7.3.13

A lição que Chávez ensina de graça



"Esquerda, volver."

Não existe no mundo um conceito tão mutante quando o de democracia, devido às várias interpretações, leituras e saídas na prática que se notam de país a país e de partido a partido. O que nunca muda é a conclusão de que o ritmo do regime democrático é lento, e isso levou muitos governos a usarem práticas antidemocráticas – alguns com ideais até democráticos.

Lincoln comprou votos para acabar com a escravidão nos EUA, acusação que recai sobre FHC quando da emenda da reeleição. Ninguém em sã consciência reinstalaria a escravidão, assim como é difícil discordar que quatro anos são pouco para implementar um projeto. Lula, por exemplo, não abriu mão de usar a emenda.

Governos adoram criar formas de burlar a democracia; afinal, perde-se muito tempo quando todos podem opinar. Assim, poucos países podem ostentar democracias indiscutíveis. Em 2012, a Europa conheceu a expressão “déficit democrático”: por medo de que a ajuda anticrise não viesse, Grécia, Itália e Espanha tiveram de eleger políticos de austeridade condicionada à União Europeia e ao FMI.

Às vezes o povo se incomoda com esse déficit e protesta. Às vezes, não dá a mínima e topa trocar ideais de democracia por satisfação de prioridades. Isto é a Venezuela de Chávez, que mudou a Constituição e centralizou o poder, limitando a mídia e aparelhando o Judiciário. O povo apoiou tais mudanças reelegendo-o três vezes, convencido de que a democracia de outrora não lhes beneficiava como o chavismo.

Gente miserável foi incluída na distribuição de riqueza e no bem-estar social – justamente as metas de qualquer democracia. A maioria da população não lamentou as restrições à mídia e ao Judiciário independente – pilares que consolidam as democracias – porque se convenceram de que eles eram álibis que só favoreciam os ricos que Chávez oprimiu sem cenas clássicas de violência. Uma programação de TV livre das cadeias nacionais prolixas de Chávez não serviu para lhes garantir bem-estar.

A Venezuela ensina que vias democráticas podem legitimar soluções antidemocráticas: o voto no Chavismo nunca foi menos legítimo que os da extrema direita na Europa, ou os do deputado-pastor Marco Feliciano (PSC-SP). Quando a democracia falha em distribuir bem-estar e justiça, seus pilares se corroem como os dogmas de uma religião abandonável, e o eleitorado não tem problemas em testar outra coisa.

Por isso, não basta importar teorias e visões estrangeiras do que seria um ideal de democracia perfeita. É o povo, estúpido.

21.2.13

O rebaixamento do piso cultural




Um recente debate na imprensa questionou a qualidade da arte do Brasil: a provocação surgiu na “Carta Capital”, despertou artigos e entrevistas e todos saíram atrás dos Portinaris, Chicos e Machados atuais.

O antropólogo Hermano Vianna – que concebeu o “Esquenta”, de Regina Casé – defende que a produção cultural no Brasil nunca foi tão intensa, sobretudo nas favelas, que se entretêm com o que fazem; não há vácuo à espera da colonização da elite. O escritor Michel Laub, na “Folha”, também deu boa resposta: lembrou que a descentralização da produção cultural, causada pela internet, quebrou a lógica em que indústria (canais de TV, gravadoras, editoras) e crítica exerciam um aparente “controle de qualidade”, “ordenando” o que era válido ou não. E concluiu que os artistas “de verdade” sempre foram exceções dentro dum caldo de puro e descartável entretenimento.

Hermano não me surpreende, sendo ele antropólogo: formas rudimentares de cultura e folclore o atraem academicamente.

Já a resposta de Laub é quase indiscutível: o artista-de-verdade, essa pessoa interessada em expressar algo para além do afago no gosto popular, é sempre um milagre; não existe a “indústria de gênios”.

Mas não sou tão otimista a ponto de negar o forte rebaixamento do piso cultural que cria legados, causado por velhos carmas.

Saímos da indústria cultural absolutista e chegamos ao momento do público-deus a ser agradado sem criar  ambiente suficiente para a qualidade que venha a surgir hoje. No país da educação que não forma leitores, do imenso abismo social e do raro fomento, o receptor médio tem muito mais dificuldade de se conectar com o autor “alto” e vice-versa.

O público primário e acrítico é obviamente mais numeroso que o exigente, na proporção direta da desigualdade; o diálogo tende a ocorrer só pela facilitação, um risco ao autor. A separação desses Brasis acentua também uma impressão habitual do grande público e da mídia-classe-média: a de que nossos cinema, teatro, literatura e música (esta em menor escala, porque o brasileiro dança cantando) são tão duvidosos quanto uma garrafa de uísque nacional.

E enquanto isso os importados não cessam de chegar fortes.

Onde há mais educação e menos desigualdade, o artista local não é hit instantâneo, mas tem espaço e atenção que o sustentam até que o público mais amplo o testa por sua persistência. Aqui, sem golpe de sorte ou mecenas, o talento decide agradar para viver ou, pior, desiste.

14.2.13

O que não esperar do próximo papa





A Igreja Católica é uma das instituições mais fascinantes do mundo: milenar, mística, política, monárquica, dona de prédios e obras magníficas. Onipresente do nascimento à morte, mãe dos feriados mais arraigados de nossa cultura, familiar como uma madrasta rigorosa. Por isso, até não católicos se atraem pelo debate sobre o significado da renúncia de Bento 16 e a que rumos seu sucessor conduzirá o rebanho de 1 bilhão de fiéis. 

A saída de Ratzinger foi humildade ou jogada para fazer valer sua visão de Igreja para o século 21? Dificilmente saberemos. Mas o conservador Bento 16 foi ousado demais ao abrir mão da vitalicidade do cargo: a ideia de um pastor que desce do trono antes de subir ao Céu deixa a Igreja mais “material” do que o papel a que ela sempre se propôs – e o qual Bento apoiou em seu pálido papado – e é, a meu ver, má influência para quem tem por negócio convidar a uma vida acima das dores, desejos e pragmatismos.

Mas os cardeais que ele e João Paulo 2º nomearam são a totalidade dos eleitores do próximo conclave. Estão mais ou menos alinhados com o discurso de uma Igreja com mais ortodoxia e menos flexível às demandas temporais. E a verdade é que fiéis não querem que sua religião “se reconcilie” com o mundo: preferem-na segura, reconhecível e imutável.

Ninguém imagina que haverá um retorno maciço de católicos às missas caso a Igreja passe a recomendar camisinha ou tolere o aborto e a homossexualidade. O mais provável é que as pessoas fiquem exatamente onde estão: católicos praticantes na liturgia e católicos não-praticantes transando como quiserem, com um pouco menos de culpa.

A verdade é que tais dogmas não mudarão. Úteros operantes são o principal patrimônio das religiões institucionalizadas – a Bíblia é quase toda sobre isso. Ainda que alegue a autoridade concedida pelo Espírito Santo, é no volume de seu rebanho que as religiões mantêm influência e verbas. Tudo que baixe taxas de natalidade faz o rebanho minguar e assim diminui o número de casamentos, batismos, alunos e “salvações”. A Igreja apoia a abstinência sexual porque está escrito - e isso acelera casamentos. O que falta ao Vaticano é vender midiaticamente esse modo de vida como alegre, inspirador e até jovem, ensinado por um vovô bonachão.  

Em vez do papa reformador, a fumaça branca deverá anunciar um marqueteiro.

7.2.13

Carnavais que larguei pelas ruas


É  preciso respeitar meu Carnaval
– lá de onde eu sou, a coisa é séria. 
Se a cidade decidiu pela alegria,
a fantasia tem seu valor,
e é preciso receber e dar amor 
ainda que não vingue essa raiz, 
e até a quarta-feira seguir o tambor
que no meu peito bate mais feliz (é preciso!).


Minha foto preferida de Carnaval, com Alice, que estreava na folia em 2010


Os versos acima são meus, para um samba-enredo que nunca terminei. São da época em que eu decidi largar toda a minha arrogância de roqueiro-brasileiro-eurocêntrico e experimentei mergulhar no universo dos blocos de rua do Rio – acho que foi em 2006. Dei sorte de ser natural duma cidade que vive como poucas essa febre fevereira que ordena a alegria da noite de sexta até a Quarta-Feira de Cinzas.

O engraçado é que esses versos surgiram de um ficção que nunca escrevi. Sempre imaginei um morador de algum subúrbio da cidade, determinado a fazer um grande bloco no bairro para onde havia se mudado com sua mulher – e onde jamais aconteceram desfiles.

Na minha cabeça, esse obcecado por Carnaval sofria naquele bairro hipertranquilo. Levaria tempo para convencer os vizinhos da necessidade de dar a crianças, adultos e idosos a alegria que toda a cidade vivia. Não faria sentido para ele permitir que aquele oásis de tranquilidade urbana fosse imune até mesmo ao Carnaval.

O homem então arrecadaria fundos, venderia camisas do bloco, arregimentaria a banda, rabiscaria versos para uma marchinha passável; enfim, ele se responsabilizaria por tudo de modo a recriar sua ideia de Carnaval, sem ajuda dos outros, tomados pela apatia. Até que brigaria com sua mulher.

Ela se sentiria deixada de lado nesse tempo todo, explodiria raivosamente na concentração do bloco e iria embora com as crianças, enquanto o desfile iniciaria seu percurso, deixando nosso anti-herói sentado no meio-fio. O Carnaval triunfaria na vizinhança, à custa de uma grande tristeza daquele homem que quis compartilhar uma ideia de felicidade.

E aí viria um bêbado, testemunha ocular de todos os eventos, que se sentaria ao lado do homem e, dando um gole na cerveja, estenderia uma palavra de solidariedade masculina: “Essas mulheres não respeitam nem Carnaval...”

Nunca escrevi essa história, assim como não desenvolvi as estrofes do samba. É o lado bom da alegria: quanto mais improdutiva, melhor.

31.1.13

Santa Maria e a inevitável dor no jornalismo vivo





Foto: Agência Brasil

A tragédia de Santa Maria desperta dúvidas. Quantas casas noturnas são legalizadas? Quantas não são porque a fiscalização corrupta não lhes permite? Qual é o significado de um alvará, se pode ser obtido via suborno ou negado até haver suborno? É certo a casa usar comanda como cárcere privado? E por aí vamos.

A discussão que me interessa hoje, no entanto, é a crítica à cobertura jornalística do fato: não foram poucos os veículos sérios acusados de fazer sensacionalismo com imagens duras e desabafos emocionados, em vez de operar “jornalismo estritamente investigativo”. Exageros são condenáveis, mas confesso um incômodo com a enorme prevenção à emoção.

Embora se faça notícia hoje em tempo real, jornalismo investigativo sério ainda exige tempo. Apurar culpas, conferir as leis e traduzir as versões para o receptor médio não é um conjunto que se produz nos minutos posteriores a um horror que vira interesse público imediato. Equilibrar a demanda por notícias instantâneas para que não se menospreze a dimensão do fato nem se sonegue informação ao receptor de TV/rádio/ internet com a execução do esforço jornalístico de fôlego é um dos maiores desafios de qualquer veículo.

