19.7.11

Cold, poema da escocesa Carol-Ann Duffy, foi publicado sem tradução na capa da última edição do Prosa & Verso de O Globo, e acabou me provocando. O resultado é este, e o original em inglês vai mais abaixo.

Frio

Era tão fria a bola que nas mãos chorava
neve, e que ao rolar crescia pela neve até
que nela eu me sentasse, olhando para casa,
onde, num quarto frio de janelas cegas
de gelo, meus suspiros no ar se desnudavam.
Frio também no abraço que deu forma ao Homem
de Neve, e em meus dedões que ardiam frios dentro
das botas invernais; mamãe que me gritava
"Sai do frio!", com frias mãos de descascar
batatas que esperaram enquanto me beijava
cada bochecha fria e o meu frio nariz.
Mas nada frio como a noite fevereira
em que, nem jovem nem idosa, ela jazia,
e a testa aos lábios deu-me a tradução de "fria" .

OBS: O poema obrigou-me a empregar doze sílabas em cada verso (medida igualmente usada pela poeta escocesa), e rima no par final de versos. A gente abre mão de muita coisa quando traduz sem "liberdade". É mais uma revelação incompleta de intenções originais, além das escolhas que nos são mais caras. Espero que gostem.

Aqui, o original, com os direitos reservados.


Cold
It felt so cold, the snowball which wept in my hands,
and when I rolled it along in the snow, it grew
till I could sit on it, looking back at the house,
where it was cold when I woke in my room, the windows
blind with ice, my breath undressed itself on the air.
Cold, too, embracing the torso of snow which I lifted up
in my arms to build a snowman, my toes, burning, cold
in my winter boots; my mother’s voice calling me in
from the cold. And her hands were cold from peeling
then dipping potatoes into a bowl, stopping to cup
her daughter’s face, a kiss for both cold cheeks, my cold nose.
But nothing so cold as the February night I opened the door
in the Chapel of Rest where my mother lay, neither young, nor old,
where my lips, returning her kiss to her brow, knew the meaning of cold.


14.7.11

A lenda do cavalo da Troia tropical


Houve certa vez uma Troia tropical. Um país em desenvolvimento, historicamente marginal, vitimado por uma baixa estima incongruente com sua grandeza territorial e que tinha por principal orgulho... a sua cavalaria. Um dia, em seu litoral, foi deixado um gigantesco cavalo de madeira, que maravilhou a população. 


No casco da estátua, lia-se: “Garantia até julho de 2014, sob condições específicas”.

Ciente da clamorosa aprovação do povo, o rei bancou o presente, argumentando que “o cavalo é a paixão nacional”, que Troia merecia ter aquele orgulho e que o monumento geraria empregos e melhoraria muito o país em termos de estrutura. Até os aeroportos seriam ampliados para suportar o transporte do enorme animal. Estábulos em todo o país seriam reformados e novas estrebarias erguidas, e haveria investimento estrangeiro em inúmeras áreas. Troia estaria no centro das atenções do mundo.

Algumas sacerdotisas profetizaram, porém, que o cavalo talvez fosse um “presente de grego”. Já havia acontecido na África, onde a passagem de um equino semelhante em 2010 deixou vários elefantes brancos de vergonha, num rastro de gastos excessivos.

Em Troia, a obra de um estábulo histórico perto de um rio foi orçada em R$ 1 bilhão. Já na primeira cidade que receberia o cavalo, erguer-se-ia às pressas uma estrebaria privada que era sonho do rei. Foi presenteada com isenção de impostos, o que gerou chiadeira da oposição.

O rei não deu bola. “Deixa essas Cassandras, elas sempre falam”. Aceitou as condições dos exigentes tratadores do bicho e, anos depois, deixou a rainha para tocar as obras, que já andavam atrasadas como nunca antes. Fora outros problemas: cortes no Orçamento, concessões de ministérios aqui e ali para partidos que garantiam a governabilidade no Parlamento. Também a inflação batia as portas e o custo de vida aumentava. Morar em Troia tinha ficado bem mais caro, em parte devido ao que alguns analistas batizaram de “custo hípico”.

E nos campos de Troia, conviviam tanto a esperança de que a Cavalaria fizesse bom papel na festa quanto o temor de que, de dentro do cavalo, saísse um furioso Exército de contas. Que jamais se pagariam sem sangria pública.

1.7.11

Você sabe quanto custa R$ 1 bilhão?
[publicada no Destak de 30.jun]


O brasileiro médio dificilmente vai ter contato com R$ 1 bilhão. Nem mesmo os mais afortunados acertadores de loterias sabem dimensionar. Bilhões são para bancos, empreiteiras e valores relacionados a balanços e orçamentos dos governos. Dá para dizer que é raro haver R$ 1 bilhão sem governo no meio. Vou além: o bilhão de reais é quase uma unidade de grandeza exclusiva para dinheiro de gente que se relaciona com governos.

Um Maracanã reformado custa R$ 1 bilhão. Pronto, já temos um sinônimo para a grandeza.

Lembram-se de quando uma grande passeata no Centro do Rio gritou pelos royalties do petróleo? A conta que se trombeteava em 2010 era a de que, sem os dividendos do ouro negro, o Estado perderia R$ 7,2 bilhões anualmente. Segundo o governador Sérgio Cabral, essa seca faria o Rio literalmente "quebrar".

Sem os royalties, em quatro anos - tempo que dura um mandato estadual - o Rio teria perdido R$ 28,8 bilhões. E assim "quebraria".

Pois bem. Recentemente, outra conta que "quebraria o Estado" foi feita, a respeito do aumento dos bombeiros. Caso fosse concedido o piso de R$ 2 mil que a categoria inicialmente pleiteava - e que seria obrigatoriamente estendido aos policiais -, o impacto nas contas do Estado seria de R$ 4,7 bilhões por ano.

Em quatro anos - sempre pensando em um mandato - R$ 18,8 bilhões seriam gastos com as forças. Somados aos R$ 28,8 bilhões dos royalties "perdidos", uma gestão que "quebraria o Estado" teria perdido R$ 47,6 bilhões.

Por que uso quatro anos? Porque foi de 2007 a 2010 - primeira gestão de Cabral - que o Rio abriu mão de R$ 50 bilhões em impostos para beneficiar empresas: desde setores estratégicos, como a fábrica da Michelin, até uma famosa rede de cabeleireiros e duas termas. Esses R$ 50 bilhões são mais da metade do que Cabral arrecadou em impostos no período: R$ 97 bilhões, segundo a Folha de S.Paulo.

Renúncia fiscal é ferramenta para o progresso, quando bem-usada. Mas, se não for aplicada com rigor e sentido estratégico, pode quebrar um Estado. E aí surgem 1 bilhão de desculpas.

6.6.11

SUÍTE PARA BAILARINA SOLO


1. Prelúdio

Te ver dançar
é como explicar a Deus
o conceito por trás das divindades
que criamos
para nos afastarmos
d'Ele.

2.6.11

A matemática da vida em Fukushima

Há no Japão um grupo de 200 aposentados, em sua maioria engenheiros, que se oferece para substituir trabalhadores mais jovens num perigoso trabalho: a manutenção da usina nuclear de Fukushima, que foi seriamente afetada pelo grande terremoto de três meses atrás. Os reparos envolvem altos níveis de radioatividade cancerígena.

Em entrevista à BBC, o voluntário Yasuteru Yamada, que tem 72 anos e negocia com o reticente governo japonês e a companhia, usa uma lógica tão simples quanto assombrosa.

“Em média, devo viver mais uns 15 anos. Já um câncer vindo da radiação levaria de 20 a 30 anos para surgir. Logo, nós que somos mais velhos temos menos risco de desenvolver câncer”, afirma Yamada.

É arrepiante. Na contramão do individualismo atual – e lidando de uma maneira absolutamente realista em relação à vida e à morte –, sexagenários e septuagenários querem dar uma última contribuição: ser úteis em seus últimos anos e permitir que alguns jovens possam chegar às idades deles com saúde e disposição semelhantes.  

O que mais impressiona em toda a história é a matemática da vida. A morte não é para eles um problema a ser solucionado – ou talvez corrigido, pela hipótese mística da vida eterna que medicina e biologia tentam encampar e da qual as revistas de boa saúde tentam nos convencer; a morte é, de fato, a constante da equação.

Nada que o mundo ocidental não conheça. O filósofo alemão Georg Friedrich Hegel (1770-1831) certa vez definiu “mestre” como alguém desapegado da vida a ponto de enfrentar a morte, enquanto “servo” seria um escravo do desejo de continuar vivo – e que obedeceria mais às regras que lhe garantissem a sobrevida. Em consequência, o servo anula sua vontade de transformar o mundo e a si mesmo.

