, nada afoito.

A inspiração dos pais naquele coito
Vê-se neste sorriso de boboca
Que gosto de exibir, e que não choca
Se inda o tiver após fazer dezoito.

Entre tantos contentes, sinto a pressa
Dos que esperam de mim qualquer promessa
E tecem previsões pro meu destino.

E ao ver que por mim fazem tanta festa,
Descubro a vocação que só me resta:
Pra sempre querer ser um bom menino.

24.10.01

Sevilhana

Tem o rosto das moças andaluzas.
É morena na pele, nos cabelos,
E sabe desenhar virando os olhos
Um véu que esconde trinta mil mistérios.

Um quê da Arábia e um outro quê de Espanha,
Como se um dia, o Islã e o Cristianismo
Criassem juntos uma fé diversa
Cujo templo eu devesse construir.

Se houvesse castanholas nessas mãos,
A percussão flamenga dos destinos
Marcaria o compasso do meu rumo.

Mas não há nada além de um só fascínio
Que Sevilha inspirou a tantas almas
E, por acaso, eu encontrei no Rio.

17.10.01

Soneto-salmo da última crença

Se puderes, Senhor, dar-me um ouvido,
Aceita este convite que promovo:
Faze de mim agora um homem novo
E purifica o barro já falido.

Que hoje sou dor, pecado repetido,
Vergonha e mágoa andando em meio ao povo.
Sei que sozinho as culpas não removo,
Por isso peço ajuda, encarecido.

Se eu não puder recomeçar do zero,
Me arranca os pés, os braços, a esperança,
Põe-me num coma e apaga-me a consciência.

Direi a tudo “amém”, pois o que quero
É ser à tua imagem semelhança,
Mesmo que signifique inexistência.
Soneto a um amor sem poesia

Ela nunca gostou de poesia.
Foda-se. Caguei pro que ela pensa.
Isto não há de ser a desavença
Na qual o nosso amor fracassaria.

Será pra mim no máximo heresia
Que eu nunca julgarei assim imensa.
Numa boa? Não faço diferença,
E seguirei sentindo o que sentia.

Não me vai ler? Não quer? Não tá com saco?
Cansada? Trabalhou, voltou um caco?
Não sabe versos ler? Tem dislexia?

Ok, entendo tudo, amor, e deixo,
Mas justifique sempre ou eu me queixo
De que essa má-vontade é putaria.
Sobre o túmulo de J.S. Bach

Pudera eu ser humilde e genial
Como foste, e lançar sobre os humanos
Acordes, a princípio luteranos,
Com ares de verdade universal.

Quisera eu ensinar, tão magistral,
Os cantos mais sagrados e os profanos,
Indiferentemente, como planos
De uma doutrina apenas musical.

Quisera eu ser duma arte sacerdote,
Apóstolo, messias, serviçal,
E inda no ofício achar divertimentos,

Ganhar de algum talento o mesmo lote,
Ser autor de um legado enfim total,
E dar às almas novos sentimentos.

15.10.01

O paciente

A um paciente terminal, não restam mais
Que duas escolhas: milagre ou eutanásia.
Tudo depende da vontade de viver
Ou morrer.

Nenhuma das escolhas depende
Do paciente.
Na verdade, ele escolhe apenas
O que esperar.

Quem garante o milagre? Quem autoriza uma eutanásia?
Pra qualquer escolha que se espere,
Não haverá certeza até que venha
Qualquer uma.

E pra qualquer que seja a espera,
Quanto mais terminal, mais é preciso
Ser paciente.
Ode à mesmice do planeta

Uma guerra acontece a milhares de quilômetros daqui.
Não me preocupo com isso.
Porque sei que você mora num bairro próximo de mim
Muito provavelmente bem a salvo.

Hoje um carro em alta velocidade atropelou um homem
A uns 100 metros da minha casa.
Ele morava no prédio em frente. Sei que não poderia ser
Um dos seus familiares, e assim,
Nada mais eu quis saber sobre o incidente.

Meu Flamengo venceu uma partida heroicamente.
Jogou fora de casa, começou perdendo e saiu triunfante, com dois golaços.
E daí?
Você é Fluminense, que empatou sem festa em 1 a 1,
E futebol nunca foi marcante na sua tão tranqüila vida.
Até agora nem sei quem fez os gols.

Meu único interesse hoje, ao abrir as páginas do jornal,
Ao ver televisão, ao conversar com qualquer um que me traga novidades,
É saber como você está, se vai bem,
Se pensa em mim, se quer voltar.