No entanto, em paralelo às necessárias investigações sobre as causas – que sim, estão sendo noticiadas – sempre haverá espaço para seus efeitos. Na dimensão dum massacre, o jornalismo não tem por que ser um mero enfileirar de dados, como um prontuário de delegacia, ou impassível e descritivo como um poeta parnasiano diante de um vaso chinês. Santa Maria foi perturbadoramente real.

É preciso contar as histórias para que os 236 mortos (mais um morreu na madrugada desta sexta) ganhem rostos humanos, reconhecíveis a qualquer um como iguais, a fim de que o país não se sinta tão distante de Santa Maria quanto se sente, por exemplo, da matança numérica na Síria. A boate Kiss foi o último capítulo de jovens ceifados por estupidez genuinamente brasileira. As vidas esfaceladas não são apenas as dos mortos, mas também de parentes e de cada mãe que se fará as perguntas do 1º parágrafo quando seu filho sair à noite.

Só numa cultura esterilizante, viciada em aparência de felicidade e sobriedade – que pode ser aguda apatia –, a foto do “Estadão” da última segunda-feira - uma mãe ajoelhada e inconsolável que abraça um caixão - pode ser tida como de mau gosto. Há pessoas que têm o que dizer, e dar voz à dor é homenageá-las. Relatar que os celulares dos mortos tocaram é empatia com policiais e bombeiros. É humano e biográfico, como o mais vivo jornalismo.

Seria lindo se todo repórter soubesse como perguntar o que sente um pai que chora – "É possível dizer alguma coisa em meio a tanto sofrimento?" ainda me parece ser a saída mais correta. Mais fácil, porém, será aceitarmos que nem todo mundo é inoxidável numa cena de horror. Erros ocorrem, exageros merecem crítica, e a exposição de corpos em material jornalístico sempre será tema para as mais dissonantes opiniões.

Mas defender que o microfone e a câmera nem se dirijam ao enlutado é um falso respeito ao leitor/telespectador. Certas dores, se quiserem, têm que sair no jornal.

24.1.13

"Amor", velhice e os dependeres





Posso me orgulhar de estar com os trabalhos adiantados em relação aos indicados ao Oscar. Resolvo “Lincoln” neste fim de semana, já passei por “Argo”, de Ben Affleck, “Django Livre”, a comédia faroeste de Quentin Tarantino, o chileno “No”, de Pablo Larraín e o belíssimo “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee, que inaugura o gênero 3D-com-história.

Mas talvez não haja filme mais dolorido e recomendável que “Amor”, do austríaco Michael Haneke, favorito ao prêmio de filme estrangeiro e ainda indicado a melhor filme. O mote é simples: um casal de idosos franceses sofre uma mudança de rotina quando Anne (Emmanuele Riva) tem um acidente vascular cerebral. A partir daí, seu marido (Jean-Louis Trintignant)   se desdobra no cuidado dela , que não quer ser internada, asilada e nem mesmo visitada devido ao seu estado – o que cria impasses entre o casal e a filha (Isabelle Huppert).

“Amor” é um filme que disseca seu título de forma econômica. É doce e desolador quando cria a empatia da plateia com os atores, porque ali vemos que até o melhor dos cenários que o amor romântico nos propunha – “felizes para sempre” – não cessa de encontrar desafios.

A doença obriga Anne a entregar seu orgulho às mãos do marido, que o defende com lealdade. E as limitações físicas de ambos vão delineando os limites deles como casal, transformando os dois em satélites que percorrem uma órbita estreita em torno da doença, que se torna cada vez mais onipresente.

E diante disso tudo, no espectador surge uma angústia profunda da nossa era de prevenções contra tudo: a situação exposta é daquelas inevitáveis; resta-nos apenas sonhar – ou rezar, a depender da crença – que a velhice não seja um fardo para nós ou para os outros, como se isto fosse possível sem uma morte precoce.

Com discrição nas intenções, o filme nos conduz à nossa natural solidão, apartados do mundo, cada um na sala assistindo a duas possibilidades de si mesmo – e talvez essas reflexões façam o espectador até esquecer-se do filme enquanto ele é projetado na tela. Simples como seu título, o longa de Haneke convida-nos a contemplar a hipótese de um dia depender de alguém – ou da saúde desse alguém.

17.1.13

E a poesia vai deixar de ser 'inútil'





A Inglaterra, você sabe, é o maior produtor mundial de estudos de universidades britânicas – aquelas descobertas tão surpreendentes quanto duvidosas a respeito de certa coisa provocar um dado efeito. Agora, descobriram que a poesia pode ser útil.

Sim, logo ela, descrita pelo curitibano Paulo Leminski (1944-1989) como um dos “inutensílios” do mundo e “parte das coisas que não precisam de um porquê”, como a amizade e o orgasmo. Mas, se certas amizades são por interesse e certos orgasmos são contados em calorias queimadas, à poesia ainda não haviam agregado nenhum outro valor ou função.

Foi assim até a última terça, quando a Universidade de Liverpool submeteu 30 voluntários a clássicos da poesia de língua inglesa como Shakespeare, John Donne (1572-1631) e o moderníssimo Philip Larkin (1922-1985), jamais editado no Brasil. Os estudiosos descobriram que os cérebros dos estudados disparavam quando diante de palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa. Por outro lado, quando lida uma versão mais coloquial do texto, o cérebro não trocava a marcha. Os estudos em andamento devem levar a tratamentos de pessoas com problemas psicológicos, asilos, prisões e – quem diria! – escolas. Espera-se que a poesia aja até melhor que livros de autoajuda. Uou.

Nada disso soa novo para o leitor de poesia: um bom poema tem um efeito imediato, devastador, químico, e permanece no cérebro para ser decifrado pelas entranhas da experiência do leitor. A cada pessoa, os significados variam, e os versos, pelas palavras escolhidas e por sua musicalidade, acabam por ser uma chave que “destranca” algo em nós. O que parece ser “sobre nada” se materializa e lança luz sobre aquilo que cotidianamente nunca é dito.

Foi o alemão Schiller – em 1795! – quem disse que nossa era é regida pela deusa Utilidade, “à qual todos os poderes devem servir e todos talentos devem jurar fidelidade”. Talvez a poesia enfim cumpra o destino de tudo que se move: existir para certa finalidade a mais. Mas há um lado bom:

O céu sublime tomou seu posto, apoiando-se no muro.
É como uma oração ao vazio.
E o vazio volta seu rosto a nós
e sussurra:
Não sou vazio, sou aberto. 

(Tomas Tranströmer, poeta sueco vencedor do Nobel de Literatura em 2011 em “Vermeer” (2004). Tradução minha do inglês.)

10.1.13

"Coisas baratas, pessoas caras"





Nunca tinha pisado nos Estados Unidos até decidir passar o Ano Novo em Nova York. Não vi a bola cair na Times Square sob um frio próximo de 0° porque, como se sabe, é uma tremenda roubada. Acabei passando a virada em casa de brasileiros no bairro do Harlem, onde um amigo, Rodrigo Feijão, sintetizou-me seu pensamento sobre preços nos EUA.

Eu estava impressionado com a confirmação de que os itens são bem mais baratos que no Brasil. Um computador iMac de 21,5 polegadas comprado em NY, com garantia de três anos, taxado nos EUA e declarado na Alfândega brasileira sai por cerca de R$ 3.800. O mesmo computador comprado no Brasil custa R$ 6.200, sem a mesma garantia. A mágica? Um regime de impostos muito mais racional que o nosso mais o barateamento da produção, com mão-de-obra localizada em geral da Ásia – além da abusiva margem de lucro praticada no Brasil.

Feijão, que mora lá há dois anos, resumiu para mim: “Nos EUA, as coisas são baratas e as pessoas são caras. Nenhum profissional perde com você um minuto a mais do que o necessário, porque esse tempo é caro”. Diante desse imenso poder de síntese, tive que concordar.

Não significa que americanos sejam grosseiros. Na média, prestadores de serviços e até transeuntes abordados em busca por informações são afáveis. O que fica muito claro é que, diferentemente do que é comum no Brasil, ninguém assume uma responsabilidade maior que a da sua função para fazer com que você se sinta bem. Dificilmente haverá um jeitinho para fazer uma vontade sua que não estava no script. Quem insiste em perguntas já respondidas, tentando levar alguma vantagem ou burlar alguma regra, acaba por ver um semblante claro de tédio e imediato desinteresse.

O brasileiro cordial, habituado a simpatizar a fim de dar ou obter jeitinhos, se espanta. Depois nota que a necessidade de “gerenciar o clima” nas relações de trabalho e nas prestações de serviços nos barateia muito como indivíduos: evitar o corpo-a-corpo, não se queixar, engolir o sapo do desrespeito em qualquer tipo de prestação de serviço e até no trabalho – como se toda abnegação fosse elogiável.

O fato de sabermos que existe um Brasil que só funciona para poucos privilegiados e bem relacionados alimenta esse clima de milhões de indivíduos em constante liquidação de si mesmos: pessoas que pagam mais do que precisariam num sistema que lhes dá pouco valor.

3.1.13

Pagodinho, Genoino e a inconveniência





O Brasil é um país esquisito. A velha certeza sempre se reforça quando retorno de viagens ao exterior e abro as páginas dos jornais. As notícias de ontem já me são absolutamente suficientes para ver que estamos suficientemente em forma no diz respeito a perder a chance de ficar calado.

Abro o Facebook e descubro um novo alvo da maledicência nossa de cada dia: trata-se de Zeca Pagodinho. Enquanto o sambista auxiliava a região de Xerém, coordenando a arrecadação de doações para os que foram afetados pelas enchentes, algumas pessoas o criticavam, afirmando que: 1) o cantor se aproveitava da desgraça alheia para fazer publicidade; 2) a bondade tem outros heróis, anônimos tão ou mais merecedores de reconhecimento quanto ele.

Pergunto-me se passou pelas cabeças dos críticos internautas rede-socialistas fazer algum tipo de doação aos desalojados enquanto esquadrinhavam as intenções do Sr. Pagodinho. Não terei respostas conclusivas.

Por fim, vejo a esquisita posse de José Genoino ao seu mandato de deputado federal, ainda que réu condenado do mensalão, autor de assinatura que liberou a tomada de empréstimos fraudulentos pelo PT junto ao Banco Rural. Sua diplomação no legislativo testa a compreensibilidade da confusa Constituição de 1988 e a razoabilidade do direito penal brasileiro. Afinal, permite que um homem contra a lei se torne legislador – está condenado, mas não há acórdão, há tempo para recursos, tudo precisa ser esgotado. A democracia tem contradições interessantes; veremos em breve como esta última se resolverá.