Criados numa sociedade de consumo, corremos o risco de levar essa escravidão às últimas, defendendo a boa saúde e os confortos com muito mais afinco do que aquilo que podemos fazer por nós e pelos outros enquanto ainda gozamos dela.

Os senhores do Japão ensinam que a morte é a hora em que podemos continuar a existir na memória das pessoas – uma oportunidade que, para mim, eles não perdem mais.

27.5.11

E agora a solidão tornou-se doença

A chamada na capa da Folha de S.Paulo me causou calafrios: "Solidão é doença e vivemos uma epidemia, diz estudo". Sempre entendi que a solidão era uma circunstância, uma consequência ou uma opção. Nunca me passou pela cabeça que fosse um estado patologicamente anormal e demandasse uma "cura".

Pensei nos vários solitários por opção que a partir de agora necessitavam de ajuda médica - haviam feito uma opção tão "suicida" quanto a de quem... fuma, para algumas cabeças mais radicais. Pensei nos inúmeros hipocondríacos que poderiam se juntar a qualquer pessoa para se prevenir. E pensei em como o século 21 anda babaca. Felizmente, quando lida, a matéria negava parcialmente sua chamada.

A causa da matéria é o livro Solidão - a Natureza Humana e a Necessidade de Vínculo Social (no Brasil, ed. Record), que destrincha os estudos sobre o tema feitos ao logo de 20 anos pelo psicólogo americano John Cacioppo, da Universidade de Chicago.

Tenho altas preocupações com esses estudos. Não que não sejam sérios - e este parece sê-lo - ou que as revelações não sejam aproveitáveis.

Mas concluir que a solidão "é um sinal de que algo não vai bem e que precisamos reforçar os vínculos sociais", como disse Colacioppo ao repórter da Folha, é sustentar que o aspecto do bem-estar biológico deve comandar toda e qualquer decisão da sua vida. Se a solidão é um estado que, como mostram os dados, pode levar ao aumento de doenças cardiovasculares, estresse e distúrbios de sono, é melhor então estar mal acompanhado?

A encruzilhada da ciência entre o biológico e o comportamental é um radar extremamente necessário, que desenvolveu alívios químicos a pessoas com depressão, ansiedade, insônia e outros transtornos que antigamente podiam passar despercebidos ou ser encarados como traços imutáveis da personalidade.

No entanto, há de se ter cuidado com esforços de normatizar a existência humana e seu vasto leque de sensações, em busca de um ideal de bem-estar. A solidão, como a tristeza, é das situações a que estamos sujeitos - primeiro, por estarmos vivos; segundo, por nossa cultura individualizante. Mas pode ser uma experiência absurdamente enriquecedora, ou uma opção de vida. Se sempre padeceremos, que ao menos evitem-se as precauções tolas.

20.5.11

EFEITOS DE UMA CANÇÃO DO EXÍLIO

O carioca vai caindo aos poucos na real a respeito de ter virado a capital do mundo na década atual. Antes a preocupação, porém, era macro: o custo bilionário das obras, o superfaturamento, os elefantes brancos. Tudo alarmante, mas ainda distante do cidadão comum, que dormia tranquilo.

A conta, no entanto, começa a chegar em sinais mais perceptíveis. A alta dos imóveis é assombrosa em várias regiões da cidade, e é cada vez mais comum ver gente que morava de aluguel na zona sul se mudando para bairros mais afastados porque os donos dos imóveis pedem o dobro nas renegociações.

Para muitos, uma canção do exílio, uma vez que essa alta dos aluguéis visa principalmente ao maior fluxo de turistas. O proprietário prefere alugar por temporada, modalidade em que ganha mais dinheiro, e há demanda para jogar os preços nas alturas, como pedir R$ 2,7 mil por um quarto e sala de 50 metros quadrados no primeiro andar no Leblon.

Essa mudança na demografia da cidade pode ser bastante interessante nos próximos anos: com uma zona sul ainda mais turística e cara, pode-se ter uma alteração no comportamento de um tipo de habitante que costumava se entricheirar na zona sul e dali não saía, a não ser sob protesto. Ir até a Barra? Um horror. Zona oeste? Terra de Marlboro. Zona norte? Perigoso.

Muitos desses preconceitos podem estar diante de uma diminuição a fórceps, uma vez que o principado do sul será cada vez menos da classe média nativa. Os especialistas não veem nessas altas uma bolha - ao contrário, encara-se a escalada dos preços dos imóveis como uma constante de década, que poucos ganhos conseguirão acompanhar.

Pode ser uma grande chance de ver um Rio mais preocupado com os Rios que não aparecem em cartões-postais. Que vai se ver obrigado a exigir do poder público a mesma quantidade de privilégios a que estava acostumado nos bairros onde se habituou a morar.

Por isso, é necessário um olhar muito interessado da população às metas de transportes, sejam elas vias expressas, sejam reordenamentos de ônibus, sejam extensões do metrô e, sobretudo, uma atenção rigorosa com o desenvolvimento das ações nas UPPs. Todo carioca deve manter esses movimentos no radar, porque a cidade que lhe pertence hoje poderá ser outra.

7.4.11

WELLINGTON, OU A ÂNSIA DE EXPLICÁ-LO

Coluna do Destak para sexta, 8 de abril

Filho adotivo de dita esquizofrênica. Fanático religioso, berram alguns, com certo prazer. Suposta vítima de bullying, chutam. Barbudo, terrorista simpático ao islamismo, classificam. “Animal” é a posição oficial. Assassino premeditado é o óbvio. “Ele é portador do vírus HIV, está na carta!” Ninguém lê isso na tal carta, mas repete. Vai que uma dessas explica.

Nos próximos dias, o cadáver de Wellington Menezes de Oliveira será esquadrinhado, dissecado, exumado e examinado pelo nosso desespero na busca da compreensão do mal. Queremos saber o que ele apresentaria como razões – como se houvesse alguma que pudéssemos aceitar – para efetuar de 30 a cem disparos contra crianças na escola onde um dia estudou.

A minha impressão é de que sempre perderemos o foco em chutes e análises apressadas. Assim como não se cria um Wellington da noite para o dia, não se explica um Wellington menos de 24 horas depois de sermos apresentados a um. Fora que boa parte das “explicações” revela menos dele e mais dos nossos preconceitos – cultura pop com ares de psicologia forense também cola, a gente gosta de séries policiais.

Já perdêramos esse foco antes, quando o nosso olhar oprimido-rancoroso notava tragédias em escolas americanas com certo desdém – tudo era fruto da paranoia da América. “A descontração nos salva, a cultura armamentista deles se volta contra eles mesmos.” Tudo problema deles. Ver a chacina escolar ocorrer – não numa high school  do Meio-Oeste americano, mas na zona oeste carioca – é mais complicado. Essa paranoia não era nossa. E agora, como fica?

É mais fácil aceitarmos, primeiramente, que Wellington jamais fará sentido. Assim começaremos a compreendê-lo.

Seja lá quais forem, os gatilhos que o transformaram no mais novo monstro nacional normalmente não têm efeito igual na esmagadora maioria das vítimas de traumas, mágoas, rancores e transtornos mentais.

O certo é que uma escola pública não pode permitir que qualquer ex-aluno entre em suas dependências a fim de dar “palestras”, sem referências de quem ele é hoje ou o que faz. Todos os criminosos, um dia, foram crianças; sorriam, brincavam e pareciam encarnar o bem.

22.3.11

POR QUE ALL AND EVERYONE, DE PJ HARVEY, É UM MUSICAÇO


Há certos momentos em que o poeta (ou, para usar uma palavra menos hã, "cafona", um letrista), parece simplesmente tomado de algum espírito. Poetas e profetas já foram vistos com um certo parentesco. "Vate" é uma palavra que pode ser sinônimo das duas ocupações.

"All and Everyone", faixa 5 do disco "Let England Shake", de PJ Harvey, cantora de cuja obra nunca me aproximei, é desses lampejos. O tema que ela aborda é a batalha de Gallipoli (ou Dardanelles), em 1915, Primeira Guerra Mundial, em que os turcos resistiram a um cerco de aliados ingleses e franceses, que tentavam tomar Constantinopla sob um sol inclemente de verão do Norte. Na soma de mortos dos dois lados, a história conta algo em torno de 392 mil. Mas, fora alguns topônimos citados na canção, como Bolton's Ridge, você não precisa se preocupar com isso.



É uma canção apocalíptica. PJ Harvey anuncia, como num despertar, que "a Morte estava estava em todos os lugares", sustentada por uma harmonia tocada em ritmo quase marcial. É um terror praticamente visual, dada a tensão nos acordes e o tom hipnótico com que PJ canta. Soa como um Cassandra, anunciando a queda iminente de Troia nas visões que teve durante o sono.

São imagens raras, inacreditáveis para a música pop, e assombrosas mesmo quando avaliadas sem a melodia, e ainda quando traduzidas.