Porque o mundo sempre teve guerras, carros sempre mataram gente,
E o Flamengo de vez em quando sabe dar alegrias.
Nada em volta de nós está tão diferente de quando nos amamos.
Só nós mudamos.

Talvez as redações esperem de nós boas notícias,
Algo que possa ser primeira página, manchete.
“Último dia de mesmice do planeta: eles voltaram”.
Nesse dia, serão assinados todos os acordos de paz,
As ruas da cidade serão reservadas aos pedestres,
Nenhum time entrará em campo, para que não haja na boca de ninguém
O menor gosto de derrota,
E não teremos nada a declarar, senão um ao outro.

Eles que achem outras coisas pra fazer
Do que ficar se metendo em nossa vida.

14.10.01

Canção Infantil
para o 1º minueto do "Caderno de Anna Magdalena”, de J.S. Bach*

Passa por mim um dia
E olha pra quem te espera
Derrama essa simpatia
Sobre quem chora na primavera

Vem para a minha rua
E deixa ficar mais bela
Enfeitada com teu sorriso,
O paraíso já foi aqui.

Sei que vou entender
Se para o meu lado
Não mais puderes seguir.
Mas que o mundo nunca peça
Que eu volte a sorrir...

*Para download do mp3, procurar por "Bach", "Menuet" e "Anna". Duração aproximada: 2 minutos.

13.10.01

Soneto de Copacabana

Copacabana madrugava fria
E, na Avenida Atlântica, sem sono,
Eu caminhava a trilha do abandono
E o sujo meretrício me assistia.

De repente, uma puta me assedia,
Me pega a mão, mas nada eu intenciono.
Agradeço, recuso ser seu dono
Por cinqüenta paus/hora e dou bom dia.

Antes de me deixar seguir meu passo,
Pediu-me com doçura um quente abraço,
Que lhe emprestasse dignidade humana.

Ela encontrou calor numa frieza
Como eu, que tive nojo e vi grandeza
No dia que entendi Copacabana.

11.10.01

Os campos estão secos

Pai, os campos estão secos. Nada cresce
Nestas terras. Não chores, pai, sobre este solo
Que não podes regar estas sementes
Com o sal esperançoso dos teus olhos.

Os campos, pai, estão secos. Mas nós,
Que tanto suor deixamos neste piso,
Não desaprendemos a suar. Andemos.
Levaremos nossas mãos a outros terrenos,
Nossos pés hão de pisar um pasto novo
Que nos receberá agradecido e fértil.
Dói-te, pai. Eu vejo. Mas se aqui ficares,
Se junto destes campos tu secares,
Nem saudade dos bons tempos da colheita
Verás germinando no teu peito.

Vem, pai, que eu te ajudo. Não desistas,
Que sempre vinga o amor no que tu plantas,
Mas nestes campos, pai, tudo secou.

10.10.01

Torcedores

Sentam-se lado a lado, arquibancados.
Pagam por incertezas em minutos.
Exibem nas camisas suas crenças,
Um orgulho de filhos bem-nascidos
E as maldições do amor que não dá frutos.

Mas são todos irmãos desamparados,
Prole bastarda que adotou família,
História, tradição e antepassados,
Como um mistério atroz, lindo, supremo,
Ilegitimamente hereditário.

Os jogos são as noites de Natal
Dessa grande família desunida.
Meninos que jamais ganham brinquedos
Assistindo aos parentes presenteados
Agüentando essa inveja, comportados,
Pedindo apenas pra brincar também.

6.10.01

Soneto da Inevitável Hora

É provável que a gente se reveja,
Em um lugar qualquer, numa hora à toa;
Talvez contigo esteja uma pessoa,
Talvez comigo outra pessoa esteja.

Vai ser fácil? Quem sabe nunca seja
Domar tanto carinho e talvez doa
Perceber que um passado ainda ecoa,
E disso eu peço a Deus que nos proteja.

Não quero indiferenças nesta cena;
Vou te cumprimentar, e já te aviso
Que vou sorrir de alma sincera e plena.

E neste gesto simples te autorizo
A nunca se culpar ou sentir pena,
E a sempre vir buscar outro sorriso...

4.10.01

Queria te dizer que estou feliz

Para Ana Maria

Queria te dizer que estou feliz
Mas tenho medo de ser mal-entendido;
Que tentes ver entrelinhas onde não há,
Que aches intenções mesquinhas
Onde não existe nada mais que um bom momento
Pelo qual passei por estes dias.

Queria te dizer que estou feliz
E que sinto poder recomeçar sozinho,
Mas também não quero que interpretes
Que já sei viver com tua ausência.
Falta algo que é teu ao meu lado
Pra que eu possa dizer-te certas coisas
De um jeito que nenhum de nós duvide.