Aí vem o ilustre deputado Oswaldo Reis (PMDB-TO) e arremata, a fim de explicar seus aplausos à posse de Genoino: “Ele merece respeito pela sua história”. Penso que o deputado não entende o conceito de história, nem o conceito de crime, nem o conceito de legislatura. A posse de Genoino é para ser analisada, debatida, esquadrinhada, criticada. Aplaudir sua história sem observar a imensa e mais recente mancha de seu currículo é ser seletivo da pior maneira possível.

Aplaudir a história de Genoino durante sua esquisita posse é como criticar a atitude beneficente de Pagodinho em meio às enchentes: são monumentos nacionais à inconveniência, dois enormes exemplos da inadequação brasileira durante as oportunidades de manter o silêncio.

13.12.12

História de amor por um defeito meu




Meus amigos dizem que tenho uma memória invejável. Não os contrario o quanto acho que poderia, mas a verdade é que invejo o poder de retenção  e recuperação de outras pessoas, que acabam mais articuladas em debates. A minha memória é um fracasso quando a comparo com a de ídolos que cultuo nas artes e na literatura.

Brinco com meus amigos que minha memória se trata de pura sorte, já que, nos anos de juventude, não consumi as drogas ilícitas que eles esperavam que eu usasse. Depois digo que é brincadeira, para que não se sintam mal, e me apresso em esquecer qualquer coisa logo, para fazer sala, para não incomodar.

Cada qualidade traz seu defeito correspondente. Lembrar em tons precisos torna difícil esquecer, e assim rancor e mágoa podem se tornar parasitas. O rancor acontece imprevisível. A facilidade em guardá-lo é que é o defeito.

Jovens adultos tendem a se apaixonar por seus defeitos – é um rito de passagem. Creem que lhes conferem personalidade, ao invés de virtude e perfeição – que, além de esterilizantes quando alcançadas, são no máximo buscas por traços que não temos. Mais fácil é celebrar falhas e maus atributos, tudo o que já carregamos de nosso e que lavra a certidão do necessário infanticídio de nós mesmos.

Assim, meu rancor e eu nos perdemos em paixão um pelo outro. Na minha Guantánamo mental, nós dois impiedosamente julgávamos o caráter daqueles que nos fizeram mal; conhecíamos os fatos sem esquecer um único detalhe, de forma que ninguém saiu impune de não ter se desculpado. Alguns por meses, outros por anos, um e outro por mais de década.

Até que um dia me bateu a suspeita de que esses sentimentos são nocivos e que eu, que tenho histórico de tumores na família, não deveria dar mole para o azar. Que faria bem esvaziar algumas das celas, ainda mais aquelas de pessoas que não têm a menor chance de reaparecer. Dar caminho a velhos rancores seria até sábio, até pela minha facilidade em gravar novos. E que melhor ainda seria garimpar outra má qualidade em mim, talvez mais madura.

Afinal, é aconselhável ter algum defeito íntimo, pronunciável, para o caso de perguntarem. Ninguém quer ser pego de surpresa e passar numa tola hesitação a falsa impressão de ser perfeito.

6.12.12

Niemeyer e o belo comunismo







Estive apenas uma vez com Oscar Niemeyer, na abertura de um evento para estudantes ocorrido na Escola de Comunicação da UFRJ. O ano me é incerto, algo entre 1998 e 2000. O arquiteto ainda não tinha 100 anos. Sobre o que era o evento tampouco me lembro. Fomos lá para vê-lo, como mito e símbolo que era.

Quando lhe passaram a palavra, Niemeyer foi breve: não mais que um punhado de frases, por uns dois minutos. A idade ainda não lhe tinha roubado o porte, a altura e a voz, que encerrou firme: “Ainda é preciso fazer a revolução”.

Foi longamente aplaudido. Adolescentes querem a revolução, a subversão imediata do sistema de coisas que os lembra de seus pais, das leis enfadonhas que proíbem quase tudo que se quer fazer. Ver um homem se estender em anos com essa mesma retórica era sedutor, embora o comunismo já tivesse virado pó no Leste Europeu. Cuba minguava, e a Coreia do Norte era em nada atraente.

Por tudo isso, Niemeyer me soou ali adolescente, ingênuo.

Quando o Muro de Berlim caiu, em 1990, Niemeyer tinha 82 anos e havia muito sabia dos assassinatos e perseguições que Stalin empreendeu em nome do regime comunista na URSS. Em nenhuma oportunidade retratou-se, como fez a contragosto o historiador marxista Eric Hobsbawm, morto neste ano. Faria diferença?

Bem pouca. Niemeyer não era historiador, nem foi guerrilheiro, nem político. Seu ideário balizou sua incrível perspectiva arquitetônica – era parte dela e, àquela altura, seria difícil mudar. As superquadras de Brasília, os edifícios sem grades na Praça dos Três Poderes, o multiclassista Copan, tudo isso dá testemunho de uma visão equalizante dos homens. Pode ser interpretada como uma igualdade autoritária. A favor de Niemeyer está o fato de que "autoritário" e "autoral" surgem da mesma raiz.

É possível dizer que sua arquitetura foi o único projeto comunista belo e aceitável, enquanto os regimes se mostraram repulsivos. Ao se manter irredutível, Niemeyer protegeu uma das vigas-mestras de sua arte – erigidas desde os anos 1950, quando forjou os símbolos de Brasília – e com ela sustentou uma concepção mundialmente vitoriosa, que o guiou até o fim.

Oscar Niemeyer concordou em pagar o preço de soar ingênuo, hipócrita ou ultrapassado – e sua idade foi nos conduzindo à opção mais gentil. Mas nada disso o impediu de morrer genial.

29.11.12

Joelmir, o homem que falava economês





Quando conheci Joelmir Beting? Dos meus 34 anos posso dizer que o pai de Mauro e Gianfranco sempre esteve lá. Era o comentarista lúcido que falava com simplicidade sobre economia – assunto que eu, quando jovem, achava que sempre seria complicado.

Talvez tenha sido o melhor exemplo de uma verdade que me foi ensinada por certo professor da UFRJ, Hério Saboga: o jornalismo também é um tipo de tradução. É tirar certos conhecimentos do âmbito dos jargões e decifrá-los porque são de interesse público.

Simplificar o complexo não é empobrecê-lo – uma das piores confusões que um jornalista pode fazer. Por tal pecado, Joelmir não pagará: suas explanações sobre economia ou política eram transparentes e divertidas, sedutoras no rádio, na TV ou no jornal. Ele tratava bem cada minuto de atenção que lhe pudéssemos dar.

Para falar o economês, não precisou de um português pedestre, o que lhe permitiu criar expressões antológicas (sendo “Na Prática a Teoria é Outra” imortalizada como título de um de seus livros). Jamais permitiu que o lado aborrecido desses temas dominasse seus comentários, porque jornalismo também é um tipo de entretenimento – e olhe que é fácil revestir-se de tédio quando o assunto é economia: basta assistir a um pronunciamento do ministro Guido Mantega.

Didático sem ser professoral, ferino sem ser desleal, popular sem perder o estilo, Joelmir encontrou um equilíbrio como colunista que o colocou acima das paixões hidrófobas que hoje contaminam o Brasil quando o assunto em pauta é o desenvolvimento.

Parecia estar a serviço somente de sua abençoada consciência, criada a partir do vasto conhecimento que detinha e de um interesse claro pela matéria que dominava.

E assim 2012 vai terminando como um duro ano para o jornalismo nacional depois das despedidas de Millôr, Ivan Lessa, Joelmir Beting e de tantos diários impressos que fecharam.

Mas é preciso não cair no clichê de que “o país fica mais burro” quando tais inteligências se vão: primeiro, porque eles detestariam ser celebrados com clichês; segundo, porque ficam exemplos e tesouros abertos a todos.

Obrigado, Joelmir.

15.11.12

Deixem o ministro falar


Se todos fossem francos como ele, o que restaria da República, do PT, dos ministérios? (Foto: AGBr.)



Em sua descrição sobre os presídios brasileiros (recordo: “são medievais”, “preferia perder a vida a passar anos numa prisão brasileira”) o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, não nos disse nada que já não soubéssemos há tempos.

O desprezo aos direitos humanos no Brasil é institucionalizado, e nem os governos mais publicamente identificados com slogans de Justiça social foram capazes de contornar isso. Nossas prisões são depósitos desumanos de gente – sempre foram. Aliás, em termos de custódia de pessoas, o Estado brasileiro pode escrever enciclopédias sobre sua desumanidade patente ao longo dos anos: presos políticos, índios em reservas, doentes em manicômios e, mais recentemente, viciados em crack podem dar testemunho dos invisíveis campos de concentração para as gentes indesejáveis.

“Mas são presos”, argumentam alguns, como se a Justiça e o sistema carcerário (um de seus braços) tivesse o direito de ser injusta ou torpe com os torpes. Ao contrário, é pela Justiça que o Estado tem de dar o mais alto exemplo, para que os presos sejam induzidos a uma correção de suas condutas. Nossa legislação não fala em regime fechado e martirizante, e no entanto é o que temos. Tampouco fala em acesso ao mundo exterior para apenados de alto risco, mas é isso que damos a milhares que ainda comandam ações criminosas. Em suma, poucas coisas são mais obsoletas e imprestáveis do que um presídio brasileiro. E dez anos destas culpas já cabem ao PT de Lula e Dilma.

Um ministro da Justiça não querer ir para uma cadeia brasileira é até razoável – não conheço ninguém que queira ir para qualquer cadeia, independentemente dos motivos que o levem a cogitar uma etapa lá. Mas gostaria de saber como se sairiam outros ministros em declarações hipotéticas, pois suspeito que a década se perdeu também em outras áreas.

Depois de 10 anos de PT, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, confiaria filhos ou netos à escola pública? O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se permitiria tratar uma doença grave no SUS? O ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, se aventuraria num trajeto de ônibus urbano num rush de São Paulo, Rio ou Recife, recheado de carros novos a IPI baixo? Se deixarmos os ministros responderem a tais perguntas – para alguns demagógicas –, perceberemos a inconveniência das opiniões honestas para os donos da década.

28.10.12

HADDAD A GO-GO






Tava na festa da democracia
e na vitrola Haddad a go-go
descendo a Augusta pra pintar de rosa
aquela praça que vc montou

Senti na pele aquela energia
do Amor sim e Russomanno não
Ganhei do Serra no segundo turno
Nem tive medo mais do mensalão

Quase no fim da festa
Maluf com você apareceu
na minha fantasia
só tinha Haddad, Lula e Dirceu

REFRÃO (X2)
Eu só cantava 'pense novo, pense',
e te abraçava 'pense novo, pense'
lembrar você que a Marta não foi tão maaaal.

25.10.12

Por ora, nada será 'histórico'





Para explicar que nada é “histórico” enquanto ainda é vivido, o acadêmico italiano Claudio Magris relembra no livro “Danúbio” (1986) o que um militar húngaro, o conde Károlyi, escreveu sobre a rendição de sua aliada Bulgária na Primeira Guerra – derrotado, o Império Austro-Húngaro foi partido em nações menores: Áustria, Hungria e Tchecoslováquia, entre outras.