"Quando você enrolava um fumo,
Ou contava uma piada,
Ela (A Morte) estava na gargalhada
E na água potável".

"A Morte se pendurava na fumaça e se agarrava
Aos 400 acres de uma inútil orla.
Um banco de terra pingava morte
agora, e agora e agora."

E, por fim, meu dístico preferido:

"A Morte estava no Sol que nos mirava,
fixando seus olhos em todos."

Não é coisa fácil, e sustenta-se por si. Com o arranjo econômico, essa letra nos põe diante do abismo, num crescendo de medo. É uma canção dramática, cinematográfica, extraordinária, com uma incrível divisão de sílabas. Reparem no impacto da antecipação da palavra negritada.

"Death was in the ancient fortress,
shelled by a million bullets
from gunners, waiting in the copses"

E ainda usa um surpreendente recurso de quebra de ritmo, que parece abrir fogo contra nossos ouvidos neste momento; "bank" quase vira "bang".

"Death hung in the smoke and clung
to 400 acres of useless beachfront.
bank of red earth, dripping down death
now, and now, and now"

(Para nós que falamos português e entendemos o inglês como uma língua universal, não deixo de pensar que certas frases só poderão ser aceitas em inglês. Em português, estaríamos diante da grosseira visão que PJ nos proporciona e não poderíamos encará-la. Pense num artista nacional que pudesse cantar esses versos sem soar caricato ou impostor. Às vezes, a minha sensação é que a canção em português do Brasil não tem salvo-conduto para adentrar certos terrenos, ou ainda não chegou alguém com credibilidade suficiente para alcançá-los.)

Mas vai além. Leio esses versos de PJ Harvey e não consigo deixar de relacioná-los com a Líbia e no tsunami japonês, para citar duas orlas que vieram a sangrar recentemente. É nesses lances do Acaso que a poesia fica ainda mais impressionante: quando profetiza. Elimine-se o cunho histórico inglês que Polly Jean quis dar ao seu disco e mergulhe-se nessa marcha, em que o sol impossível é simbolizado no momento de relativa tranquilidade, como se a música exibisse um cansaço em seu caminhar corajoso ao dizer:

"As we, advancing in the sun".

23.12.10

CRÔNICA DE UM DISTANTE NATAL
(Publicada no 24.dez.2010, no Destak Rio, SP e DF)


O ano de 2001 havia sido particularmente ruim, e aquele Natal apenas confirmava isso. Perdas na família, no coração e no emprego pareciam incontornáveis. Mecanicamente, comi a ceia da minha tia-avó e fui levar a melancolia para passear. Beijei os parentes, saí sozinho pelo edifício e tomei a rua, tentando decidir se iria encarar alguma festa – amigos me chamavam para lá e para cá. 

O que lembro, dobrando a esquina da Gomes Carneiro com a Visconde de Pirajá, em Ipanema, é de ver seis mendigos, amontoados na calçada, comendo restos de ceias. Eram cinco homens e uma mulher – hoje chamaríamos de sem-teto, mas ali eram só mendigos animados. 

De repente, a mulher achou entre seus embrulhos uma velha câmera fotográfica, que parecia ser daquelas compridas, descartáveis. Empolgada, ordenou a todos que posassem diante da máquina. Que provavelmente não tinha filme. Nem pilha. E, mesmo que tivesse tudo, nada me garantiria que tal foto seria revelada – ou que tal situação mereceria ser revisitada.

Parei diante daquela cena, sem palavras. Notando que eu prestava atenção neles, um dos sem-teto acenou para mim no meio da pose e gritou um “Feliz Natal”. Respondi no susto, confesso. Com um tímido e nada convicente “Pra você também”.

Não sei onde fui parar depois, ou se fui para casa dormir. Não me lembro de mais nada.

*****

Sempre resisti à tentação de escrever sobre esse episódio. Eu o respeito muito; nunca achei que ele me pertencesse tanto a ponto de poder interpretá-lo em definitivo. Toda vez que o Natal chega, penso novamente sobre o que vi, ouvi e disse, e às vezes conto aos amigos, sem concluir muito. Gosto de deixar o ouvinte à vontade para interpretar esse meu auto pessoal como quiser, sob maior ou menor efeito dos simbolismos desses dezembros profundos.

Ouço cada conclusão que me apresentam e gosto de muitas, mas são sempre reduções; nenhuma imprime em papel o encantamento que me arrebatou. Hoje, sem medo, posso finalmente desistir de querer explicar o que vi, porque sei que falharei sempre. Nunca estarei preparado. 

Ali, não fui mais que uma câmera.


.

31.8.10

MACHISMO PARA INICIANTES


Fui acusado de machismo. É até engraçado; a denúncia soa anacrônica como soaria a você, leitora, se de repente alguém, em tom difamatório, apontasse o dedo para você e lhe dissesse: "Eu sei que você não é mais virgem!". É daqueles crimes que dão vontade de confessar na hora, simplesmente porque foram bem arquitetados, bem executados e não deixam nenhum rastro de culpa. A impunidade é terrível nessas horas: é como se não concedessem o reconhecimento devido.

A "condenação"  veio, é verdade, por uma besteira: algumas pessoas leram o meu último texto na Maria Filó e me consideraram "repetidor de preconceitos em relação à mulher". Apenas descrevi como um homem decodifica imagens que se cristalizaram no mundo da Playboy. E sinceramente, pouco me importa se Larissa Riquelme será uma mãe exemplar e uma avó dedicada, ou se essa na verdade é Cleo Pires, ou se tanto faz, ou se N.R.A. Eu falava do que elas me permitiram fantasiar naquele contexto de coelhinhas de celuloide a que elas voluntariamente se submeteram com cachê razoável; o resto vai por conta do humor de quem lê.

Ok, eu sou um tipo de machista, sim. Mas agora vamos definir os limites desse machismo civilizado, democrático e pluralista que eu advogo, antes que vocês me enquadrem num fantasma de décadas e séculos que não vivi, demonizado por bibliografias feministas das quais muitas de vocês nem passaram perto. O curioso é que creio que jamais conseguirei ser tão machista quanto uma mulher consegue ser.

Sou um conservador utópico, porque não se acredita no amor sem um quê de conservadorismo e outro de utopia; afinal, não se trata da ideia mais nova do mundo, nem da meta mais palpável. O amor pressupõe uma questão de pertinência (que se deriva do verbo "pertencer"). Mas pertencer a longo prazo está datado, diante da videolocadora humana que se instalou após as conquistas de liberdades sexuais para ambos os sexos.

(Se eu sou contra isso tudo? Não, afinal de contas, é necessário entretenimento de vez em quando. E um traço do conservadorismo utópico é, vez por outra, admitir que toda essa busca é utópica demais e partir às 2h da manhã para o pragmatismo lúdico, diante de alguém razoavelmente irresistível. E lembre-se: sempre são 2h da manhã em algum lugar do mundo. Você foi avisada.)

Sou também partidário de um machismo que é resposta ao feminismo, porque não somos culpados de tudo. O machismo que advogo entende que a mulher dirija, vote e tome a iniciativa da conquista, mas que se mantenham substancialmente diferentes. O objetivo-chave desse machismo descendente do cavalheirismo é lembrar às mulheres como é gostoso ser diferente de nós, no maior número possível de significados dessa diferença.

E nós trataremos vocês, sim, como seres mais frágeis, não porque vocês são menos capazes, mas para que vocês exerçam o sagrado direito de serem mais frágeis do que nós. Porque vocês têm, além das guerras que aprenderam conosco, uma outra que nós não temos, que exige mais força do que qualquer outra que jamais enfrentamos: a da conquista da beleza, como arma pelo amor, como definição da feminilidade, como estandarte do sonho que a menina em cada uma de vocês nunca abandona: o de encantar. Não adianta, vocês se formam, criam independência, emancipam-se, mas adoram ser lembradas de que são, também, um rostinho bonito.

E damos essa colher de chá pelo simples fato de que gostamos de nos encantar. Sim, não fazemos nada que não seja do interesse da classe. Lamento informar de novo, mas nem eu sou, nem meus bróderes são, o seu amigo gay.

10.3.10

NOVA EMPREITADA: O INFILTRADO

Agora, sou um dos blogueiros na grife feminina Maria Filó. O primeiro post se chama "Roubos e Furtos"
http://www.mariafilo.com.br/blog/?p=239

5.3.10

E ELA SE LEVANTOU PARA BUSCAR ÁGUA
(publicada no Destak)


Os lençóis ainda estavam quentes, e eu ainda não havia notado os fios de cabelo que também estavam deitados na cama conosco quando ela se levantou e foi até a cozinha para buscar água.


Num lance de sorte, virei o rosto e ainda pude ver suas costas nuas, suas pernas olímpicas e o ritmo binário de suas nádegas em marcha, como se buscar um copo d'água fosse uma missão humanitária entregue a alguém que preza o estrito cumprimento do dever.