Queria te dizer que estou feliz
Mesmo sem ter como me provar.

2.10.01

Delírio do eu maior

A minha dimensão mais grandiosa
Eu vou deixar no mundo bem impressa.
É apenas uma chance, e me interessa
Que a temporada seja vitoriosa.

Não se trata de idéia pretensiosa
Que o medíocre aos amigos nem confessa.
É o talento que exige de mim pressa,
Pois nunca teve graça a glória idosa.

E eu sinto a cada vez que o sol levanta
Que mais e mais meu vulto se agiganta
E uma firme certeza se renova:

Eu sou o maior gênio desta Terra.
Se havia discussão, aqui se encerra;
Se pensas o contrário, mostra a prova.

1.10.01

Soneto dos três personagens

Para J.P. Cuenca e Carlos Jazzmo

São três caras comuns ali sentados.
Personagens de livros diferentes,
Heróis – de tantas páginas pungentes,
Vilões – de crimes não premeditados.

Naquela mesa estão sendo julgados
Das histórias os rumos aparentes
Que os autores vêm dando, inconseqüentes,
Aos passos desses três biografados.

São romances distantes dos desfechos
Reconhecendo-se por muitos trechos
Como cópias de essência parecida.

São três caras comuns tão semelhantes,
Amigos como nunca foram antes,
Se abraçando nos plágios dessa vida.

26.9.01

Soneto da auto-ajuda (se o leitor me permitir...)

Sei quando perco, e encaro bem os fatos.
Depois de receber o golpe duro,
Estudo os passos dados e procuro
Ensinamentos para os novos atos.

Assino depois disso alguns contratos
Comigo mesmo, testemunho e juro
Não perpetuar os erros no futuro
Pra voltar a ganhar os campeonatos.

Por ora ainda vejo-me vencido.
Vou superar, pois já tenho escolhido
Metas que não se cumprem por acaso.

Continuar é a guerra de ser vivo.
Vitórias, perdas... tudo é relativo,
E questão de pensar a longo prazo.

25.9.01

Lendas de Enecom (*Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, ou carnaval fora de época da categoria)

I

Meu estado era mais que lastimável,
O dela, eu acho, Santa Catarina.
Naquele alojamento (uma latrina),
Meu porre pareceu-nos incurável.

Passou-me sobre a calça a mão amável,
Sorrindo-me, safada e feminina.
“Demorou”, disse rápido à menina,
Puxando fora o bicho infatigável.

E bastaram apenas dezessete
Minutos para ver-lhe a boca cheia
Selando o pagamento de um boquete.

Só vi quando ela foi como era feia...
“Tô no lucro”, pensei no colchonete,
Depois que me limpei na fronha alheia.


II

Falou pra quem ouvisse antes de ir:
"Esse ano eu vou passar rodo em geral!!"
Prometia uma esbórnia radical,
Tudo que fosse etílico ingerir.

Só que o "Terror do Encontro Nacional"
Foi um fiasco que se pôde conferir.
Na ida, o primeiríssimo a dormir
Foi nosso candidato a maioral.

E o quanto pôde foi garoteando:
Um Enecom inteiro namorando,
Colado na primeira que lá viu.

No fim bebeu, entrou num coma alcoólico,
Tardou a volta e o fim foi melancólico,
Com cem mandando-o à puta que o pariu.


24.9.01

Minha religião

Creio em Deus. Não escolhi. Não tive como.
A minha fé não remove as manchas do tapete,
Mas creio em Deus. Um Deus que é artista,
Espectador e fã n. 1 das próprias obras,
Que em si mesmas se inspiram, recriando-se
Numa montagem nonsense tragicômica.

Entendo a religião que fiz sem duvidar,
E a solidão reforça a minha crença;
Creio em Deus por precisar de companhia.

23.9.01

Sono impossível

Quero dormir. Preciso de mais sono.
Fecho a porta, as cortinas, desligo as luzes.
Meu quarto é o útero onde pretendo
Descansar por necessários nove meses.

Não me afaga o travesseiro, nem o lençol.
A minha cama, depois de todos esses anos,
Não faz a mínima idéia de como se acalenta
A hiperatividade do abandono.

Sonho que o tempo passa. Porém,
Quando abro os olhos, meu relógio diz
Que sequer adormeci por meia hora.

E eu vivo a sensação contínua
Que a dor que se prolonga dura um dia
Que impressionantemente não se acaba.