Károlyi admitiu não se dar conta da importância da rendição, porque “naquele momento, ‘aquele momento’ ainda não tinha se tornado ‘aquele momento’”. Magris o completa: “No puro presente, a única dimensão em que vivemos, não há história”. O tempo é que diz o que cada gesto imprimiu.

O julgamento do mensalão, conforme o estamos vivendo, é histórico por suas dimensões. É como achar o rapaz mais alto da família: basta medi-lo. Se ele por isso se destina a ser um ótimo jogador  de basquete, é uma outra história, que vai depender de tudo que reside apenas no futuro.

Pelas patentes políticas que alcança e por suas condenações já divulgadas, o julgamento é histórico em si, mas nada garante que ele vá ser o anúncio de um novo Brasil que surge, ou de um novo método para lidar com os políticos corruptos. A festividade pode e deve ser deixada de lado, por ser ingênua e porque subestima a engenhosidade de nossos melhores corruptos, sempre criativos, e a leniência de membros da Justiça. Este país sabe decepcionar.

A ação foi julgada com transparência pelo STF, ao vivo, com amplo direito a defesa e criação de versões. Somou atritos entre ministros, que chegaram a entendimentos a respeito dos indícios, provas e depoimentos – entendimentos que foram esclarecidos em votos didáticos, inclusive sobre a tese do Domínio do Fato. As prisões devem levar a novas quebras de silêncio, e o futuro nos dirá se o julgamento – já democrático – foi também perfeito.

A ideia dum “julgamento político” influenciado tanto pela opinião pública quanto a mídia evapora quando se nota: 1) que o PT já cresceu em número de prefeituras nessa eleição; 2) que recentemente a grande imprensa viu o STF aprovar por unanimidade as cotas em universidades públicas, que a maioria dos editoriais condenava.

Por ora, foi só um julgamento, num país que precisa de tantos – como a História insiste em denunciar há anos. Portanto, sem festas.

*Foto: Nelson Jr. STF

18.10.12

Sobre a Lua que se separou de nós



Cientistas de Harvard sugerem que o satélite foi arrancado da Terra num acidente de sorte





Dois cientistas ligados à Universidade de Harvard apresentaram uma novo modelo a respeito do canto que habitamos no espaço. O material foi publicado na última quarta-feira pela revista “Science”, uma das mais prestigiosas da área e atesta, segundo Sarah Stewart e Matija Cuk, como a Lua se formou a partir de material terrestre.


A astronomia já considerava a hipótese de que o satélite natural teria se formado a partir de uma colisão gigantesca com outro corpo celeste. Essa colisão “arrancou” um pedaço do planeta, que passou a orbitar em torno de nós. 

A partir de um novo modelo, Stewart e Cuk demonstraram como foi possível que Lua e Terra tenham o mesmo "material genético" uma vez que ambas dividem a mesma composição química usada por cientistas para “identificar” grupos semelhantes de planetas e meteoritos. 


E é aí que surge o mais interessante desse magnífico acidente do trânsito galáctico.


O modelo apresentado pelos cientistas indica que a Terra girava em torno de si mesma numa velocidade frenética: na era pré-Lua, um dia duraria não mais do que três horas. Pensando proporcionalmente, uma noite naqueles ensaios de planeta talvez não chegasse nem a 60 minutos – o que considero mais do que suficiente. As noites sem lua, como sabemos, perdem muito em termos de atrativos, além de não sensibilizarem as mulheres da maneira mais inspiradora. 


Por sorte, a imensa colisão que nos arrancou  o embrião da Lua freou a Terra, colaborando para que tivéssemos estas 24 parcas horas, nas quais tentamos conciliar trabalho, lazer e descanso, com mais ou menos sucesso. 


E com a gentileza que acompanha os melhores imprevistos, surge uma bem-vinda Noite: um conceito tão único que é livre de sinônimos e um espaço no tempo que refletiria toda essa escuridão que estávamos condenados a experimentar como espécie. 


Desde o medo infantil ao ambiente propício para sonhos e amores, à luz daquela parte de nós que vela de longe as dúvidas que temos sobre a origem disso tudo.








Não há perguntas incorretas, Serra






A liberdade de expressão é um dos mais belos fundamentos do Ocidente: sustenta que a democracia não se confina ao ato do voto. Permite que se confrontem, a qualquer hora, as opiniões que muitos adorariam que fossem absolutas, seja por discordar delas, seja por não estar convencido delas. Por isso, políticos têm como dever de ofício responder à imprensa, cujo papel é questionar – em todos os sentidos – em nome do interesse público.

Não por acaso foi bem-vinda a Lei de Acesso à Informação, que revelou os escabrosos salários acima dos tetos permitidos. Ela combate desde a má-fé dos governantes à má-vontade dos servidores protegidos pela estabilidade, porque garante que os Poderes sejam questionados.

Assim, não existem perguntas incorretas, e sim respostas mal dadas, negadas ou inconvenientes para quem as dá. Falha com a democracia quem vê numa questão um inimigo.

O candidato José Serra (PSDB), pelo visto, não conseguiu compreender esse fundamento da democracia mesmo após tantas décadas de vida pública. Ou quis abandoná-lo, em nome do que considera ser mais apropriado para o momento. Em suma, não foi democrata.

Ao não responder na rádio CBN à pergunta sobre o kit anti-homofobia do Ministério da Educação de Fernando Haddad (PT) e ainda afirmar conhecer as “preferências políticas” do jornalista Kennedy Alencar, Serra usou a condenável prática do ad hominem – atacou o mensageiro em vez de ater-se à mensagem. Tanto que, diante do apresentador Carlos Tramontina, do SPTV da Globo, o tucano não teve problemas em responder horas depois à mesma pergunta, que já não era mais “petista”.

O kit não é da agenda municipal, mas de Silas Malafaia, líder evangélico que se aliou a Serra, e é lamentável que tanto tempo do debate se tenha perdido com tal questão. Porém, se ela vem à tona, é problema de quem se aliou a Malafaia. Se se tornou de interesse público, é obrigação de Serra responder à sociedade que lhe pergunta na figura do repórter. Se seu governo produziu um kit antipreconceito, ele tem, sim, que esclarecer democraticamente se há semelhanças em relação ao material do adversário – sem escolher a quem responderá.

4.10.12

Vai votar de novo de qualquer jeito?





Convicção é importante. No voto irresponsável, começa o país que odiamos


O leitor já deve ter lido vários artigos – alguns até meus, se é que me coube a honra – que se esforçaram na tentativa de tentar conscientizá-lo a respeito da importância de um voto meditado e bem decidido.

Pode soar como um desejo paternalista, condescendente – quem sou eu para ensinar alguém a votar? – mas a verdade é que somos uma democracia jovem, recheada de jovens eleitores, com máquinas partidárias não muito chegadas a uma ideologia, ou a um plano de governo.

Não quero incentivá-lo a votar em A, B, ou C – e nem poderia, sendo esta uma coluna de circulação nacional sobre eleição municipal.

Quero apenas que o leitor pense quanto custa o seu voto para prefeito e vereador. Porque é verdade que, num país em desenvolvimento, o número na urna pode ser muito barato.

Uma rua já asfaltada é suficiente para vincular seu voto? Ou talvez a recém-inaugurada iluminação do seu bairro? Políticos que já estão no governo querem que você pense assim: que fazendo o mínimo de suas obrigações, você já se sentiria totalmente vinculado a reelegê-lo ou a votar em seus sucessores. Não se permita ser comprado por tão pouco.

Questões de fé são importantes numa eleição – como chamar de outra forma a convicção numa ideologia ou num programa de governo? Mas peço aos eleitores sinceramente religiosos que verifiquem se o programa de mandato de seus vereadores beneficia o mundo real do bairro e da cidade em que vivem. Não é por frequentar a mesma igreja que uma pessoa se torna o melhor nome. Como se sabe, há muitos lobos em pele de cordeiro.

Na dúvida, repense seu voto: você tem de hoje até domingo para saber em quem pretende confiar. Perca algumas horas para fazer uma pesquisa: a internet põe a nu o candidato despreparado. Se ele não consegue ter em seu site oficial um plano detalhado para seu mandato, abandone-o.

O fundamental é ter algum tipo de convicção – até para votar nulo. Mas é preciso também perder essa cultura arraigada de que só os governantes são os culpados, ou de que só eles são os que não fazem nada.

O voto dado irresponsavelmente é o começo do Brasil que odiamos.

27.9.12

Por que o dono de carro se tornou vilão?




Qual sacrifício você seria capaz de fazer para que a sua cidade tivesse um sistema de transporte de massa eficiente, ordeiro, fácil de percorrer e barato – e, em consequência disso, menos engarrafamentos?

Em diversas metrópoles (como as que recebem o Destak) cresce o discurso cada vez mais hostil ao carro, principalmente o de grande porte. Alguns defendem que ter ou não um carro é uma atitude política, que reflete níveis de urbanidade e educação: menos poluição, menos congestionamento, mais economia, melhor uso do espaço urbano. Com a bicicleta, ainda haveria o plus do exercício físico. O dono de carro seria um cafona, um troglodita, um primitivo.

Quem hiperpolitiza o debate não vê que o fator que domina a questão é a qualidade do serviço. Em São Paulo, a malha é insuficiente, confusa, mal integrada. No Rio, os tipos de ônibus e trens que mais circulam são estruturalmente arcaicos, caixotes barulhentos distantes do silencioso modelo possível. No Recife e em Brasília, o metrô não contempla as cidades – ele exporta as pessoas para a zona metropolitana. E em todas essas, bem como Campinas e o ABC, a mobilidade vai virando um sonho.

Em Berlim ou Viena, cidades paradigmáticas em termos de circulação, o transporte público é antes de tudo a opção mais fácil: o metrô e os trens urbanos são sinalizados de forma que até um turista se torna íntimo de seus mapas de rapidamente – sem sequer dominar o alemão. Nessas cidades, o carro de grande porte nem é percebido: ele é produzido, comprado por quem pode tê-lo e circula sem nenhum contorno de vilania. Não dá a menor vontade de se tornar inimigo de quem o dirige. Nem se podedizer em quem o cara vota só de olhar a marca.

O ir-e-vir precisa ser feito com facilidade, conforto e limpeza. Por isso a maioria abre mão de se sacrificar e compra carros assim que pode. Não é diferente do que se faz com plano de saúde e escola privada: pagar do próprio bolso por alternativas ao serviço de baixa qualidade que o governo dá ou concede.

A única atitude política que muda a questão é o voto, e não essa hiperpolitização vazia, que culpa “os mal-educados dos carros enormes” e cria os inimigos imaginários – moldados à perfeição para que outros possam se sentir mais nobres.

16.8.12

O ímpeto ativista e o reverso da piada



Sara Winter, protestando por alguma causa


Sara Winter, 20 anos, representante brasileira do Femen – aquelas manifestantes ucranianas que protestam contra qualquer coisa usando os seios nus – teve parte de seu passado revelado ontem na internet.