Sim, ela caminhava até a cozinha como um soldado vitorioso, que deixava para trás de si um inimigo vencido. Como uma enfermeira que conhece as obrigações de seu uniforme branco e se apega a elas mais do que ao sentimento de empatia pelo sofrimento alheio.


Ela também pega água como uma gueixa.


Assim que ela sumiu no corredor, tombei a cabeça para o outro lado, onde a parede branca metaforizava a impossibilidade de outras belezas naquele mesmo quarto depois daquela epifania maior.


A televisão calada, o aparelho de som em silêncio, nenhum pássaro na janela, o resto do mundo respirava em raros ruídos, como as plateias de teatro que tossem para dentro no meio de uma cena crucial.


E sua ida me deu consciência de um vazio mais fundo que todas as privações físicas já sentidas. Nenhuma fome, nenhum calor ou frio na história da minha humanidade mereceram mais autoanálise do que a secura despertada pelo momento em que ela se levantou.


E o atrito da língua no palato movimentava um ar seco como Brasília. Eu tinha os olhos úmidos de um largo cansaço, e o suor dos lençóis se havia evaporado, soprando na pele a necessidade de recorrer à água que viria, como uma bênção, da geladeira dela.


Tentei imaginar de onde viria a água. Poderia ser uma mineral sem gás de 1,5 litro, como as que bebo do gargalo quando jogo bola. Ou uma das bojudas garrafas com tampa de plástico e abas retráteis que imitam as dos bules. Ou das de vidro verde elegante e opaco.


Decidi que vem da moringa de alumínio que a minha avó materna tinha, com o metal suado pelo frescor potável que prometia às gargantas mais áridas.


E, quando ela voltar, nua, trazendo aquele grande copo d'água nas suas mãos pequenas - nas quais ele ganhará a forma de um enorme balde transparente de vida -, o milagre efêmero da satisfação humana se recriará. Até que seja preciso outro gole dela.
AO CARNAVAL, UM MERECIDO EPÍLOGO
(publicada no Destak em 19.fev.2010)

Vestido como um dos 300 de Esparta, fui um dos muitos heróis do Carnaval mais quente dos últimos 50 anos no Rio. Com pés revestidos de esparadrapo e gaze para aguentar a sandália grega, caminhei por vários blocos, respeitei tradições e vi as novas serem criadas. Testemunhei a folia e posso decretar que, sim, a Belle Époque foi restaurada no Rio a partir de 2010.

Seduzi-me no Bloco das Trepadeiras, moças de finíssimo trato revestidas de galhos e folhas verdes, rebatizadas como Maria Sem-Vergonha, Comigo Ninguém Phode e Costela de Adão, entre outras. Vi Pedro Ladeira, candidato a candidato em 2010, homem que, de terno e gravata, ignorou a sensação térmica cinquentenária e distribuiu programa de governo que criminalizava o toco - ou seja, o fora - durante o Carnaval. Louco.

Vi escritores consagrados vestidos de empregada, ostentando bigodes freddie-mercuryanos, varrendo de si os fardos do dia a dia e criando personagens e cenários para o futuro melhor que a cidade merece deles.

Sei que Paulinho da Viola estava incógnito de árabe no formidável Sassaricando, na Glória, e mais não digo, porque Paulinho é assim, de imensa elegância e discrição.

Circulei no Boitatá, segui o Boi-Tolo e me impressionei com a fartura de carnes e carniças no baile de máscaras a céu aberto. Estar sem fantasia na Praça 15 e na 1º de Março era inafiançável até para os mais paulistas. Ali, gritava-se a plenos pulmões, parodiando Obina, que "O Rio é melhor que Salvador" - rivalidade que se instala por vias dúbias, como reação ao Choque de Ordem nos blocos (que, diga-se, foi saudável).

Subi o Volta, Alice! e desci a tempo de ver o Epa Rei atravessar ruas de pedestres no Centro, do Real Gabinete Português ao Consulado da Suécia, sem precisar comunicar à prefeitura. Aplaudi a ideia de usarmos o anfiteatro do Buraco do Lume e escalarmos depois os degraus da Alerj, triunfantes e espontâneos. Lá, soube por alto que Arruda ainda se vestia de Irmão Metralha numa jaula do DF.

Do sambódromo - juro! -, só soube na apuração, porque sou um Paulo Barros de mim mesmo.

Vi o Bagunça o Meu Coreto, o Último Gole e honrei os blocos de praça, em que crianças e adultos não precisam ser separados. Naqueles espaços, virei menino.

Vi a Orquestra Voadora varrer o parque do Flamengo sob sol inclemente e escassez de líquidos. Lembrou o sofrido Círio de Nazaré, mas soube que posteriormente veio a Era de Aquário sob as árvores de Burle Marx.

E com memórias que guardarei na retina, desarmei meu espartano torto (um rei Leônidas da Silva?) e fui trabalhar na quarta, depois do Me Beija que Sou Cineasta, certo de que jamais haverá Carnaval como este.

22.1.10

QUANDO O MERCADO SEXUAL INCOMODA?

"Combatidos", prédios do Rio com atividades ligadas ao sexo apenas pagam o preço de suas visibilidades

Depois que tapumes decorativos esconderam a boate Help até que ela se torne o novo Museu da Imagem e do Som em parceria com a Fundação Roberto Marinho (leia-se Organizações Globo), o Estado do Rio já tem novo projeto cultural para barrar safadezas na ex-cidade mais sexual do Brasil, a outrora Rio Babilônia. Para criar a Sala Pixinguinha, deverá expropriar o Cine Íris – processo que, a julgar pelo da Help, deve levar um ano.

Trata-se do cinema mais antigo da cidade, que hoje exibe filmes pornôs prestigiados por trabalhadores do Centro e, de vez em quando, sedia festas alternativas.

Tanto a Help quanto o Íris acostumaram-se a ser pilares tradicionais do comportamento sexual da cidade. Nada no Centro é tão decadente e glamouroso a um só tempo como o centenário Íris e seus cartazes honestíssimos que levam office-boys e executivos a uma "aliviada". Ninguém entra lá só pela arquitetura art-nouveau.

Já a Help, na avenida Atlântica, em Copacabana, era o mais famoso ponto de turismo sexual do país, com a diferença de que era tudo, menos um ponto criminalizável. A boate atraía turistas de muitos países porque as prostitutas (nitidamente maiores de idade) iam para lá dançar (e obviamente fisgar clientes), mas a saliência era feita nas suas aforas. Os seguranças eram inclementes com amassos incisivos. E elas pagavam para entrar, como qualquer pessoa. Ou seja, o turismo sexual que é tolerado em qualquer lugar do mundo, e não o mercado pedófilo.

Transformar esses prédios hedonistas em áreas de interesse cultural é emblemático. Mas do quê?

Adoraria que o debate fosse "o governo Cabral se empenha em uma cruzada moralista em nome dos bons costumes"; no mínimo haveria a chance de intervenções em estabelecimentos famosos que exploram a prostituição usando alvarás disfarçados – o que perfaz dois crimes. Seria curioso ver o secretário de Segurança e os chefes das polícias numa empreitada digna de Os Intocáveis. Mas não é exatamente essa a estratégia.

Cine Íris e Help pagam o preço de suas visibilidades; o cinema, pelo caráter de patrimônio tombado pelo Estado; a boate, por sua preciosa localização litorânea. Ambos podem ser renomeados com ajuda de fundações parceiras, que se interessam pouco por outras regiões da cidade e sempre terão prioridade na hora de usar emprestado as instalações "recuperadas".

Vamos ver que fundação vai cuidar do Cine Íris.

15.1.10

Minha coluna de hoje no DESTAK.

FICÇÃO SUBTERRÂNEA Nº 2 - O ZAPPING

Detestamos ficar em silêncio, ainda mais com gente próxima, como no metrô. O problema é o que ouvir




Entro no metrô. Lotado. O ar-condicionado não funciona bem, e as pessoas começam a falar mais alto. Talvez as altas temperaturas realmente sejam as responsáveis por nosso comportamento mais ruidoso. Alguém deve ter teorizado sobre isso. Não sei quem.

Assim, é possível participar de conversas, mesmo para quem não tenha interlocutores. Viro o rosto para a direita. Uma senhora se abana, sentada nos assentos para idosos. Comenta sobre o calor. "Isso aqui tá um forno, meu Deus, nunca vi isso, Jesus Cristo." É um hit a conversa sobre o clima, ainda mais no verão. Acho que é talvez o principal traço da espontaneidade latina. Detestamos ficar em silêncio, queremos proximidade, queremos concordar sinfonicamente uns com os outros, principalmente com os que não conhecemos. E aí, desanda-se a falar daquilo que merece um desabafo. É uma conversa cansativa, então zapeio.