22.9.01

Soneto de Nova Iorque
sobre o 11 de setembro de 2001

Morreram cinco mil nesta semana,
Vitimados no ataque terrorista
Que destruiu, preciso e especialista,
O orgulho da nação americana.

A meio pau, essa bandeira emana
A dor de um povo que baixou a crista
Ao se reconhecer na torpe lista
Dos mortos da desgovernança humana.

Que aqueles cinco mil nova-iorquinos
Não sejam mais nem menos lamentados
Que as perdas de judeus, de palestinos,

De povos igualmente massacrados,
Cujos filhos nem foram sepultados,
Em honra a quem não dobrarão os sinos.

Soneto da raiva de ser poeta

As palavras pra mim são um brinquedo
Desde o tempo em que eu tinha já nove anos.
Meu desenhar não inspirava enganos,
E nos esportes não entrei tão cedo.

Da poesia, porém, não tive medo.
Ela se tornou parte dos meus planos
Tão natural que nem me causa danos
Que a crítica me julgue um arremedo.

Tu sabes quanto gosto do que faço.
Só que não sabes que eu daria um braço
Pra que, a cada bilhete meu que lesses,

Pudesses te dar conta do que falo,
E que ao final, em vez de elogiá-lo,
Que simplesmente tu me compreendesses...
Poema inacabado porque não foi começado
Para Aninha

...E cada dia que eu passo sem ela
O mundo passa um dia sem mim.

Frágil

Não pensava que era assim tão frágil.
Costumava achar que eu era a fortaleza
Erguida sobre tantas cicatrizes.
Imóvel, resoluto, irremovível,
Impassível diante das ventanias,
Meu mudo coração de pedra embrutecida.

Mas hoje a leve brisa do abandono
Sopra nos ouvidos, e a esperança,
Acostumada a não ter que ajudar-me,
Parece estar longe demais dos meus sussurros.

Vou sangrar as lágrimas sozinho.
Agora sei que é necessário
Que eu me fragilize mais ainda, enquanto espero
A ajuda de uma mão preocupada
Que ponha o lado certo para cima.
Soneto atropelado
A uma garotinha blasée da faculdade

Quando ouço a valsa do teu ir e vir,
Emudeço e permito que teus passos
Toquem nos corredores os compassos
Que ainda não me acostumei a ouvir.

Espectador, me perco ao assistir
À linda sinfonia dos teus traços...
...faria tudo até dar-te uns amassos,
Mas güento a onda e esforço-me em fingir.

O foda é que és escrota pra caralho:
Desfilas sonsa em vestidinho preto
Sem deixar nem um pouco de esperança,

Desconcentras a mesa de baralho
E (embora eu viesse bem), com tal lembrança,
Acabei destruindo um bom soneto.
Baixa as armas

Baixa as armas. Estou inofensivo.
Trago a bandeira branca sobre o corpo,
Uma flor despetalada,
E mil maneiras de pedir desculpas.

Tenho ainda uma face de derrota
Pra ser estapeada em praça pública.
Se a minha rendição nao for aceita,
Ainda posso garantir a tua diversão.

Apenas baixa as armas, que não é hora
Nem preciso gastar em mim mais munição,
Que neste estado, o estado em que me encontro,
Não és sequer capaz de me fazer um mal.

23/08/2001
Elegia ao Rafael dos Anjos

"Que ninguém doma um coração de poeta"
Augusto dos Anjos
"Eu tenho a alma do poeta"
Rafael dos Anjos


Três da manhã. Domingo de um agosto.
Com a serenidade costumeira,
Meu avô dava a olhada derradeira
No mundo que deixava, a contragosto.

Arlinda, a esposa, ao lado honrava o posto
Afagando-o, sentada na cadeira.
O triste adeus velou uma enfermeira,
Por trás da mão que lhe cobria o rosto.

Para explicar de formas convincentes
O que é pra mim tudo o que leste acima
Não terei, leitor, versos suficientes.

Mas foi como o desfecho da obra-prima
De quem mostrou a amigos e parentes
Alma de poeta sem ter uma rima.


Estou à espera de uma grande tristeza

Estou à espera de uma grande tristeza
Porque ando só e me sinto bem com isso,
Porque não tenho motivos pra estar triste
E isso já vem desde longa data.

Quando eu leio as notícias,
Ou vejo as pessoas levando os traumas para passear,
Percebo que me falta uma tragédia,
Da qual os outros possam sentir pena.
Algo que eu use pra justificar
Metade das minhas inconseqüências.

Estou à espera de uma grande tristeza
Que arranque a máscara de todo o meu cinismo
E me faça ter certeza de que fui muito feliz.