Descobriu-se um texto de 2011 em que ela criticava o movimento conhecido por Marcha das Vadias, em que mulheres protestam com trajes sumários contra o machismo e o abuso sexual. Segundo o texto, ela condenava as manifestantes pro não usarem roupas normais. Hoje, Sara usa até menos roupa para protestar.

Num perfil de Facebook, descobriu-se uma velha simpatia por ideais integralistas – o fascismo à brasileira – o que, somado à percepção de que ela tem no peito a tatuagem de uma cruz-de-ferro (célebre condecoração nazista), o que derreteu algo da reputação ativista dela.

Dá uma certa pena. Ela não fez a tatuagem neste ano e afirmou que não tem uma folha corrida de serviços criminais prestados a causas racistas ou fascistas. Aparentemente, pagou o preço de querer muito cedo fazer parte de alguma causa maior no mundo, abraçando símbolos de valores desprezíveis, como a extrema-direita. Em suas explicações, afirma que sua mente mudou.

Anteontem, por exemplo, foi presa de calcinha diante do consulado russo, pedia a libertação das garotas da banda Pussy Riot, que invadiram uma igreja russa e cantaram punk rock contra Putin. Era o protesto da moda no mundo na quarta-feira.

Sara tem um elogiável ímpeto para lutar por qualquer causa. Ao menos, deixou as piores.

                                                                             *

Em 13 de junho de 2007, a então ministra do Turismo Marta Suplicy deixou sua pegada no bestiário nacional ao sugerir um “relaxa e goza” – com sabor a brioches de Maria Antonieta – aos brasileiros que estivessem em longas esperas para embarcar. Elas se tornavam comuns durante a sua gestão.

Cinco anos e dois meses depois, a senadora (PT-SP) de 67 anos relaxou e gozou por quatro horas de pé no Pinto Martins, aeroporto de Fortaleza que também foi afetado pela operação padrão da Polícia Federal que tumultua os terminais do país.

Um caso clássico de piada que se vira contra o próprio humorista.

9.8.12

A chave não abre; quebre-se a porta




O que significa a aprovação de cotas de 50% de vagas das universidades federais para oriundos de escolas públicas? Essa é a pergunta que gostaria de fazer ao leitor, enquanto Dilma não sanciona a proposta.

Na sessão do plenário do Senado, que aprovou esmagadoramente as cotas, o senador Paulo Paim (PT-RS) afirmou que apenas um em cada 10 estudantes do país estuda em escola particular. Ou seja, como argumento para as cotas, temos aí o tremendo fracasso da escola pública do país nas aprovações, o que já é também responsabilidade do partido do ilustre senador.

O que o Senado está nos dizendo é: como o governo não tem condições de proporcionar ensinos fundamental e médio capazes de concorrer com as escolas particulares, a melhor saída para garantir o acesso do aluno estatal à universidade federal é na base do atalho.

Universidades foram concebidas como centros congregantes de inteligência, a fim de produzir mais inteligência. A pesquisa científica, o avanço tecnológico e a interpretação dos rumos da civilização brasileira dependem desse conceito meritocrático de “melhores se reunindo para pensar e contribuir melhor”. Se ela não opera assim é outra história, e aí é o caso de repensar o papel dela, e não o acesso a ela.

Não posso fechar os olhos para o fato de que hoje um diploma universitário é vital para o desempenho de uma carreira, e as federais são uma grife e tanto. Mas o que assusta é que justamente quem mais fala em ir contra as leis do mercado – a chamada “esquerda”, recheada de tantos intelectuais e acadêmicos – prefira fazer justiça social pelo viés mais mercadológico da educação acadêmica: o de que ela tem que preparar – ou melhor, chancelar – para o trabalho.

Impressiona também que essa esquerda, normalmente laica e até antiteísta, aposte tanto num argumento tão assemelhado ao da desprezada “culpa judaico-cristã”: o de que todo oriundo de determinada classe ou cor teria um “pecado original”, que deve ser expiado por meio de gambiarras baseadas em cor e classe.

Paulo Paim ainda afirma que “a rejeição desse projeto significaria não querer que os negros, índios e pardos tenham acesso à universidade”, um argumento tão válido quanto o de um chaveiro ruim que, incapaz de fazer chaves que  abram a fechadura, bota a culpa no “preconceito” da porta e a arromba.

Caso aprovado, o projeto de cotas dá o recado: nas escolas públicas, só somos capazes de ensinar o jeitinho.

26.7.12

'Batman', massacre e 'doença cultural'



O massacre ocorrido no Estado americano do Colorado durante a estreia do filme “Batman” é um prato cheio para o diagnóstico barato de “doenças da sociedade”. Procuramos culpados, queremos porquês e temos lá nossas convicções a respeito da violência e de suas origens na sociedade.

Impressiona-me, porém, que tanta gente ainda caia nessa história de que a violência de uma peça de ficção – as histórias de Batman, ou as cenas habituais do cinema americano de ação  – seja a grande culpada pelos atos de James Holmes, que matou 12 pessoas.

Milhões de pessoas em todo o mundo são expostas à violência de ficção. Nem por isso temos tantos atos espontâneos de assassinato em série. A violência em filmes e videogames é mais segura do que viajar de avião.

Justificar atos como esse por uma suposta influência da ficção na percepção de mundo de uma pessoa adulta é uma redução grosseira. É minimizar a responsabilidade que um indivíduo tem pelos seus atos. Nem mesmo o pior problema que esse caso expõe – a facilidade para comprar armas dentro das leis americanas – pode mitigar o fato de que James Holmes é um atirador sem a menor consideração pela vida humana.

O escritor indo-britânico Salman Rushdie comentou em seu Twitter o trecho da Constituição americana que versa sobre o uso de armas. Para ele, os EUA preferem se ater ao trecho que diz “o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido”, enquanto se esquece de que a 2ª Emenda cita como causa para isso a necessidade da existência de uma “milícia bem organizada”. Em outro comentário na internet, a jornalista Tatiana Lima afirmou com propriedade que Holmes conseguiu comprar 6 mil balas sem levantar suspeitas nos EUA e que “se tivesse baixado música, talvez fosse investigado” –  verdade que expõe a inversão de prioridades guiada por lobistas no Congresso americano.

O fato de se autointitular “o Coringa” é parte de sua fantasia torpe, e não um sintoma de que a produção cultural – americana ou não – é doentia. Doente é ele e quem faz vista grossa para o que é perfeitamente rastreável.

12.7.12

O dinheiro dos outros e a sua mãe




Rejaniel Santos, 36, e a companheira Sandra Domingues, diante da surpresa de um país 

Dois moradores de rua encontram R$ 20 mil (cerca de € 8 mil) numa rua de São Paulo. O dinheiro era de um assalto a um restaurante e fora arremessado pelos ladrões em fuga para ser recuperado depois. Sem saber a quem pertencia, o casal de catadores de lixo faz o incrível: entrega a soma à polícia.

A justificativa é tão inimaginável quanto acessível: “Parei para pensar no que minha mãe me falou: nunca roubar nada que é dos outros”, afirmou Rejaniel Santos, 36, companheiro de Sandra Domingues, mesma idade. Cada um deles ganha, em média, R$ 100 por mês. Acionados, os sócios do restaurante ofereceram aos “heróis” uma refeição e emprego no próprio estabelecimento.

“Renasce a esperança na humanidade!” é o comentário mais recorrente a respeito do “milagre da honestidade” dos miseráveis.  É curioso que quem comenta se coloque sempre fora da “humanidade”. Ao meu lado, ninguém admite que voltou a crer em si mesmo – no que faria em situação semelhante.

No fundo, não é bem o sem-teto que nos surpreende, mas nossa própria certeza de que faríamos diferente. “Não seria errado manter o dinheiro encontrado, ainda mais sendo pobre”, ressaltam alguns; bem observado, mas não seria o mais certo. E para fazer o mais certo, é preciso acreditar só nessas lições de mãe.

Ouso fazer a mesma comparação que o editor do Destak DF, Raphael Bruno, fez ontem com outro assunto, extraído de matéria de Carolina Ferreira neste diário: o deputado Antonio Reguffe (PDT-DF) gastou em 18 meses de mandato surpreendentes R$ 13 mil das verbas reservadas ao seu gabinete. Sua colega de Congresso Erica Kokay (PT-DF) torrou no mesmo período R$ 396 mil – o equivalente a 30 Reguffes– e está mais próxima da média per capita da Câmara que o colega. A comparação entre os dois é honesta: ambos residem no DF.

“Ninguém cometeu crime, Reguffe é quem economizou demais”, dirão alguns, “e isso acaba por embaraçar a outros”. De fato, mas será que não cabe a um deputado legislar ao custo mais baixo possível?

Concordo com Raphael Bruno: só a economia de verbas não bastam a um mandato, há outras questões envolvidas. Mas já diz muito sobre o que se faz com o dinheiro dos outros, à revelia dos conselhos de mãe.

5.7.12

O livro centenário e a casa funerária






Uma das maiores sortes que dei na vida foi a de um parentesco longínquo com um poeta. Creio que, se não fosse a curiosidade por uma “herança de família”, talvez eu fosse como tantos, que não veem na poesia algo com que se deva perder tempo.

O poeta é o paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), autor de um único livro, “Eu”, que completa hoje 100 anos e um mês. No contrato de publicação de 6 de junho de 1912 entre ele e seu irmão Odilon (ambos irmãos do meu bisavô Alfredo), via a luz um dos maiores monumentos do verso nacional.

Lembrei-me disso não apenas pela data, mas também porque, sempre que vou ao Recife, arde-me a vontade de passar pela ponte Buarque de Macedo, no trajeto de filme de suspense com que Augusto – admirador confesso da obra de Edgar Allan Poe – abre o enorme poema batizado de “As Cismas do Destino”.

        “Recife. Ponte Buarque de Macedo.
          Eu, indo em direção à casa do Agra
          Assombrado com a minha sombra magra,  
          Pensava no Destino, e tinha medo.”

É difícil encontrar a ponte – a sinalização do nome é discreta, e ela, que liga o Palácio do Campo das Princesas ao bairro da Boa Vista,  costuma passar batida por muitos recifenses.

Em 2007, eu fiz esse mesmo trajeto, de atravessar a ponte “indo em direção à Casa do Agra”, que vinha a ser uma sombria funerária de nome sombrio. Rua da Conceição número 3, lia-se nas páginas amarelas. Lá chegando, vi um funcionário antigo num espaço que só poderia ser descrito como uma “garagem de caixões”: um galpão aberto, exibindo esquifes sem o costumeiro pudor que as funerárias adotam. “É aqui a funerária de Augusto dos Anjos?” Ele me respondeu: “É sim, senhor.”