Meus ouvidos agora apontam dois rapazes em camisas ensopadas de suor. Tentaram conversar sobre futebol, mas as contratações de verão, pelo que pude perceber, não os animaram. Até que um resolve se arriscar num terreno que não parece dominar.

"E aquela parada que deu no Haiti, hein? Sinistro, tudo acabou lá naquele lado." Seu colega, que se pendurava na barra do teto do vagão, olhando para o chão, solta um palavrão de desabafo. Mas, como se sente impelido a falar alguma coisa sobre o sofrimento de milhares...

"É fogo. Deus não alivia a África mesmo..." Desisto de acompanhar a conversa até que os rapazes situem melhor o Haiti dentro de suas prioridades e geografias. A composição, que estava parada, fecha as portas no exato momento em que uma moça belíssima aterrissava das escadas com pressa - e aqui eu concedo, leitor e leitora, que vocês descrevam mentalmente como seria essa pessoa belíssima. Cansada e frustrada, ela se curva e vira a cabeça, bem na minha frente.

Abro os braços como quem lamenta, não só por ela, mas também pelo nosso vagão, que iria ficar mais agradável - afinal, há mulheres que são como brisas. Ela me sorri, sem jeito, e vira a cabeça. Na camiseta, lê-se, em inglês, a frase "O amor é um milagre", entre grafismos coloridos num fundo branco.

Foi a melhor conversa da viagem. No resto, entre calores, terremotos e empurrões, contribuí com o silêncio e desliguei os ouvidos. Nada mais era comigo.

6.1.10

Setlist de A PAIXÃO SEGUNDO CABARET

Prólogo
1.
A Paixão segundo Cabaret - o jovem Dontlov, após seguidas desilusões, jura se negar ao amor.

Ária

2. O Amor de Ninguém - Uma canção que apresenta o personagem já com cerca de 40 anos, e descreve o salto dele no tempo, seduzindo e deixando-se seduzir sem se apegar, com resignação sobre sua falta de talento para o compromisso. Até que surge uma mulher da qual ele não poderá escapar.

AS 10 ETAPAS DA PAIXÃO TRÁGICA
3. Animal, ou a Atração
4. Um Dia no Paraíso, ou a Obsessão
5. Bela e Vulgar, ou a Concessão
6. Crianças, ou a Transcendência
7. Eu Não Quero Mais Ouvir, ou a Decepção
8. Não É Mulher pra Você, ou o Arrependimento
9. Dentro de Você, ou o Rancor (com participação de Ney Matogrosso)
10. Glória, ou a Desistência
11. Já é Tarde, ou a Depuração
12. Nada Vai Ser Amor, ou a Terceirização

Epílogo
13. A Persistência da Memória


Essas são as pretensões. Fiquem à vontade para esquecê-las.

18.9.09

Inesquecibilidade

Ela veio da memória, desde o primeiro dia;
Não como se de tempos não a visse,
Nem como se a houvesse inventado,
Mas como quem vem do seu país de origem,
De maneira que, naquela mesma hora,
Eu pude me lembrar (em traços vivos
De sentimentos familiares e sentidos)
Da dificuldade que teria
De esquecê-la.

26.11.06

As letras de "Cabaret"

Como no post anterior a esta série eu tinha falado que estava me dedicando às letras da minha banda, o CABARET, nada mais lógico do que postá-las aqui, na ordem em que elas se apresentam no álbum.

Pensei em fazer uma edição comentada de cada uma das 12 letras, mas mudei de idéia. O que posso falar delas é que capto todo um conceito perpassando cada uma delas. O estrelato, tanto no palco quanto o protagonismo da própria vida. Gente desejando (e fazendo tudo por) atenção e recebendo desamor.

O palco não pode ser pouco é o caminho do exagero em busca da atenção de quem quer que seja. Quando queremos alguém, de certa forma, estamos atuando: decoramos falas, impostamos a voz, fazemos cenas. Nada garante o sucesso, mas mergulhar no personagem pode arrebatar a "platéia", o alvo da paixão. Acredito nisso, em fazer tudo o que estiver ao alcance -no mínimo, a culpa de um insucesso passa a ser do outro.

Com vocês, as letras de "Cabaret", álbum de estréia do Cabaret
Beijos,
Márvio/Marvel
www.radiocabaret.com.br
1. O palco não pode ser pouco
(Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)

I
Desse jeito tão normal
Esse show não vale R$ 1
Desce logo, pega mal
Ficar alugando o pessoal

O palco não pode ser pouco não pode ser palco não pode ser pouco
O pouco não pode ser palco não pode ser pouco não pode ser palco


II

Seu produto industrial
Sua aposta audiovisual
Sua pose sensual
Não emplaca nem comercial

Meio metro acima do bem e do mal
2. Messias pessoal
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Chorava sozinha, queria se matar
Trazia uma dor e pedia amor para aliviar
No primeiro que viu ela se jogou
E disse: "Eu te esperei, agora me salvei,
Estranhamente minha vida mudou"

Pode ser que nada disso
Nunca justifique o mal
De fazer do amor um vício
Por milagre na horizontal
E se você fizer de mim
O seu messias pessoal
Vá por sua conta e risco
Não peça perdão nem me julgue no final


II
Mas, numa manhã, algo aconteceu:
Sozinha ela acordou
Sem ninguém pra chamar de seu
Ele vestiu a roupa sem dizer adeus
E então desapareceu, o telefone não deu
Nem rezando ele te atendeu
3. Dama da noite
(João Paulo Cuenca - Marvel - Myself Deluxe, Setembro Edições 2006)

I
Ela está ali, debruçada sobre o bar
Preocupada em manter a pose e esperar
Um drink a mais, um drink a mais
Um drink não é mais do que a noite,
Do que noite toda vai lhe dar

II
Hey, hey, onde está o sucesso que ela fez,
Hey, por que será
Que ninguém liga a mais de um mês
E nada mais, e nada mais, nada mais
A dama da noite hoje não,
Hoje já não é nada de mais

Dentro da fumaça, não se vê néon
Ninguém mais enxerga o brilho
Do seu batom
4. Brilhar
(Marvel - Myself Deluxe - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)

I
Preciso juntar certezas
As luzes estão acesas
Agora eu não posso mais errar

Meu corpo incandescente
Cristal de calor constante
A escuridão não pesa em meu olhar

Vou partir, competir com a luz solar
Devastar o planeta em silêncio
Sem te acordar


II
Um vôo inatingível
O sangue por combustível
Eu já estou mais leve que o ar

As cores estão mais densas
Irradiações suspensas
Numa calamidade nuclear

Vou partir, competir com a luz solar
Devastar o planeta em silêncio
Sem te acordar
E no céu, num minuto desintegrar
Sem deixar nem sinal de que um dia
Consegui brilhar


Toda luz vai brilhar, cintilar e morrer
5. Rockstar Baby
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Meio sem querer, quase sem pensar
Decidiu sair sem falar com ninguém

Ela só levou roupas e CDs
Ninguém entendeu
Até que alguém lembrou
O nome da banda que ela tatuou

Se apaixonou
Por um rockstar baby, you know
Por um rockstar ela deixou
Para trás a vida que foi
Por um rockstar baby, you know
Baby, you know
Por um rockstar ela deixou
Para trás a vida que foi
Por um rockstar...

II
Sempre em camarins, ônibus de tour
Portas de hotel, dormindo pelo chão

Não parece mais ex-segundo grau
Seu sorriso tem uma ironia a mais
De quem tem nas mãos tudo o que já sonhou

O nome da banda que ela tatuou...
6. Não desista de mim
(Marvel, Setembro Edições 2006)

Existe um nome que eu sempre grito
Quando estou perto demais de ficar pior
Existe sempre uma chance que eu peço
Mas que você talvez não possa me dar
Existe sempre um colo onde eu quero chorar
A minha dor manchada de vermelho
Existe sempre no mesmo espelho
Um idiota me esperando passar

Mas não, mesmo assim não desista de mim
Não, não desista de mim

25.11.06

7. O amor e a guerra
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Faço isso bem
Não tenho por que negar
Se te desejar não me faz nenhum mal
Num certo sorriso,
O meu corpo confessa essa má intenção
Só pra te cantar
E até quando sai do tom, a música fica melhor

E não tem porém que possa negociar
O amor e a guerra que eu vou declarar
Num certo sorriso,
O meu rosto traduz toda essa má-fé
Que só te quer bem
É como se fosse um dom que não pode morrer em vão

Não vai dar pra te abandonar nem te adiar
Se ontem o amor tinha o que dizer
Entrar sem bater, fazer sem doer,
É algo a se aprender
Mas já existe uma sombra no meu lar
Que deixou a marca no edredom
Sem sequer deitar, sem nem abusar...
...e morre de medo de tentar


II

Faço isso bem, não tenho por que negar
Se te desejar não me faz nenhum mal
8. Copacabana full-time
(Marvel - Peter Glitter, Setembro Edições 2006)


I
Quatro horas da manhã
Nem sinal, a noite não pode parar
Os carros que vêm na minha contramão
Dão cinco tiros sem direção

Uma hora, R$ 100
Tão mulher que eu nem pude acreditar
No Leme, no Lido, no Arpoador
Copacabana sabe até falar de amor

II
Vem depois esse silêncio
Como o som de um paraíso infernal
No gozo que vem com um grito de dor
Copacabana sabe até falar de amor
9. Se você confiar
(Marvel - Carlos Gustavo Barros, Setembro Edições 2006)

I
Por que não?!
Ah, deixa disso, baby!
A gente não vai fazer absolutamente
Nada que você não queira

Ah, eles sempre falam...
E você liga pra isso?!
Você gosta assim...?
Você gosta assim?!