De passagem por Recife no último sábado, refiz o trajeto, e a casa Agra, de seu portão levadiço de ferro sempre aberto, não exibia esquifes. Havia um carro estacionado no galpão, e nenhum funcionário mais. Disseram-me na funerária ao lado, a Baptista, que, por uns contratempos comerciais, a Agra já não era concorrente havia 4 anos. Virou mero depósito.

Menos um lugar para celebrar um poeta, mais um motivo para ler seus versos, antes que outro lugar perca o seu sentido original – essa cisma que o destino impõe a quase tudo.


Para ler "As Cismas do Destino", clique aqui.

28.6.12

As várias moscas do sopão mundial



Absurda sob qualquer ótica, a criminalização da distribuição de "sopões" é uma ideia que perpassa a cabeça de muitos dos prefeitos, e não apenas de Gilberto Kassab (PSD). Em 2009, o ex-secretário da Ordem Pública do Rio, Rodrigo Bethlem, já havia proposto uma proibição semelhante.

O princípio por trás da ideia da proibição é o mesmo que levou muita gente a aconselhar que não se deem esmolas: em tese, o sem-teto tende a se perpetuar na localidade, uma vez que consegue seu sustento eventual. Compreende-se que ninguém queira ter em sua vizinhança a presença degradante (e muitas vezes intimidadora) de sem-tetos, viciados e mendigos.

Há prefeitos que são um pouco mais hipócritas. Em Nova York, Michael Bloomberg baniu em março deste ano a distribuição de comida de pouco valor nutritivo – hipercalórica ou com sal em excesso. Seria um banimento em nome da saúde – mas cretino, porque obviamente esse tipo de comida é mais abundante e fácil de se distribuir aos carentes.

Londres esteve a ponto de proibir no ano passado, quando o Conselho de Westminster (centro londrino), dominado pelo Partido Conservador, encaminhou projeto de lei que irritou as entidades de caridade locais. O projeto foi visto como higienista, com vistas à Olimpíada-2012.

Para contornar o problema, foram necessárias reuniões que chegaram a um ajustamento de conduta, tanto do conselho quanto das caridades. Com a sensibilidade que o assunto exigia, o conselho compreendeu que era juridicamente abusivo proibir a caridade – afetava até mesmo a liberdade religiosa, só para citar um dentre outros aspectos ainda mais relevantes – e se dispôs a encontrar lugares fechados no centro onde os sopões pudessem ser servidos.

Por quê? Com base em estudo da London School of Economics de 2009, os próprios mendigos preferem comer em ambientes fechados, próximos, com talheres, em vez de comer na rua. Sinal de que até mesmo um sem-teto por mais à margem que esteja (por opção ou por força maior) não se satisfaz com qualquer auxílio.

Ou seja, a melhor solução passa sempre por diálogos – até com aquele que será ajudado.

21.6.12

Uma reciclagem de reputações





Nasceu um novo partido na última semana. Chama-se Partido Ecológic Nacional, sigla PEN, número de legenda 51. A ideologia é mais ou menos aquela que já se tinha com o pV, tanto que já convidaram Marina Silva a se filiar a eles, tendo em vista as eleições de 2014. Se há diferenças entre os verdes e os ecológicos, creio que apenas o fundador Adilson Barroso poderá explicá-las. 

Muito provavelmente não convencerá ninguém.

Já escrevi aqui certa vez que o Brasil se acostuma a uma política apartidária. Rivais nacionais, PT e PSDB deram mostras nesta semana que são defensores de cargos e trincheiras, e não de um conjunto ideológico coerente.

A disputa a tapa pelo minuto e meio do PP de Paulo Maluf, culminando no patético aperto de mão de Lula, mostra que as ideologias se foram e agora, pelo menos em São Paulo, o que interessa é vitória, a qualquer preço.

Num aperto de mão, o PT do ex-preso político Lula e da ex-presa política Dilma relativizou muita coisa: uma ordem de prisão da Interpol, válida em 181 países-membros, uma condenação de devolução de R$ 716 milhões aos cofres do Estado de São Paulo pelo escândalo da Paulipetro, a criação da violentíssima ala da Polícia de São Paulo conhecida como Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), uma carreira propulsionada pela ditadura militar, que vai desde sua nomeação como prefeito de São Paulo pelo presidente militar Costa e Silva, em 1969, até as denúncias de ocultação de cadáveres e de colaboração com a tortura – cuja maior confissão fica num decreto de cessão de um terreno municipal na Vila Mariana ao Doi-Codi, a poucos dias da Lei da Anistia vigorar, em 1979.

Toda vez que vejo as imagens, consigo notar no semblante de Paulo Maluf uma sensação de vitória, como se quisesse alongar ao máximo sua união táctil com Lula. Vai entrar para o processo de reciclagem de reputações que os petistas já acionaram para Sarney e Collor. Que este deputado ainda seja disputado por PSDB e por PT para fins eleitorais joga por terra qualquer possibilidade de haver um diferencial ideológico entre dois partidos cujas figuras principais na ativa – Lula e Serra – são presos ou exilados políticos.

Antes, sacrificavam-se vidas em nome de ideologias. Hoje, sacrificam-se biografias por alguns minutos de TV.

14.6.12

Apenas uma tarde no Café da CPI


Uma coletânea de frases de ficção sobre uma comissão em que nada parece muito real

Vossa Excelência está à vontade? Aceita um cafezinho? Vossa Excelência prefere ristretto, descafeinado ou macchiato? Normalmente as Excelências preferem macchiato com adoçante. Gosto é gosto. Nós vamos começar a fazer as perguntas dentro de instantes.

Espero que Vossa Excelência não se irrite muito com o comportamento de outras Excelências quando lhe perguntarem. Alguns deles adoram espernear, mesmo no microfone. Vossa Excelência vai reparar que é parte de uma estratégia de sair nos telejornais da noite. O humor é uma ótima forma de propaganda nessa atividade aborrecida que é a política.

Vossa Excelência já foi ao banheiro? Convém ir, porque os depoimentos aqui costumam demorar mais de sete horas. Quer outro cafezinho? Sugiro também que Vossa Excelência faça um alongamentozinho. A cadeira é confortável, mas não é exatamente nova. Tem uma licitação para sair, uma Excelência estava tocando esse trâmite, mas aí teve aquele escândalo... esse não, aquele outro... esse! Pois é, e aí a licitação ainda tá à espera do edital... aquelas coisas.

Vossa Excelência vai precisar de um pouco de paciência hoje. Tem uns dois sites transmitindo ao vivo, o que aumenta a audiência e multiplica o número de vezes em que vão lhe inquirir a mesma pergunta mais de uma vez. Os parlamentares usam suas perguntas para marcar território e treinar oratória. Mas fique tranquilo, poucos estão realmente inteirados dos assuntos e querem mais desfilar vocabulário.

Vossa Excelência aceita um glossário? Há vez por outra um desfile de palavras bem difíceis aqui. Não, não que eu esteja menosprezando o vocabulário de Vossa Excelência, mas eu mesmo me embanano algumas vezes.

Vossa Excelência não se incomoda de o chamar de Vossa Excelência? Não é irônico, juro. Aliás, tire-me uma dúvida, por favor, Vossa Excelência: Vossa Excelência é da situação ou da oposição? Tudo anda meio misturado, muitas vezes eu me perco, perdoe-me Vossa Excelência.”

Vossa Excelência está como réu ou testemunha? É que de réu eu cobro 20% de gorjeta... ah, como testemunha? Então tudo bem, fica nos 10%.

Mas Vossa Excelência volta ou não?

7.6.12

Londres, Rio e o caos olímpico


Londres tem um antigo mas ainda incrível sistema de transporte público de massa. Incrível, pelo menos, aos olhos de brasileiros metropolitanos que sonham com um direito de ir e vir que não seja acompanhado de um dever de sofrer quando for exercido.

(Para os 7,8 milhões de habitantes da Grande Londres e sua definição de civilização, porém, suas linhas de metrô e ônibus estão à beira da indignidade nas horas de rush.)

Sabia-se desde 2011 que, para receber os Jogos Olímpicos em julho, um terço dos habitantes da capital deveria deixar a cidade, para evitar o caos. Por isso, as autoridades estimularam que as pessoas tirassem férias e alugassem suas casas para receber 5,3 milhões de visitantes. Há estações e regiões da cidade que precisaram ser esquecidas por 60% dos seus usuários tradicionais, a fim de evitar o desastre.

Com 402 km, o metrô de Londres é o segundo maior do mundo em sua extensão dividida por 270 estações. Só Xangai o supera.

O Rio, sede da Olimpíada seguinte, tem atualmente 46,2 km divididos por 45 estações, e uma população de 6,3 milhões. Ganhará, com sorte, mais algumas até 2016. A expectativa de turistas na cidade, de fato, é bem menor, uma vez que a oferta de voos do mundo desenvolvido para a cidade é menor que Londres, assim como a tradição carioca enquanto destino turístico. Ainda assim, o Rio recebe 1,1 milhão de turistas – internos e externos – num evento como o Carnaval.

A diferença é que, por ser feriado, a cidade para nos quatro dias de Carnaval e muitos cariocas buscam refúgios em outro lugar, enquanto muita gente continuará a trabalhar nos 15 dias de duração da Olimpíada.

A Copa é menos preocupante em suas cidades-sedes, porque já há dispositivos para decretar feriados nos dias de Jogos. Mas a Olimpíada, que é contínua, deixará extremamente claro o nó cego que o descaso deu no trânsito da cidade, auxiliado pelas condições que facilitam o aumento da frota de automóveis – segundo os números do Detran, há um carro a cada 2,5 habitantes, e esse número crescerá até lá.

Servidores públicos decerto aproveitarão pontos facultativos ao longo da Olimpíada – o que vai acontecer nos três dias da Rio+20. O resto da população, pelo visto, vai ter que aturar.

31.5.12

Carta a um jovem bailarino de 13 anos



These are private words addressed to you in public
T.S. Eliot



Enzo Frizzo Paulino Batlarejo, 13 anos, mora em São Paulo. Como qualquer garoto de sua idade, gosta de usar computador, entrar nas redes sociais e se dedica às atividades extracurriculares que sua condição de classe média lhe permite. No caso de Enzo, o balé clássico.

Quando seu tradicional colégio católico descobriu, a vida de Enzo virou um inferno. Foi chamado de “gay” e “viado”, surrado e até “proibido” de usar o banheiro masculino.

Sua mãe, que era professora na instituição, procurou a coordenação. Segundo ela, ouviu que ele deveria se acostumar, porque, afinal, dançava balé. “Eu me sentia a escória. E eu não sou gay”, disse o menino em entrevista a Felipe Oda, de “O Estado de S.Paulo”.

A história é idêntica ao que vivi no colégio carioca em que estudava enquanto dançava clássico. Fui personagem de matérias em “O Globo” e “Jornal do Brasil” nos anos 1990 por isso, mas jornal algum registrou o que minha vida escolar virou depois que meus colegas leram na imprensa que eu calçava sapatilhas.

Como eu, Enzo descobriu que o preconceito é um revólver disparado por um cego. A torpe aversão a gays faz as pessoas repudiarem até quem pratica algo que não identificam como sendo “viril”. Aos olhos do preconceituoso, nem a realidade interessa: mais interessante é o prazer em agredir o que ele quer longe de si.

Enfim, ser hétero não salvou Enzo de sofrer, como não salvou a mim. Ainda tive um professor de física que, ao me ver chorar na classe, disse-me: “Você acha que eles algum dia vão parar? Você quis fazer isso. Agora aguente.”

Ele e sua pedagogia medíocre pretendiam que eu desistisse. Só que ali entendi que o mundo pode ser hostil com quem quebra sua monotonia e até a Justiça que deveria defender os mais fracos se omite – no caso, a supervisão da escola. Nessas horas, é preciso perseverança para continuar. Lamentavelmente, respeito às vezes ainda se torna um esporte de contato.

São palavras confidenciais que envio a você em público, Enzo. Só deixei o balé quando percebi que não tinha talento: sem crise, sem traumas, satisfeito por ter aproveitado o que queria. Que você aproveite tudo, Enzo. E lembre-se: tudo o que as pessoas disserem falará mais delas e de seus problemas do que de você. Logo, não perca tempo ouvindo. Não vai importar.

24.5.12

Sobre Xuxa, uma última palavra


Xuxa nos pegou de surpresa no “Fantástico”. Vivíamos nossas vidas bovinamente até que fomos pegos de supetão por uma apresentadora que, aos 49 anos e longe de sua época de maior sucesso, pareceu ter saído direto da década 80 a fim de nos fazer uma revelação decisiva: até os 13 anos, fora abusada sexualmente por três homens em três ocasiões.

Podemos ser cínicos diante da espetacularização de seu depoimento, claro. Temos esse direito, porque Xuxa é uma celebridade cuja vida pessoal sempre foi midiática. Confinada em sua casa na zona oeste do Rio, tudo que ela nos deixou saber de sua intimidade foi através desse tipo de evento.

O anúncio de namoro com Ayrton Senna, o reatamento com o pai distante, a gravidez e o parto de Sasha foram alguns de seus sucessos transmitidos pela Globo e capitalizados em audiência. E o reformulado TV Xuxa anda em baixa na sua audiência. A estratégia da entrevista-bomba já foi usada por Michael Jackson e Madonna e às vezes funciona.

Por outro lado, só nesta semana 220 mil ligações ao serviço Disque 100 foram registradas pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos relatando casos de abuso sexual infantil. Antes do depoimento, o total de ligações de janeiro a maio estava abaixo de 40 mil.

Saber que a celebridade enfrentou as sensações de culpa e vergonha divididas por milhares de meninos e meninas em todo o Brasil certamente incentivou outras vítimas a fazerem o mesmo. Trouxe visibilidade ao Disque 100, que é pouco conhecido, e injetou confiança.

O que Xuxa vai fazer depois do seu depoimento é o que menos importa no tema. A fama certamente lhe trará muitos dividendos por décadas. Se vai capitalizar sobre isso, se o seu programa vai dar picos históricos de audiência a partir do depoimento, a “taxa de verdade” embutida no que ela disse, a minha opinião ou mesmo a sua sobre Xuxa, seja no papo de rua ou na internet, tudo vira questão menor quando comparado ao bem que efetivamente gerou.

O Disque 100 funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos fins de semana e feriados. As denúncias são encaminhadas aos órgãos de proteção em 24 horas, e o denunciante tem sigilo garantido. Basta discar 100, de qualquer lugar do país, ou enviar e-mail para disquedenuncia@sdh.gov.br.

18.5.12

E a Comissão da Verdade nas CPIs?


Já me adianto em dizer que sou a favor da Comissão da Verdade, desde que seja tão ampla, geral e irrestrita quanto foi a Anistia. O Brasil tem o direito de conhecer sua história em todas as nuanças necessárias, sobretudo quando houve esforço estatal no sentido de varrê-las para debaixo do tapete do tempo.

É uma dívida que o Brasil tem com a sociedade: preencher esse vácuo com os fatos, sem interpretações partidarizadas nem lendas que se tornam verdades. Há famílias que ainda convivem com dores da ditadura, seja pelo que foi feito pelo Estado militar, seja pela luta armada. A Verdade, com letra maiúscula, contempla os dois lados. É decoroso que se investiguem ambos, com o mesmo senso de missão.

Seria bonito, porém, que as CPIs fossem imbuídas deste mesmo espírito republicano. A que investiga os tentáculos de Carlinhos Cachoeira, pelo que se vê, é a costura de um imenso tapetão, para baixo do qual os amigos e aliados serão varridos com segurança. Ao decidir anteontem pela não convocação dos governadores citados nas gravações da Polícia Federal para depor a respeito das conexões que o contraventor Cachoeira tinha com suas administrações, a CPI decide se tornar uma peça de péssimo teatro que se arrastará até que todos os prazos se esgotem.

Marconi Perillo (PSDB-GO) tem que dar óbvios esclarecimentos de sua conexão direta com Cachoeira. Agnelo Queiroz (PT-DF), que se dispôs a mostrar o “exemplo de bom contrato” que seu governo tem com a Delta, deveria explicar porque os operadores de Cachoeira tinham tanto trânsito nas secretarias do DF. E Sérgio Cabral (PMDB-RJ) tem que dar esclarecimentos a respeito de sua relação íntima e festeira com o ex-dono da empreiteira, Fernando Cavendish, que opera negócios bilionários no território fluminense.

São pontos indispensáveis para que se conheçam a verdade e a extensão de um esquema de incrível força corrompedora. Mas os pilotos da CPI estão todos com muita calma – uma calma que não se via quando o PT organizava as CPIs quando era de oposição.

É como se, havendo a Comissão da Verdade, a CPI de Cachoeira não quisesse entrar na seara da concorrente, grosso modo. Nela, não deveremos esperar verdades, revelações, ou construir a memória. A CPI de Cachoeira nem entra para a história: ela almeja o esquecimento.

12.5.12


O CASAMENTO GAY, SEGUNDO BARACK OBAMA

Não é pouca coisa ser o primeiro presidente dos Estados Unidos a se manifestar a favor do casamento gay. Diante dos ares de cruzada religiosa que a pré-campanha republicana ganhou até o triunfo de Mitt Romney, o democrata ficou agora do lado das ideias liberais. É o que se espera de Obama.

(Democracia é isso: as pessoas têm o direito de pecar, e só são punidas caso seus pecados sejam enquadráveis no Código Penal. Na democracia, importa o que é crime, não o que a sua religião ou a minha consideram pecado)

A declaração de anteontem surgiu um dia depois de uma pesquisa que revela que a candidatura Romney pode realmente representar perigo ao atual presidente. O levantamento feito pelo site Politico.com e a Universidade George Washington apontava para um empate técnico: Romney com 48% das intenções, Obama com 47%.

Logo, não foi de graça que Obama disse isso. É de olho na campanha (e nos financiamentos para ela) que o presidente disse o que nenhum presidente americano afirmou anteriormente.

Primeiro, Obama agrada aos patrocinadores e doadores das campanhas do Partido Democrata. É a mesma lógica do comércio, que descobriu no gay um consumidor com maior poder aquisitivo e um turista mais preocupado com qualidade e conforto. Sem filhos e economicamente ativos, eles têm dinheiro para patrocinar suas causas e não vão se interessar por um Romney que confina a ideia de casamento ao padrão religioso: homem e mulher. Daí surge o segundo ponto: há todo um eleitorado gay e simpatizante que volta a apoiar Obama - a despeito da recessão econômica - por pura rejeição ao discurso carola republicano. Nas urnas, a questão se polariza, e há o eleitor que topa ser mais pobre, desde que possa ser feliz consigo mesmo e com seu amor.

O novo é que antes a direita americana se aproveitava do silêncio sobre essas questões. Um republicano se considerava triunfante ao ouvir apenas silêncio quando perguntava ao oponente se era a favor do aborto, do casamento gay ou mesmo da existência divina. Agora, pelo menos num tema, os liberais acreditam ser possível fincar posições sem perder nas urnas.

26.4.12


COTAS RACIAIS PARA TODO O SEMPRE
[Destak]

Há bons argumentos pelas cotas raciais em universidades. 1) A reparação histórica por uma abolição que não integrou os negros desde o início; 2) A má qualidade do ensino público nos níveis básico e médio, aos quais afluem as famílias brasileiras de baixa renda. 3) A necessidade de diminuir uma percepção social de que o negro está sempre nas posições inferiores. 4) A criação de uma elite que equilibraria a balança de tons.

Todas as razões citadas são nobres, mas nenhuma delas jamais me convenceu de que o sistema de cotas seria uma solução democrática – que dirá usando raça como critério.  E meu maior argumento é: sua instalação não veio acompanhada de um investimento na melhoria do sistema público de educação. Sem isso, a expectativa de revisão do sistema de cotas no futuro fica totalmente comprometida.

Mesmo os mais esclarecidos defensores do sistema de cotas entendem que ele tem distorções: 1) a do princípio da igualdade entre os cidadãos de uma democracia e; 2) a da quebra na ideia republicana de meritocracia. Mas, depois de alguns anos de sucesso com a experiência, dizem, haverá a reavaliação e o possível retorno para a igualdade nas seleções. Em suma: as cotas já previam o fim das cotas.

Mas não haverá fim sem salto na qualidade do ensino público básico e médio. Estamos no 18º ano do real, e a “geração da moeda” que estudou nas escolas públicas só ganhou... um sistema de cotas, do qual vai usufruir agora, quando chega à maioridade eleitoral – para os que se enquadrarem nos critérios.

Já se perguntou por que não há esforço em implantar cotas raciais nos colégios de aplicação ligados às universidades públicas que já as oferecem? Porque não interessa na caça eleitoral. Seus beneficiados estão longe de votar, e seus pais estão preocupados com outros temas: no fim, é a grife universitária que “corrigirá” o que a escola errou.

Ou seja, as cotas criaram um nicho de votos para os defensores desse sistema – que é usado também em concursos públicos do Estado do Rio e pode ser “estendido” a outras áreas– , e que ninguém mexerá porque sempre haverá eleitores “clientes” desses atalhos. Não porque queiram, mas por ser a melhor saída oferecida. E outra distorção na democracia se eterniza.

19.4.12

A CLASSE C, DOS ANOS 40 ATÉ HOJE 


É uma das melhores histórias da família. Nos anos 40, um erro no financeiro da General Electric do Rio deu a Maria um salário maior que o das colegas, o que causou revolta e injuustiça: ela foi acusada de má-fé. Foi defendida por outro colega, José, a quem Maria, por gratidão, presenteou com uma caneca de alumínio. Já notara que José tomava o leite dado pela firma numa lata lavada de Leite Moça. 


Maria e José, meus avós maternos, foram pobres e vinham de famílias numerosas que sonhavam com mais conforto e dignidade. O dinheiro que raramente sobrava era investido em educação (deles e da prole) e em bens duráveis. 