Eu posso te dar todo o meu amor
Se você confiar, confiar em mim

II
Tá mais calma?
Arrá, eu não disse?!
Todo mundo faz isso, baby,
Inclusive seus pais

Não vai mudar nada, juro
Eu te deixo em casa depois
Você acaba em mim
Você acaba em mim
10. Lingerie
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
O que eu não quis repetir aconteceu
De novo eu estava ali
Num quarto escuro, seu olhar, sem ter pudor,
Tirava minha lingerie

Faz tempo que eu prometi que nunca mais
Você ia me ver aqui
Mas, como um vício, o inferno volta
E eu não tenho mais como fugir

As suas falas são todas iguais
Comoum filme antigo, um déjà vu fatal
E eu sempre morro no final

Amor, devagar e pouco a pouco
Eu vou me vingar
Amor, devagar e pouco a pouco
Você vai pagar

II
Cada beijo agride e a noite me faz mal
Me faz ter náusea de você
Mas como um vício o inferno volta
E eu não tenho mais o que fazer

Me deixa ir, me deixa escapar
Abre essa prisão, aqui não é meu lar
Aqui inda vou te matar

Não tenho mais nada a dividir
Não tenho mais como implorar
Se for pedir muito a solidão
Se você não vai querer perdão

Não dê as costas para mim...
Não dê as costas para mim!
11. Um cadáver no palco
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I
Ninguem escutou, ninguém lhe deu atenção
Até que caiu o microfone em suas mãos

O baque seco de um corpo que ao chão tombou
Fazendo a platéia inteira gritar: "Roquenrou!!"

Sangue no ato, crime barato
Deixe o cadáver no palco
O show só termina quando ele levantar

II
Era um sacrifício, era autoflagelação,
Era um homem condenado à consagração
Finalmente a fama veio a banda não parou
Finamente a multidão estava vendo um show

O show só termina quando ele...

Palmas e vaias, vocês são todos animais (x3)
Palmas e vaias, vocês nos meus funerais

Sangue no ato, crime barato
Deixe o cadáver no palco
O show só termina quando ele levantar
O show só termina depois do bis que ele tocar
O show só termina...

Deixe o cadáver nu
12. Tudo o que aprendi
(Marvel, Setembro Edições 2006)

I

Não adianta amar de qualquer jeito
Eu não quero, não aceito esmola
De mais ninguém.

E vou dar um tempo nessa de insistir
Que você ainda vale a pena, a cena

Vou brindar à minha solidão
Procurar meu chão
Me retocar e mostrar tudo o que aprendi.

II
Um pouco de vinho, à meia-luz de um quarto,
Um retrato vela o ritual
Que vai além

Não é qualquer roupa não que hoje me cai bem
Tem que ser algo especial, cruel,
Tudo o que os outros achem quase desleal
Atração fatal
Vou dar as cartas, vou me vender bem caro
Sem perdoar e mostrar tudo o que aprendi

III
Eu quero pra mim, num gole de champanhe,
Um amor que me sirva a taça
De mais prazer

Um beijo cuspido, um doce meio amargo,
Um afago pra deixar de lado, pensando:

"Se você não vem, vou beber a minha solidão,
Procurar meu chão
Juntar os cacos, deixar para amanhã
E negar cada palavra que eu me prometi...

...ah, se eu pudesse te dar tudo o que eu aprendi".

3.6.06

Faz algum tempo...

...que não consigo blogar conforme me propus, devido ao ritmo de trabalho no jornal e ao empenho que tenho dedicado à minha banda, o Cabaret. No meu caso, poesia demanda tempo, demanda combustão e, acima de tudo, fragilização, que por sua vez, exige tempo para recuperação.

Não creio que tenha perdido a inspiração, ou a mão, para versos. Acredito apenas que ando canalizando esforços para o que considero mais urgente: a música, a letra de rock. Não considero as letras que faço poemas _talvez pelo fato de sentir que elas precisam da música para ficar de pé_, mas vejo nelas, sem dúvida, um exercício de metrificação semelhante ao que me ajudou a fazer poemas rígidos no ritmo.

Sem tempo para a poesia, vou fazer deste espaço um lugar para considerações. Se os poemas vierem, serão bem-vindos, mas não me obrigo mais a eles. A cabeça mudou muito desde o momento em que criei esse blog. Os blogs morreram, viraram flogs, que viraram podcasts... talvez seja a hora desde blog morrer para virar outra coisa.

A partir de agora, será assim. Abraços.

6.3.05

Mais dois poemas infantis que saíram na Folha de S. Paulo.
Prometo pôr em breve coisas mais maduras. Abraços.




O dia em que ninguém acordou


Estranhou ao perceber
Que a manhã chegara
sem ninguém despertar.

A cidade era um vazio.
Nas ruas, nenhum carro,
nas praças, nenhum pombo;
ninguém quis nada
com aquela terça-feira.

Passando pelas casas
ouviu roncos, assovios
e bocejos, repetindo
um mesmo sonho
ainda no começo.
Era um mundo inteiro
a babar no travesseiro.

Achou aquilo errado
e decidiu que não podia
voltar pra sua cama.
Foi berrar pelos bairros
contra o sono e a mesmice,
pois daquela chatice
não precisa não senhor.

E quando todos cochilavam,
ele virou despertador
pra no mínimo contar
que sonhava diferente.

Publicado na Folhinha de 5/3/2005




Medo do escuro
para Luca

Tinha medo do escuro
e, sempre ao fim da tarde,
apostava corrida
com a noite.

Atravessava a sala
naquele vôo às pressas
e aterrissava a salvo
nas cobertas.

Não queria ver Lua
nem contar as estrelas:
"Se elas só vêm no escuro,
pra que vê-las?!"

Até que se deu conta
De que bem mais escura
Era a noite guardada
Nas cobertas.

Içou a persiana,
e, olhando o céu aberto,
passou pela janela
uma certeza.

Quando perdeu o medo,
viu beleza.

Publicado na Folhinha de 27/11/2004

10.10.04

Nobre Farsa na Folha de S.Paulo

O suplemento Folhinha publicou este poema infantil inédito da Nobre Farsa no sábado, 9 de outubro. Era para ter avisado a vocês antes, mas o post não vingou aqui no Blogger.

Divido mais essa conquista com vocês. Abraços,
Márvio dos Anjos



Concerto para um marciano


Um dia, um marciano
(que estava em férias na Terra)
quis saber de nós humanos
qual foi o maior avanço
que tivemos no planeta.

Pela estranha maquininha
que lhe traduzia a fala,
conversou com cientistas
que explicaram muita coisa.

Só que nada convencia
o homem verde da nave:
"Sei disso tudo e sei mais",
disse pela maquininha.

Até que alguém teve a idéia
de tocar num velho disco
uma canção sem palavras,
e o ET quis entender
o que era a tal da Música.

Mal um disco terminava,
outro disco vinha atrás,
com flauta, piano, sax,
e essas gentilezas doces
que só o violino faz.

O marciano entendeu,
agradeceu, foi embora.
Jogou a máquina fora
(que não precisava mais).

Mas quem foi lhe dar tchauzinho
pôde ouvi-lo resmungar:
"Que inveja dessa gente!
Eles dizem tanta coisa
sem nem precisar falar..."

(em 28/09/2004)

1.10.04

Breve história do Tempo
A João Paulo Cuenca


Órbita emoldurando o caos, assim
Era o Tempo no princípio.

Caminho que a si mesmo percorria,
Corcel arisco a lacerar os céus
Sem piso algum, tocando a própria sombra,
Capaz de ir até quando voltava,
Como o senhor de um só e contínuo Instante.

Deus viu nele a matéria e lhe extraiu
A costela da qual esculpiu o Homem,
Fazendo-os pelo Instante combater:
Um, arrogante e novo, o quer eterno,
Mas o outro, rei deposto, o quer de volta.

Não haverá vitória, diz a regra
Da disputa.
A humanidade é a erosão do Tempo,
A consumir tudo que mais lhe falta.