Tiveram menos filhos que seus pais: quatro, embora uma, Ana, tenha morrido prematuramente. Os demais estudaram em escolas públicas – à época bem melhores que as particulares – e chegaram ao ensino superior. 


Na economia instável, realizavam-se menos sonhos de consumo, mas havia a meta de proteger a dignidade das gerações seguintes. 


Lembro-me dessa história quando leio artigos e teorias sobre a ascensão da nova classe C, uma classe média surgida de um momento de renda mais bem distribuída, que mercados e indústrias tentam compreender e com quem uma suposta “velha classe média” se vê hoje disputando os espaços que antes lhe “pertenciam”, como aeroportos, cinemas, shoppings e até tramas das novelas da Globo, segundo alguns.


Esse “desconforto” revela que o Brasil foi pensado e gerido para poucos. O aporte de gente ao cenário do consumo congestiona ruas, metrôs, shoppings e aviões? Culpem-se os que perderam anos sem projetar um Brasil com mais distribuição de renda, maior oferta de crédito e mais gente com sonhos de classe média, como carros, viagens e casa própria.


Preocupa, porém, que o esforço em ampliar a base de consumidores não seja acompanhado por melhor oferta no ensino básico e no médio, que são disfarçados por faculdades baratas. Assim, a balança pende para a criação de uma classe subinstruída e subpreparada para o emprego, o voto e até para o consumo. Uma classe que se define pelo que pode comprar e, por isso, compromete o futuro com dívidas.


Em tempo: a caneca ainda existe. Diariamente, ela guarda sorrisos (e dentaduras) do viúvo Zé.

12.4.12

UM CRISTIANISMO PELA IMPOSIÇÃO?

O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado João Campos (PSDB-GO), disse que proporá emenda constitucional para incluir as palavras “desde a concepção” no artigo que define o direito à vida como inviolável.

É outra cartada do bloco religioso do Congresso a fim de bloquear brechas para o aborto, logo após decisão do Supremo que legaliza a prática para bebês anencéfalos.

A frente tem legitimidade política. Representa os interesses dos evangélicos, que são 20,2% dos brasileiros. Como explicou o editor do Destak DF, Raphael Bruno, em seu artigo de ontem, há espaço na democracia para a religiosidade nos debates sobre leis e julgamentos – tanto quanto há para qualquer outra opinião.

Mas não vejo cristianismo quando deputados tentam impor leis divinas a gente de outros ou nenhum credo, em batalhas que seu Deus diz que não lhes pertencem em seu livro sagrado.

Na Bíblia, o Deus judaico-cristão deixa bem claro que apenas Ele atua nas lutas em que sua vontade deve prevalecer. Como na batalha descrita no 2º Livro das Crônicas, capítulo 20, em que o espírito do Senhor avisa aos israelitas: “Assim diz Javé: Não tenhais medo e não vos acovardeis por causa desta grande multidão. Esta guerra não é vossa, mas de Deus.” Quando os fiéis chegam ao campo de batalha, veem seus inimigos já caídos no chão.

Se este Testamento for muito Velho, o próprio messias dispensou combates em prol de sua lei. “Respondeu Jesus: ‘O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui’.” (Evangelho de João 18:36)

A mensagem do cristianismo é de incrível beleza e elegância – quando não infectada por aspirações humanas. Religiosos ou não, deputados e senadores querem ser reeleitos, e para isso seduzem cristãos. Numa só tacada, lembram tanto os vendilhões do Templo quanto a reprimenda lançada a Pedro, quando cortou a orelha do soldado que ia prender Jesus.

Logo, fica-me claro que ares de “cruzada” em discussões legislativas são dispensáveis quando se crê em Justiça Divina ou Reino dos Céus. Pense bem, cristão, antes de lutar. Ou votar.

29.3.12

E como eu fico, sem Chico nem Millôr?

Polímata é uma palavra difícil de se ouvir no dia a dia: significa o indivíduo que estuda ou domina várias ciências. Como o Brasil perdeu dois exemplos dessa espécie rara em menos de uma semana, é hora de buscar os melhores termos que o “Houaiss” e o “Aurélio” às vezes escondem do nosso cotidiano.

O adeus a Chico Anysio, aos 80 anos, foi ensaiado com um lento baixar do pano. O habitat natural do cearense de Maranguape era a televisão, de onde perdeu espaço desde 2001 por motivos alheios à sua vontade. Em retrospectiva, o humorista, ator, diretor, roteirista, compositor, comentarista de futebol, pintor e criador de 209 personagens parece-me cada vez maior, talvez o ator dos atores nacionais. Se nunca interpretou um Shakespeare na vida, é de se dizer que o azar é todo do poeta inglês. Poderia ter sido um digno rei Lear, ou uma alegríssima comadre de Windsor, com trejeitos combinados de Salomé e Neide Taubaté.

Ao menos o Brasil deu ao velho William a sorte de ser traduzido por Millôr Fernandes, 87, que também foi poeta, dramaturgo, aforista, jornalista, ilustrador, inventor do frescobol e humorista fundador do lendário “O Pasquim”.

Dois intelectuais à brasileira. Duas almas enciclopédicas gestadas no século 20, que entenderam que seus papéis seriam mais bem desempenhados se espalhassem inteligência através do humor, em vez de preferir o caminho digno – porém mais restrito – do texto sério.

Chico alertou-nos em relação aos pastores centavistas (Tim Tones), aos políticos com horror a pobres (Justo Veríssimo), ao ridículo de ter que disfarçar uma homossexualidade à força (Haroldo) e, sobretudo, à necessidade de rir. “O humor deveria ser obrigatório”, afirmou certa vez em entrevista. Sátira e malícia de massas, para que o Brasil entendesse a si mesmo.

Já Millôr ensinou que a sabedoria não precisa ser palavrosa ou empolada – bem diferente do que políticos e juízes tentaram nos fazer crer. Criou teses arrebatadoras em frases curtíssimas, que revelavam verdades brilhantes e críticas astutas. É o brasileiro mais citável de todos os tempos, pau a pau com Nelson Rodrigues. Um exemplo? “Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem.”

Duas obras múltiplas, imensas, de quando o humor podia ser interpretado às gargalhadas, sem custas de protestos, debates e processos.

22.3.12

Um pacto entre o acaso e o destino

Nesta última semana, o assunto que mais me chamou a atenção foi a morte de um papa. Shenouda 3º era o líder da Igreja Ortodoxa Copta desde 1971; morreu no sábado, aos 88 anos. “Copta” é a palavra grega para “egípcio”, nacionalidade de mais da metade dos seguidores do pontífice, estimados entre 10 milhões e 20 milhões em todo o globo.

Mais impressionante ainda me foi como eles decidem quem o sucederá. Diferentemente do conclave católico – brilhantemente retratado pelo italiano Nanni Moretti no filme em cartaz “Habemus Papam” –, que dura poucos dias e aponta um vencedor após debates e votações dos cardeais, a eleição copta pode se alongarr meses. Os líderes da religião apontam três bispos, cujos nomes são escritos em papéis que serão reunidos numa urna.

O toque mágico da decisão é um sorteio executado por um menino que, de olhos vendados e “a mão guiada por Deus” (segundo a crença ortodoxa copta), escolhe o papel com o nome do vencedor. Assim Shenouda 3º foi alçado a um pontificado de 40 anos e 4 meses.

Acaso ou destino, é belíssimo que, mesmo após toda a política que indica a lista tríplice, a Igreja Copta aceite que os anseios e ambições de bispos racionais devam dar espaço ao imprevisível. Suponho que, neste sorteio sem manipulações, a “escolha de Deus” se legitime para eles, depois que os homens tenham feito as suas.

Só que os coptas têm todos os motivos para não confiar demais na sorte. Desde que a Primavera Árabe irrompeu em 2011, integrar a minoria cristã de um país muçulmano tornou-se ainda mais difícil. A ascensão de um partido islâmico no Parlamento egípicio piora ainda mais as coisas.

Ser um papa copta, como Shenouda foi, é agir diplomaticamente, guiando a religião mas sobretudo protegendo a faixa marginalizada do povo.  Atentados e assassinatos de cristãos egípcios são denunciados mês a mês pelas agências de notícias que cobrem o país.

Mas a tradição manda, e Shenouda 3º será substituído em sorteio. Assim os coptas ensinam que, por piores que sejam os tempos, a ilusão de tentar controlar tudo é um mal ainda maior que deve ser evitado. Haverá otimismo quando a inocência da criança mediar o ‘pacto’ entre o planejado e o aleatório – isso que todos somos, dia a dia, quase sem notar.

8.3.12

Às mulheres, uma felicidade sem dívidas com o passado

O Dia Internacional da Mulher costuma ser um debate. Enquanto umas se envaidecem por serem elogiadas, parabenizadas ou presenteadas, muitas não entendem qual é o ponto de haver um dia que festeje alguém pelo fato de, na concepção, ter recebido um cromossomo X a mais. De fato, por que ser parabenizada por algo que não se pôde escolher? Não faltam mulheres que se queixam desses cumprimentos, por verem um paternalismo embutido e da condescendência com segundas intenções.

De fato, é mais um convite à memória do que à festa. Memória das épocas em que a condição da mulher era ditada por uma série de convenções culturais, muitas com base em ortodoxia religiosa, outras em machismo. Quem vê hoje a mulher chefiar lares, trabalhar em cargos executivos e presidir países de dimensões continentais pode, muitas vezes, se esquecer de que são escolhas e conquistas relativamente recentes. Há algumas décadas, nem havia escolhas.

Mas todas as mudanças acabam tendo lados ruins, e hoje o que mais me chama a atenção é que, ao reverterem a  tirania dos homens, as mulheres caíram numa tirania das próprias mulheres, em altos debates sobre a condição feminina, o que lhe seria obrigatório ou não. Ditames criados pelas próprias mulheres, por aversão a velhos conceitos que não necessariamente são condenáveis ou prejudiciais.

Noto que há mulheres que nitidamente adiam os sonhos que têm sobre casamento e da gravidez como se devessem compensar as frustrações profissionais das antepassadas. Têm medo de casar cedo e “não aproveitar” a juventude com mais parceiros e menos dependentes, além de “empacarem” suas carreiras. É curioso que muitas não reparem que “casar cedo”, numa sociedade como a nossa, também pode significar voltar a ser solteira cedo.

Uma mulher que se casa e tem filho aos 25 anos pode, segundo a média aferida pelo IBGE, se divorciar 10 anos depois. Estará com 35 anos (para nossos parâmetros, ainda é uma mulher extremamente jovem e interessante), com mais dinheiro para se divertir e poderia até curtir “uma segunda adolescência”. Se o casamento durar mais, por que não?, tanto melhor.

Se me permitem, desejo que vocês possam escolher cada vez mais por suas individualidades, sem débitos com ideologias, e se tornem felizes de acordo com o que queiram sonhar.