28.9.04

Antologias publicam poemas da NOBRE FARSA

Fico muito feliz em comunicar que alguns poemas da Nobre Farsa viraram papel neste ano, nas antologias "Ponte de Versos - Uma Antologia Carioca", da Editora Ibis Libris, e no 18º número da revista-livro "Poesia Sempre", editada pela Biblioteca Nacional.
Ambas podem ser encontradas ou requisitadas nas melhores livrarias.

Agradeço aos amigos leitores, que sempre deram força, e a Deus, pelo mesmo motivo.



11.9.04

Carne

Não pretendo a dimensão do espírito,
Não me pertencem mente nem mentira.
Aceito-me carne, e meu corpo dá limites
À imensidão do Universo.

Na larga estrada do caminho eterno,
Sou a placa que avisa o quilômetro
Em que tomei do Tempo o tempo que era meu
(Por isso usamos lápides).

Sou táctil, espesso e licoroso,
Como o amor realizado.

Sou carne e, de tudo que sou, descendo.

9.1.04

Completude

A música vigora do contrato
Entre o homem e o Silêncio.
Mais do que som ausente,
As pausas são empréstimos
Daquilo que se ouvia
No prelúdio do Gênesis,
Nos ensaios da Criação
De um universo em estéreo.

Da musical quietude se coleta
Que também o homem se compõe
Do que tem e do que perde.

Cada tijolo não cimentado
É parte constante da obra.
Cada rumo preterido
Está no mapa de um percurso.

Nada, enfim, mais incompleto
Do que um homem sem perdas.

15.10.03

Soneto do Imbecil


Ao que me mira com desprezo morno,
Devolvo uma elegante baixa-estima;
Permito-lhe que me olhe desde cima
E cá embaixo, não dou ódio em retorno.

Não me interesso em arrumar esgrima
Com quem enxerga em mim tolo contorno.
Que julgue-me imprestável, débil, corno,
Tudo que fere o brio e desanima,

Pois não vou convencê-lo do contrário.
Deixo meu imbecil pra que o alcance,
Enquanto meu fulgor segue crescente,

Sem dar mais faces, que eu não sou otário
Pra conceder a todos sempre a chance
De conhecer quem sou inteiramente.

7.10.03

A Calma Tensa de uma Espera
Para Solanje, que me explicou este poema, cinco anos depois
Corações se partem no caos
Da calma tensa de uma espera.
Nunca mais precisaremos tanto
Um do outro quanto agora.

Que ao distrair não te afeiçoes,
A fim de desgastar segundos
Nem te agrades dos minutos
Já passados desse aguardo.

Que se perca o teu relógio
E não assistas mais ao tempo
No seu passo rumo ao sempre,

Pois devagar e vagabundo,
Cada adeus se faz perene,
E enquanto esperas, tarda o mundo.

12.9.03

PEDRO FRANÇA

Certa vez desenvolvi um heterônimo, um bon-vivant que, diante do bom dinheiro herdado dos pais, se especializou em não fazer nada de sua vida. Do alto de sua inércia, o que lhe garante ausência de erros cometidos fora as omissões, ele observa os absurdos à sua volta e, talvez por isso, se pergunte se ainda valeria a pena fazer alguma coisa.

Escreveu três poemas, num período de 38 anos de vida. E cessou, porque não lhe parecia bem começar uma extensa obra. Com vocês, Pedro França.

Poema de Ano-Novo

O ano novo está lá fora. Aqui, tudo é velho,
E frio, e fútil, e calmo, e desesperançoso.
Não há motivos pra vestir-me branco.
Não tenho essa pureza,
Não quero tanta sorte,
Nem sei se sou capaz de ser ingênuo a ponto de crer nessas tolices,
Embora fosse cômodo querê-las


Não quero esse ano-novo. Não quero.
Porque desperdicei tantos dias, porque joguei fora tantas horas
E não acho justo que eu possa ganhar outras,
Como uma criança que quebra todos os brinquedos que ganha.


Não quero esse ano-novo. Não quero.
Sei que ele me trará mais perdas do que ganhos,
Sei que a juventude vai se tornar um retrato em minha estante,
E eu que fui moço e fúria e brilho
Me aproximo a passos largos da realidade de ser um nada
Que se revigora a cada um dos anos-novos.


Eles estão lá fora, com seus champagnes, suas cidras, seus despachos praieiros,
Suas resoluções e sua desfaçatez.
Escolhem esse dia para serem puros, terem sonhos e sorrir.
Precisam de mais um ano para nos outros dias
Poderem se emputecer em paz; o ano-novo é viciante.
Por conta de uma convenção temporal, convenciona-se que seremos felizes.
Que podemos ter sonhos, e crenças e abraços agendados.


Não, eu não quero esse ano-novo. Quero alguns anos de novo.
Quero refazer, reviver minhas vitórias,
Curtir os melhores momentos, ver a minha reprise na Sessão da Tarde e,
Se puder,
Ajudar o garoto que fui a tomar aquelas decisões que me ferraram tantos anos.
E que me reforçam a crença de que não, eu não preciso do ano-novo.
Quero viver sem anos pra contar, quero viver cem anos e perder a conta.
E não ver tudo passar.


Não. Dessa vez, eu não vou com vocês para o ano-novo.
Vou ficar mesmo neste aqui.

Quase Ode

Moro em Ipanema, quase à beira-mar.
Nem tão quase, porque, da minha casa,
Inda devo percorrer cinco andares, dar bom-dia ao meu porteiro
E atravessar os dois quarteirões que me separam
Do risco de ser atropelado na Vieira Souto
Por uma van cujo trajeto inclui obstruir a passagem dos carros,
Irritando os motoristas,
Exatamente como fazem os ônibus,
Que normalmente irritam também seus passageiros.


Se eu não for vítima da irritação alheia,
Quase chego à praia. Sim, quase,
Porque não gosto de praia. Prefiro caminhar no calçadão,
Que tem menos bundas à mostra que a areia,
Mas pelo menos faz a gente dar menos atenção
Às informações diárias sobre coliformes
Que a imprensa amigavelmente nos recorda.


Caminhando até o Leblon, quase emagreço.
Quase, porque, no caminho, há sempre tempo
De lembrar da vontade incessante de comer que eu trago
Como se fosse um etíope e sua fome.
Paro, como um sanduíche e me arrependo. Porque eu quase ia bem,
Mas eu já me acostumei a parar pelo caminho em meus projetos.
Que não foram poucos, nem eram tão difíceis,
Mas foram igualmente abandonados num segundo,
Como essa dieta imbecil.


“Tudo bem, sou um quase magro”, chego à conclusão.
E quase magros podem se dar ao direito de quase ir à praia,
Ficar no calçadão vendo as quase bundas
Enquanto quase se contaminam na imundície da praia, logo após
Quase terem morrido ao atravessar algumas ruas.


Alguém quase me olhou no meu passeio?
Não sei. Nesta vida que parece hesitar em ser vivida,
E nada chega a ser alguma coisa, deve ser natural
Que passem por mim e quase se apaixonem,
Ou pior, que quase não me vejam.


Volto pra casa, antes de me sentir quase cansado.
E quase vivo, quase morto,
Vou ligar a TV e me enganar um pouco mais,
Telefonar para um amigo e deixar que ele me diga:
“Calma, Pedro, não se mate.
Está quase tudo certo.”

Diante da Insânia

Ninguém espera de mim um ato de vandalismo.
Rebeldia zero. Estou terminantemente sob controle,
Acreditam eles. Em paz com meus dias,
Eles pensam. Sou a válvula de escape que eles têm
Pros absurdos de seus mundos.
Comigo podem ser loucos, pois confiam em meu equilíbrio.
E não me reconhecem sendo desarrazoado.


Quem um dia me viu nos meus arroubos?
Quem foi capaz me ver, tomado de fúria,
Pleno de razões doentias, com motivos
Para conquistar Roma sozinho, e derrotar quem sabe o próprio Satanás?
Não, eles nunca me viram no fogo da minha insanidade.
Eles não sabem que minhas mãos são tão capazes de atos monstruosos
Quanto as mãos deles mesmos.
Que sou capaz de arquitetar com precisão e executar com frieza
Toda a psicopatia da raça humana.


Eu também vim do lodo, do barro, do carbono, do amoníaco.
A mim também me coube o direito à alguma insânia.
Posso explodir, posso fugir, posso irresponsabilizar-me
De cada uma das minhas atitudes.


Ontem cortei a mão. Não me lembro como.
Não senti a dor que me fez sangrar o punho...
A cicatriz? Está ali, e eu a vejo, enquanto digito nervosamente
Cada tecla com a mão direita.
O efeito está ali, aparentemente sem causa,
Como tantos males, como tantos acasos,
Todos os acasos e coincidências capazes de convencer cada ser humano
De que o Destino brinca de lançar-nos infortúnios.
Eu não creio nos destinos, e talvez não creia na ferida. Posso crer na cicatriz
Porque ela está ali. E crendo nela,
Posso crer em tantas outras coisas que faço
Sem mínimos porquês, ou sem ter que recordá-los.


As coincidências precisam de motivos? Precisamos compreender tudo?
Precisamos ser assim tão científicos, ou místicos?
Eu posso aceitar o acaso, e tantas outras coisas que acontecem
Sem o menor sentido,
Como todas as formigas que simplesmente aceitaram quando as pisei
Na minha infância, ou como todas as baratas
Que morreram debaixo dos meus sapatos.


Não houve vontade planejada, não houve propósito. Houve a ação,
Assim como há a minha cicatriz, que surgiu espontânea,
E assim como acontecerão todas as outras instintividades dessa vida.
Não posso crer que tudo tem sentido. Senão me mato.
E eu sou equilibrado a ponto de manter-me equilibrado,
Escravo do meu bom senso,
Para que eles possam ser absurdos, desmedidos,
Desregrados, obtusos, estúpidos ou simplesmente
Indiferentes.


Eles precisam de mim para verem seus absurdos.
Para entenderem sua estupidez como algo errado,
Ou quem sabe aperfeiçoá-la,
Se estiverem mais certos
Do que eu.


Talvez haja um motivo no absurdo. Talvez haja propósito.
Talvez eu precise ser absurdo algum dia.
Não há os que se jogam das janelas? Os que matam por tão pouco?
Os que berram em casa diariamente com seus filhos?
Os que jogam lixo na casa dos vizinhos?
Os que se negam a dizer bom dia?
Os que refutam qualquer “obrigado”?
E aqueles pobres diabos que jamais acreditam
Quando uma boa alma lhes diz “eu-te-amo”?


Tanta gente absurda no mundo, e eu equilibrado...
O que estou fazendo? Estou sendo humano,
Em todas as possibilidades da minha humanidade?
E o que é o humano senão um animal feroz?
Estou sendo equilibrado por quê? E eu preciso desse porquê?
Talvez desse eu precise.
Eu tenho que acreditar nesse porquê, pois quem garante
Que eu possa um dia desequilibrar-me?
Se eu precisar ser absurdo, saberei sê-lo?
Ou estarei anestesiado nessa paz artificial que me dei
Sem ter motivos nem porquês?


Eu tenho alguma insanidade, eu posso estar entre vocês,
Eu sei disso.
Irmão, irmã, pai, mãe, minha hereditariedade de absurdos
Ainda vai honrá-los e deixá-los absurdamente
Orgulhosos. Porque eu desisto dessa paz.


Cansei do absurdo de ser tão equilibrado
No meio desses ocasionalmente loucos
Vivendo dias que não têm porquês.

3.7.03

Divertimento

Quando vou na direção
De tudo que amo na vida,
Meu movimento é de mergulho.

Se há paixão na busca, é porque sei
Que estou no alto.

23.6.03

Último dia de uma volta para casa
(Rio, 23/06/2003)

Eram 3h20 da manhã e eu estava na Fonte
da Saudade quando a vida perdeu o sentido.

Diante da Lagoa, aos pés do Céu,
Eu sentia a dolorosa falta do que tinha ali,
À minha frente.

Eu me encantava com tudo aquilo
E tudo aquilo parecia me chamar de forasteiro.
Amanhã, devo ir.

A brisa salitrada da Lagoa soprava-me o adeus.
Meus olhos, como os de um turista,
Queriam carregar essa lembrança para uma distante casa,
Fosse onde fosse.

E eu chorei com medo
De um dia não ter mais o Rio em mim.



Eram 3h20 da manhã;
Já era tarde pra falar de amor.

19.6.03

Constatação

No decorrer da vida, em cada hora
Do dia, não te deixes esquecer
Que estás sós, que assim hás de viver
E que ninguém olha por ti lá fora.

Não te enganes; ao teu redor agora
Estão só solidões e -como vou dizer?-
As companhias que te dão prazer
Daqui a pouco devem ir embora.

20.12.02

Moça diante de esmeralda

Ela busca um reflexo na pedra.

Precisa ver-se de um jeito novo,
rico e diferente.
Carrega sobre os ombros o peso de uma idade
Deixa sob os pés uma cidade já distante
Chegou aqui faz tempo, e nada achou que parecesse
aquilo que buscava.
Anda acompanhada pelos muitos estranhos dessa estrada
Não sabe o nome deles, mas suas intenções são
– ocasionalmente –
Boas, e isso lhe bastava.

Mal-tratada pelos que conhecia,
Cansou-se, e foi viver de solidão.

Sozinha descobriu-se maior que este planeta,
Longe descobriu-se plena de si mesma.
E plena e só descobriu-se sem sentido,
Como uma Bíblia sem cristãos.

Por isso,
Continua diante dessa pedra, estática,
À espera dum reflexo, duma opinião de pedra,
Que sem hesitação lhe diga
“Sorri, moça; ainda continuas
Linda.”

11.10.02

Várias formas

Havia várias formas de dizer-te nada.
Eu nada dizia, você nada falava,
E tudo quanto se calava
Nos repetia a cada instante
Que havia amor ali, mais nada.

Havia várias formas de sentir-te amada
Uma delas, em silêncio, celebrava
O sono, o sexo, o carinho que mudava
A minha vida e insinuava
Que o tempo ali passou, mais nada.

Havia várias formas de cantar-te cada
Canção que inconscientemente recordava
A dor de algo que a gente já perdia
Pelos cantos, sem ruídos, se escondendo,
Até que logo não se achou mais nada.

Havia várias formas de virar-te a cara
Fingir que não a vi, quando passava
Por todos os lugares onde eu ia
Presente ou não, psíquica cilada
Disposta a se vingar, mais nada.

Havia várias formas de dizer-te nada.
Eu nada dizia, você nada falava,
E tudo quanto se calava
Nos repetia a cada instante
Que havia amor ali, mais nada.

12.9.02

Tão gentil, tão honesta no saudar...

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quand'ella altrui saluta,
ch 'ogne lingua deven tremando muta ,
e li occhi no l'ardiscon di guardare .

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d'umiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira,
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbra si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: sospira.

Dante Alighieri, em La Vita Nuova
_______________________________

Tão gentil, tão honesta em seu saudar
É minha dona, e tanto me parece,
Que minha língua dobra, a alma emudece,
E os olhos nem se arriscam num olhar.

Assim louvada, segue a caminhar,
Trajando a veste que a humildade tece;
Como algo que dos Céus à Terra desce
Vinda para milagres nos mostrar.

Só contemplá-la enorme bem inspira,
Pois dos seus olhos flui uma doçura
Que só compreenderá quem talvez prove.

E em seus lábios, parece que se move
Um 'spírito de amor de tal brandura
Que vai dizendo ao coração: suspira.






10.9.02

Paranóia

No alto daquele prédio,
Naquela calçada,
Fitando da janela,
Estão todos, todos
Contra mim.

Unidos sob um sólido ideal, repetem meu nome em sórdidas tramóias,
Sou seu mais digno alvo, última coluna a derrubar.

Na mesa daquele restaurante,
Na escadarias do Municipal,
Nas estações do metrô,
Todo e qualquer instante é pouco para eles, eles todos, todos contra mim.

Eles e seus malditos códigos, sinais,
Criptografias, isso que atravessa a mente e mente e mente e mente,
Esse calvário diariamente entre o que já não sei se é
E o que é simplesmente.

Eles me dizem em silêncio as coisas que não ouço
E você no meu lugar talvez nem entendesse.

É verdade é sério é de verdade e eu juro que é
Acredito na minha intuição
Tanto quanto em minha imaginação.

Atrás de você,
Ao nosso redor,
Diante da sombra trêmula que vela por nós dois,
Eles conspiram, eles querem sua ajuda,
Eles e você, sim,
São talvez vocês todos, juntos,
Todos contra mim.

Eles querem me matar porque eu os fiz viver e posso assassiná-los
E você no meu lugar talvez sobrevivesse.
Só que eu nem posso estar no seu lugar.

(O horizonte se afasta lentamente de mim enquanto
Um sopro gélido de vento pousa a mão sobre o meu ombro e some.)

No elevador,
No túmulo,
No Céu,
Eles, você e eu, Ele, enfim,
Todos juntos, vamos, todos nós agora
Contra mim.

16.8.02

Poema em 3x4

Um 3x4 teu em minha mesa
Me contempla,
Me vigia,
Vela o passar da tarde do meu lado e
me assedia,
Pedindo uma olhadela.

Um 3x4 teu é uma janela,
Onde às vezes
Eu te vejo
Quase sorrindo tímida e pensando
Num desejo,
Que apenas nessa foto caberia.

Num 3x4 teu sorri meu dia.